Saltar para o conteúdo
Colunistas

Texto - CartaPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Sei, caro Luís, que vês, como cidadão e jurista, não ser necessária designação de casamento para a união civil entre as pessoas do mesmo sexo e que, como cidadão, achas ridículas certas manifestações públicas, carnavalescas de elementos da comunidade “gay”, cá e nos arredores da nossa “aldeia global”.

5 min de leitura
Texto - Carta Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

Caro Luís Santos

Espero que estejas bem, assim como a tua família.

Recebi a tua carta, uma velha carta expedida através do velho correio, o dos nossos pais, habitual até há pouco, hoje substituído pelo conforto e rapidez do electrónico que nos mantém, no escritório, na sala, na biblioteca, nossa ou na pública, e em qualquer lugar ou viagem o contacto com o mundo.

Entendi que quiseste produzir um texto que fosse mediado até mim por algum tempo, que permite distanciação, a mesma que o sobrescrito confirma, espécie de elemento de protecção da intimidade, aliás da minha, em relação ao que escreveste.

Finalmente, parece-me, posso respirar fundo. Décadas de um sentimento de humilhação, não poucas vezes de vergonha, de disfarce, de sofrimento para mim e as mulheres que foram minhas (quase) companheiras. Quantas atitudes, meu amigo, conscientes ou subconscientes – na partilha, tentada, de vida com cada uma delas – de revolta, quiçá de agressividade, digo até, de violência por ter vivido com cada uma delas, a estragar as vidas delas, dos filhos, a minha?

Cada uma delas percebeu, no difícil relacionamento que nos desuniu, que devia ter partilhado o amor, as suas dificuldades e coisas boas com um companheiro. Os encontros, fugazes e culposos, que experimentei foram às escondidas, embora tenha a certeza de que, no longínquo período da guerra colonial onde nos conhecemos e dividimos medos, rancores ao regime que nos oprimia e aos povos africanos – que, como povo, colonizávamos – e a luta pela sobrevivência, a paixão que o Capitão e eu experimentámos se tornou perceptível para vocês apesar da tentativa de privacidade, quase impossível naquele terreno.

Só dei por isso quando a segunda mulher, numa das muitas situações – que me depauperaram a mim, a ela, aos filhos, coitados de todos nós – de confusão por que devo ter sido responsável a referiu, a atirou em cara, melhor dizendo. A Maria estava farta da péssima vida da nossa casa e de mim e não resistiu, naquela noite de cólera e de nova estupefacção pela nossa vivência – que ela imaginara, anos antes, tão diferente – a repetir o que ouvira num comentário, num dos raros dias em que, juntos, numa trégua, tomávamos a bica. Outro antigo interveniente nessa malfadada guerra lembrara, imagina, aos que com ele se sentavam a uma mesa, o grande amor ente mim e o Capitão.

Finalmente tinham-se-lhe tornado claras as idas trocadas para a cama, os momentos de intimidade recusados, as desculpas, achincalhantes, com a roupa ou o penteado que – dizia-lhe – me impediam o contacto físico com ela. As mesmas desculpas, acrescento, que a Eduarda, anos antes me ouvira. E que, após o primeiro divórcio, a Maria João, uma amiga, me ouvira quando, franca e descontraidamente, numa noite do fim da década de setenta, me abordara no sentido de termos relações sexuais.

A vida, quase toda a minha vida, às escondidas, o disfarce que, para a tua percepção, e a de mais pessoas, não funcionou. Não posso viver outra mas vejo que a legislação, em breve implementada, que defende que pessoas do mesmo sexo possam viver sem subterfúgios permitirá, certa e finalmente, a coragem de explicar à minha filha e aos meus filhos o que pertence à minha natureza e que, pela pressão social, não me terá ajudado a amá-los da melhor maneira. Talvez ainda haja tempo para isso. Com as mães deles uma explicação não melhorará o passado, sei-o.

Será (quase) extemporânea para mim tal legislação? Permitirá, com certeza, que pessoas com a mesma orientação sexual possam viver, com certeza, de modo mais solar e feliz. Em dignidade. Claro que muitas mais o seriam se tivessem vida profissional com remuneração decente, muitas outras que, mesmo com salários mais baixos tivessem trabalho. Claro que, “a paz, o pão, a saúde, a educação”, como em velha canção, o Sérgio Godinho disse, num dos seus muito inspirados dias, deverão ser para todos, em direitos, inalienáveis, de cidadania. Mas esses colidem em quê com o respeito (legal) pelas pessoas homossexuais que vivem ou pretendem fazer vida em comum?

Sei, caro Luís, que vês, como cidadão e jurista, não ser necessária designação de casamento para a união civil entre as pessoas do mesmo sexo e que, como cidadão, achas ridículas certas manifestações públicas, carnavalescas de elementos da comunidade “gay”, cá e nos arredores da nossa “aldeia global”. Respeito em absoluto o teu pensamento. Se não estou em erro, o corajoso Guilherme de Melo também não as em apoia. Mas não terão elas, à sua maneira festiva, quota-parte na visibilidade das pessoas como eu?

Meu amigo, continuarei à espera do teu “correio caracol” para abordarmos este e, ou, outro(s) assunto(s) pertinente(s).

Um beijo à Célia e aos miúdos, abraços para ti e os vossos filhos.

João Fernandes

(P…, 26 de Janeiro de 2010)

PS: faço as primeiras páginas de nova peça; terei êxito?

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção