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De Novo a Família Ferroviária (1)Por Manuela Fonseca
BARREIRO

O tempo passou: os heróicos trabalhadores dos caminhos-de-ferro já não vêem as estações, renovadas, interessantes, embora quase vazias; já não vêem os comboios, bonitos, melhores, embora poucos. Apenas para os arredores. Tudo mudou, o Barreiro também. A família ferroviária com a qual esperei a queda da ditadura é parte de uma saudade.

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De Novo a Família Ferroviária (1) Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

Nasci numa manhã de Novembro de 1949 e tal acontecimento provocou o júbilo na família alargada, ferroviária, a que pertenci, entre a Rua Dr. António José de Almeida e os becos, travessas, ruas e avenidas limítrofes: tinha esperado dez longos anos por mim. Também, junto ao rio, a Marquinhas e o Ti Bernardino Marinho, maquinista com quem o meu pai, quando jovem fogueiro, aprendeu.

Paradoxo: cheguei tarde e cedo para ver, ouvir e sentir os comboios: os números de código das viagens, os percursos, sabidos de cor, as paragens, mais e menos longas, o ritmo sobre os carris, de acordo com as localidades a que chegavam, ditos pelo meu pai e o patriarca Fonseca (não conheci o avô Horta ou teriam sido três a referi-los), o mesmo prazer discursivo, o mesmo enlevo no assunto.

Fui educada (“criada”, como então se dizia) para além da minha e das casas onde os parentes habitavam, quase todas na António José de Almeida; aí jogávamos ao ringue, fazíamos rodas e cantávamos. Ocupávamos o pátio da Zelinha, Anete e Maria João para fazer teatros, pagos e inventados, produzidos, escritos e publicitados pela primeira, que, no programa, solicitava cinco tostões a cada espectador, ela a actriz principal, num “travesti” fabuloso em inesquecível cena de amor com réplica homóloga do saudoso Carlos Manuel Cavalheiro, neto do maquinista, homem dos que mais respeitávamos, com um humor notável e a solidariedade nos actos, o Compadre Cavalheiro.

Também cresci com as das mestras das primeiras letras, o campo do Barreirense e o Ginásio-Sede, quando passou a existir – majestoso e testemunho de uma região –, no Depósito de Máquinas, nas Oficinas, a observar as composições, a ver a partida e a chegada dos comboios, o carinho dos maquinistas e fogueiros para com as locomotivas, o Zaranza, o Bacalhau, o Zé Marçal, afadigados, a pôr ou a tirar as malas, a subsistência em cada uma das moedas dadas pelos passageiros, cada homem tratado por “Senhor Engenheiro”.

Os desperdícios, recursos que ajudavam à limpeza das locomotivas, acompanhavam as duas bonecas que puderam ser-me oferecidas, a Fifi e a Orquídea Maria, acarinhadas e penteadas junto aos maquinistas, fogueiros, limpadores e operários, no Depósito de Máquinas, enquanto a minha mãe corria, corria (por isso cognominada “Rabicha 3”, como a pequena e veloz máquina), num impecável apoio ao nosso Cristiano da Fonseca Júnior. Apr(e)endido com a mãe e a sogra.

(As mulheres do pessoal de Tracção desdobravam-se na compra, confecção e entrega dos mantimentos que enchiam os célebres cabazes de viagem, o Barreiro-Mar – como se lêssemos assim o nome – a testemunhar a aflição, a rapidez e a chegada da comida: do serviço de Reserva, os companheiros iam, quase inesperadamente, partir.)

As lágrimas, tantas, com o trabalho do meu pai! Longe de casa – as lendas e os contos que não podia contar-me, as idas aos jogos do Barreirense à espera dos descansos semanais de estranhos períodos com muito mais de sete dias. E Lisboa mais longe, teatros e museus da capital a que não podia levar-me. Os sonhos para o futuro, o meu futuro, por enumerar de novo. A escola até me aborrecia sem o pai, apesar de tudo tão presente na minha vida.

Que, cedo e inesperadamente, no início da aposentação que o desgostou, forçada por um fascista, fez a última viagem. Talvez a pensar no Alentejo e no Algarve que amava e para onde muita gente e mercadoria transportara, os comboios de passageiros como aldeias de labor, refeições, bilhas de água fresquinha compradas na Funcheira, novos saberes e convívio.

