... Castigat moresNO MEIO DO CAMINHO TEM UMA PEDRA
Por Abdul Cadre
BARREIRO
Virtude é morrer-se enriquecido de virtudes, sobretudo a de cuidar dos caminhos, para que não haja pedras de tropeçar.
É que no caminho há sempre uma pedra.

Por Jornal Rostos
EU SEI a que não devia, mas que lhe hei-de fazer? Não consigo deixar de ficar confundido, incomodado ou perplexo com as crenças avulsas e contraditórias dos meus amigos. É evidente – confesso – que com as minhas não me incomodo lá muito, até porque adoro paradoxos, mas com rodriguinho alheio não me sobra a pachorra, embora tente quase sempre desmontar o argumento viciado.
O alentejano estúpido, o beirão teimoso, a pureza da criança e o está-se mesmo a ver são estereótipos que agem em mim como purga mental. É um palavrear que serve apenas para evitar o raciocínio.
É particularmente irritante a auto-suficiência do «está-se mesmo a ver», que é afinal a melhor forma de nada ver. Está-se mesmo a ver – basta olhar – que o Sol se desloca duma ponta à outra do céu, mas a ciência, que observa com outro cuidado, contraria, cheia de razão, o nosso olhar.
Ora, se em coisa tão simples nos enganamos, donde nos vem a falsa competência de querermos dar receitas aos outros. Faz assim, que é melhor para ti. Como sabemos, se não somos o outro?
Talvez tenha sido por causa desta prepotência que o famoso Pedro, o Eremita, na sua exaltação apostólica, tenha andado no oriente europeu a cortar cabeças empedernidas que não entendiam do benefício de se converterem. Converte-te que é melhor para ti.
Salvas as devidas proporções, está bem de ver, a febre do escuteiro que obriga o ceguinho a atravessar a rua, embora o mesmo não queira e se farte de espernear, é do mesmo jaez.
Há uma frase, dita por pessoas no desempenho do papel de piedosas, quase sempre de olhos em bico, que é muito perigoso criticar, apesar de ser uma inverdade psicológica e uma hipocrisia social gritante. Refiro-me à «pureza da criança».
Em Portugal, recordista europeu dos maus tratos às crianças!
Que coisa pura é essa que deixamos morrer de fome nos quatro cantos do mundo?
E tu, ó bem pensante, que tal te dás com o puto ranhoso da periferia do teu bairro suburbano, ou com o miúdo cigano que te atrapalha o passo com uma qualquer ladainha?
A criança não é nem tem de ser pura, mas um de nós que chega para a escola da vida, merecendo sem restrições, dada a sua fragilidade, a protecção dos mais fortes, dos mais velhos, dos mais instruídos e dos mais sábios. Nela se farão desenvolver as boas características e se transmutarão as más quanto se possa e saiba. Fingir que não existe a criança déspota ou não entender as exigências do «Id», não melhora o mundo nem dá felicidade a ninguém. Depois, mitificar o objecto amado não é amor, é engano.
No nosso país, tido como maioritariamente católico, como pode um crente conciliar a pureza da criança com a terrível contaminação do «pecado original»?
E agora, que se espalha como moda a crença na reencarnação, como aceitar nascermos puros?
Se voltámos aqui é porque não nos portámos lá muito bem na vez anterior e «estamos a pagá-las»!
Já pensaram que, se nascêssemos carregadinhos de virtudes e completamente liofilizados, isso não seria virtude nenhuma?
Virtude é morrer-se enriquecido de virtudes, sobretudo a de cuidar dos caminhos, para que não haja pedras de tropeçar.
É que no caminho há sempre uma pedra.













