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Bárbara Lopes: Poemas do ZimbroPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Tive o prazer de conhecer a Dr.ª Bárbara Lopes no início da década de oitenta, os alvores de Abril já passados mas ainda muitas esperanças intactas. O encontro, ocasional, foi na casa do Dr. Hélder Fráguas, então Director da Acção Sociocultural da nossa Câmara Municipal e a Dr.ª Bárbara, socióloga e romanista, sua colaboradora. Entendi-a como portadora de uma sabedoria posta ao serviço da nossa população, numa postura serena e fraterna que induzia ao diálogo caloroso.

4 min de leitura
Bárbara Lopes: Poemas do Zimbro Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

(À Leonor Rolo Duarte)

Tive o prazer de conhecer a Dr.ª Bárbara Lopes no início da década de oitenta, os alvores de Abril já passados mas ainda muitas esperanças intactas. O encontro, ocasional, foi na casa do Dr. Hélder Fráguas, então Director da Acção Sociocultural da nossa Câmara Municipal e a Dr.ª Bárbara, socióloga e romanista, sua colaboradora. Entendi-a como portadora de uma sabedoria posta ao serviço da nossa população, numa postura serena e fraterna que induzia ao diálogo caloroso.

Vimo-nos algumas vezes mais, uma delas quando acompanhámos Zeca Afonso à última morada, em Fevereiro de 1987, ruas de Setúbal percorridas com a tristeza do desaparecimento do grande criador e um dos nomes da nossa Revolução que juntara, na despedida, muitos milhares de pessoas, entre elas nomes de todos os quadrantes políticos.

Nesse encontro quebrámos o silêncio, por momentos, apreensivas com os caminhos, ínvios, pelos quais o País se metia e ela referia-me o fim de um ciclo produtivo que não era substituído por outro, mais moderno e no interesse dos trabalhadores. Que fariam eles dentro de algum tempo?

A análise que a Dr.ª Bárbara então fez da situação tornou-me clara a rota seguida por gente sem preparação (filosófica, cultural, política, económica). Hoje, infelizmente, uma realidade indesmentível. Que, uma ou outra vez (no teatro, no cinema), voltámos a abordar.

Agora a Dr.ª Bárbara Lopes mostra uma nova faceta, a de criadora de poesia, através de Poemas do Zimbro (1), numa cuidada edição de autor. As fotografias são de Filipe Lopes e Bruno Lopes, este último o cerne do conjunto de textos que a mãe lhe dedica.

Livro de
enleio
“Bruno, tu, o zimbro e eu
Fizemos este livro, que oferecemos a todos os que amam.” (p. 12),
ternura
“Era uma vez
Um menino muito lindo
E muito loiro.
Sua mãe chamava-lhe ternuras:
Meu cavalinho branco,
Meu tesoiro.” (p. 21),
saudade
“Era um pão
enfarinhado e ainda quente.
A sua ausência
Um lugar vazio e escuro” (p. 29).
Bruno, omnipresente, jovem roubado, à mãe e à vida, num acidente, brutal, irreversível:
“Com uma máquina
um homem inconsciente
matou o meu amor.” (p. 45)

Poemas do Zimbro é uma comunhão de sentimentos com todas as mães que amam os filhos, com todas as mães que se enlevam com os filhos, com todas as mães que perderam os filhos:
“Quem te arrancou das mãos
a romã entreaberta
e desviou a água que regava o teu jardim
e apagou o lume jovem
que incendiava o teu olhar?
Quem destruiu a vinha que plantaste
e te roubou
os dias de vindima?” (p.46)

Que com eles continuam a viver. No cosmos:
“Foi para a estrela da tarde que subiste
Só ela me devolve agora a luz do teu olhar.
É tão longe a estrela da tarde.” (p.50)
Religiosamente:
“Agora levaram-te o olhar outras alturas
Atraíram os teus pés outros caminhos.

Outra Compostela te esperava
Onde a catedral não é de pedra.” (p.93)

Livro de contenção estilística, de sinestesias, oferecidas por cores, sons, luminosidade
clássica:
“sei que iluminado
vives agora
todos os instantes junto ao mar.
Trazias esse modo de eternidade
anunciado
na cor de que eram feitos os teus olhos
e no voo das gaivotas
que te andava no olhar.” (p.55)

De verbos e adjectivos, contidos e precisos:
“Já não colhes as nossas uvas
nem pisas o nosso vinho.
Lá onde feliz vives agora
plantas tu uma vinha
que possamos juntos vindimar.” (p.61)

Comunhão com outros amores e duas mulheres:
“Mulher-menina
sonhada
e oferecida
na madrugada da vida.” (p.95),
“Radiosa nos teus longos cabelos
de oiro e cobre
iluminaste a sua noite desespero
Gesina-estrela-do-deserto.” (p.96)

Livro-elegia em metáforas e personificações
“Atravessou-te o coração o frio
do vento norte
e com ele foste, a conquistar o azul.
Aflitas e atónitas
esqueceram as coisas o seu nome
face ao inominável
que foi a tua morte.” (p.101),
“Espadas de gume ferem o horizonte liso
do deserto que há em mim
e estátuas de medo e espanto me guardam os caminhos.” (p.122), deixa-nos a imensa angústia face à efemeridade do ser humano.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Referências
(1) Bárbara Lopes, Poemas do Zimbro. Lisboa, ed. de autor, 2009, 131 + [2] pp..

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