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Uma pergunta inesperadaPor Jorge Fagundes
BARREIRO

"Mas, ainda bem que passaste hoje por aqui. O Chico não gosta muito destas destas minhas perguntas de velha, mas vá lá, acho que me vais entender. O que é que tu pensas daquela coisa dos casamentos de homens com homens e de mulheres com mulheres?".
Com esta pergunta inesperada, o gole de ginja mudou de rumo e...engasguei-me.

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Uma pergunta inesperada Por Jorge Fagundes BARREIRO

Por Jornal Rostos

Desde que o tempo o permita, costumo dar um passeio ao longo da Avenida da Praia, junto à muralha.
Mas hoje, por causa do ventinho frio e desagradável, resolvi ir pela Rua Aguiar.
Quase ao chegar à Igreja da Senhora do Rosário, à porta de uma daquelas casas velhinhas estava a "menina Bia" que, apesar dos seus noventa e tantos anos, sempre assim foi carinhosamente tratada.
Conheço-a desde o já longínquo ano de 1947, quando a Escola Alfredo da Silva começou a funcionar e eu, mais algumas centenas de rapazes e raparigas ali iniciámos os nossos estudos acabada, que fora, a quarta classe.
Ora, um dos meus colegas de então era o filho mais velho da "menina Bia", mulher bem bonita no princípio da casa dos trinta, com o qual estabeleci, desde então, uma amizade que ainda perdura. E a "menina Bia", a quem o flho me apresentou, gostou de mim e, ao longo dos tempos, continuou a gostar e a acompanhar (fico-o a saber sempre que a encontro) o meu percurso de barreirense adoptivo.
Chamou-me, "obrigou-me" a entrar em casa, a sentar-me e a comer uma fatia de bolo rei acompanhada de um cálice de ginja caseira.
"Olha, menino (continua a tratar-me assim) gostei muito daquela tua entrevista no Jornal do Barreiro. Até me vieram as lágrimas aos olhos por teres falado no Viriato, que mais o meu falecido João andou metido nas políticas do contra. O Chico (é o filho) trouxe-me o jornal".
"Mas, ainda bem que passaste hoje por aqui. O Chico não gosta muito destas destas minhas perguntas de velha, mas vá lá, acho que me vais entender. O que é que tu pensas daquela coisa dos casamentos de homens com homens e de mulheres com mulheres?".
Com esta pergunta inesperada, o gole de ginja mudou de rumo e...engasguei-me.
"Não me digas que está de acordo com essas pouca vergonhas. Não sei se ainda te lembras quando eu dei um ensaio de vassourada naquele p.... que rondava a vossa Escola, com uma mantinha enrolada no braço, e que estava a tentar engatar o meu Chico"?
"Se me lembro, "menina Bia", se me lembro. O homem, durante uns tempos, até deixou de aparecer junto da Alfredo da Silva".
"Mas, "menina Bia", esses eram outros tempos. Tudo muda.
E nós ,em Portugal, não podemos ficar indiferentes à evolução dos costumes que vai por essa Europa e não só. Há muita gente contra e muita gente a favor mas, "menina Bia", embora o façam parecer, este não é o grande problema que o País tem".
"Evolução dos costumes, dizes tu? Uma sem vergonha das grandes é o que é! Olha "menino" não te empato mais. Ainda tinha mais perguntas para te fazer, mas fica para outra vez. Já agora, se encontrares algum polícia, pergunta-lhe quando é que voltam a passar por esta zona, ao menos ao fim de semana, à noite. Nem calculas o que por aqui se passa. Se não fosse o meu falecido João dar uma volta na tumba até te diria (e aqui, prudentemente abaixou a voz) que tenho saudades da GNR".

Jorge Fagundes

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