O tempo passou: os heróicos trabalhadores dos caminhos-de-ferro já não vêem as estações, renovadas, interessantes, embora quase vazias; já não vêem os comboios, bonitos, melhores, embora poucos. Apenas para os arredores. Tudo mudou, o Barreiro também. A família ferroviária com a qual esperei a queda da ditadura é parte de uma saudade.

Os afectos que (também) me formaram continuam comigo, partilhados com as irmãs e os irmãos espirituais da minha infância de gente ligada à CP: para além da Maria João Bravo Silva (minha madrinha há trinta anos) e da irmãs Josélia e a Anete Simões, o João Manuel “Portugal” (alcunha herdada do avô materno, certamente criada no Depósito de Máquinas) Almeida Santos, o Jorge Paulo de Carvalho, a Maria Gabriela Cordeiro, a Isabel Caeiro dos “adoradores de comboios” – expressão que me empresta, herdada da mãe, a querida Adelaide –, o João Alberto Gouveia (terá sido nas Oficinas que o pai, José Gouveia, sonhou o magnífico mundo empresarial que, com a mulher, Patrocínia, engendrou e desenvolveu), o Carlos Godinho, a Maria José e o Júlio Dias, a Manuela e a Maria José Carvalho.

Na adolescência, a caminho do Liceu de Setúbal, que, graças ao passe social (regalia que substituía, certamente, as mais-valias a que os progenitores tinham direito) pudemos frequentar, estreitei laços com a Graça Marques, o Joaquim Lopes, o Alfredo Pinto, a Filomena, o Luís Carlos Samora, o Manuel Bexiga, o Miguel Santos – filho do corajoso Martinho Santos e homónimo do tio, distinto Inspector –, a Lena Coelho e o Zé Aurélio (paixão para a vida que surgiu junto a todos). Foi então que me liguei – devido a lições de Matemática do Dr. Hélder Fráguas, seu marido – à adorável tribo de Maria Fernanda do Carmo Fráguas, filha do ferroviário ilustre que foi o Sr. João do Carmo.

Também partilho sentimentos com estimadas pessoas do Barreiro-A – para lá das “cancelas”, dizíamos – que encontrei na maturidade: Brígida Cabrita Alves, Palmira Prates, esposa do sempre presente Dr. João Manuel Prates, a Maria Eduarda Carmona. No Lavradio, José Francisco Pereira, homem de competências múltiplas e estórias sempre contadas.

Ainda acerca dos que subiam e desciam no Barreiro-A: o Joaquim Lopes levou-me, talvez há quatro anos, à Escola Superior de Educação. Vimo-nos no fim do percurso e recordámos, em emoção e minutos, a nossa juventude e o amor, sempre renovado, pelos comboios. Nesse dia, como em tantos outros, eu conseguira estudar, admirar a paisagem e dormitar – ainda bem que pouco ando de automóvel. O Lopes continuou o nome e a actividade profissional do pai, outrora competente fogueiro do meu.

Encontro a médica Rosa Benevides e, ao olhar para ela, vou das cancelas ao Posto Médico com a respeitável figura do pai no consultório: quantos de nós observou e tratou com a equipa que dirigiu com sabedoria? Também ela na memória ferroviária. Como José Victor Adragão e José Manuel Silveira Lopes, entre os melhores alunos do Liceu de Setúbal e, por isso, premiados e feitos exemplos.

Este último que, sob o seu apelido, é um estudioso da história da ferrovia. Antecedido por Jorge Teixeira (parente do meu padrinho e primo Artur Cristiano Teixeira da Fonseca), Caro Proença, Gilberto Gomes, Armando Teixeira. Junta-se-lhes o Zé Encarnação. Através das suas artes: a de conduzir comboios, a organizacional, a informática e a fotográfica, esta na esteira de Mestre Augusto Cabrita.

E termino na evocação de Nazaré Almeida, menina-e-adolescente-feita-adulta, a tratar da mãe, do pai e da casa, entre os nove e os dezasseis anos, ao ritmo da grave doença daquela e do horário das Oficinas que comandava a vida do progenitor, João Ferreira, a dignidade do lar assegurada pelo salário nelas obtido.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Referências

(1) Manuela Fonseca, Família Ferroviária
http://soplanicie.blogspot.com/2009/12/nasci-em-30-e-novembro-de-1949-familia.html#more, consultado em 14-12-2009

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