Saltar para o conteúdo
Colunistas

«Caldo Verde» ou o DevirPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Duas mulheres, encerradas no interior do País, metáfora, infelizmente, de um qualquer país, de uma qualquer situação de abuso, degradante. Também de fechamento ignorância, abandono, terror a que, longe do centros do poder, em povoados, aldeias, vilas e cidades, os mais desprotegidos e as mais desprotegidas estão sujeitos – ignorados, maltratados, achincalhados, afastados dos saberes, ofícios, relações (familiares, interpessoais, políticas) que promovem a Liberdade e a Democracia.

4 min de leitura
«Caldo Verde» ou o Devir Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

Sentei-me, por um destes dias, no Teatro Municipal do Barreiro, sem qualquer informação acerca da peça, referida no título desta coluna, da autoria de Rui Ramos. Para a ver, ouvir, ler, sentir, reinterpretá-la, revivê-la de acordo com o que sou.

Deixei-me (logo nos momentos iniciais desta trágica figuração de vida, de tantas vidas) enlear pelo texto, pelas personagens, pelos seus tons de voz, pela marcação, pelo cenário, pelos adereços, pela música, pelo clima criado. De opressão das duas mulheres, das crianças (que não aparecem), de medo, de resignação, de abjecção, de brutalidade, de choque entre as duas vítimas, visíveis, de um monstro humano, que, ausente durante quase todo o desenrolar da acção, é figura e central da mesma e que conhecemos pelos diálogos e altercações entre Fátima e Glória, desprezadas e esquecidas, que capturou, que desgasta, que utiliza a bel-prazer de tarado (social, sexual).

Duas mulheres, encerradas no interior do País, metáfora, infelizmente, de um qualquer país, de uma qualquer situação de abuso, degradante. Também de fechamento ignorância, abandono, terror a que, longe do centros do poder, em povoados, aldeias, vilas e cidades, os mais desprotegidos e as mais desprotegidas estão sujeitos – ignorados, maltratados, achincalhados, afastados dos saberes, ofícios, relações (familiares, interpessoais, políticas) que promovem a Liberdade e a Democracia.

Se, no perene poema de António Gedeão, “Calçada de Carriche”, o homem se serve de Luísa, em “Caldo Verde” fá-lo, no auge da crueldade, com Fátima e Glória, encerradas na teias da ignorância, do medo, da servidão.

A cor sépia, o acompanhamento musical, os fatos das duas intérpretes, nos quais também se imolam, já actoras sociais que, elevadas no sacrifício teatral, se sobrepõem às actrizes que são, devastam-nos, tal o quadro que nos oferecem, que a peça nos oferece.
As batatas e as couves que Fátima e Glória preparam e cozem num fogão são tão deprimentes como, certamente, as suas almas; o caldo verde, pela primeira vez, a enjoar-me, a enojar-me, associado à chegada do brutamontes, todo-poderosa, desordeira e humilhante: na voz, no discurso, no código gestual, na recusa da comida que lhe fazem e servem.

Sufoco (ouso dizer: sufocamos), na antecipação mental que quereria recusar (ouso dizer: que quereríamos recusar) do clímax que levará ao desenlace no qual as duas vítimas da tragédia se metamorfoseiam, sem surpresa, em algozes – por uma determinante vez nas suas massacradas vivências.

Morto o desumano, Fátima e Glória continuarão encerradas (no casebre, nelas próprias, no seu acto desesperado, a ser disfarçado, como uma delas enuncia), talvez à espera da Paz que a História ainda não construiu para os mais frágeis, os mais esquecidos, os mais sofredores.

O caldo verde terá então, e só então, para a maioria, o aroma que os mais livres lhe conhecem: no porvir, em devir, esse e outros pratos devem ser preparados, saboreados, partilhados, devagar e em harmonia. Num momento, igualitário e risonho, que, estranhamente, tanto nos tem custado a construir. Entre crianças, mulheres e homens.

Os meus parabéns a mais esta produção do ArteViva, ao autor, à dramaturga, a todos os intervenientes, dentro e fora do palco, com uma menção especial para Dário Valente, agora na pele de seguro e criativo encenador. Ele é um dos pilares de uma Companhia Teatral que faz da qualidade outro dos seus esteios.
Gostaria que fôssemos mais na comunhão daquele tempo, outro, mas nem sempre se pode estar onde se deseja.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção