Senhor Engenheiro Caro ProençaPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Por Jornal Rostos
Senhor Engenheiro Caro Proença
Agora que é Membro Emérito da Academia da Marinha, numa honra para si próprio e para todos nós, Barreirenses, cidadãos que tanto temos aprendido com a sua obra escrita e claras palavras, produtoras de textos de um notável discurso oral, será este um momento de felicitá-lo, embora ferindo-lhe a simplicidade de sábio, vocábulo que parcamente emprego pelo respeito que me infunde; foi o que meu pai me ensinou para os que ficam na História.
Ficam na História devido ao espírito que os dotou da compreensão universal que os leva ao entendimento ontológico, filosófico, humanístico, histórico, científico, tecnológico, cultural, epistemológico que cultivam. Como o Senhor Engenheiro, dotado, para minha e nossa felicidade, de uma mente que tanto o enriquece e nos enriquece, os que temos bebido um pouco do seu conhecimento, da sua tão rica pluralidade de saberes. Digo “um pouco” porque a acuidade da sua inteligência, a amplitude da sua meditação, o conjunto de temas que o senhor desenvolve, em socráticas lições, a sua obra não estarão ao nosso alcance. Ou, talvez melhor, ao meu. E a parte que está devo-a à capacidade comunicacional, única, de que é portador.
Confesso-lhe, Engenheiro Caro Proença, que me sinto pouco à vontade para dispor as ideias que acompanham estas linhas, as de uma discípula. Grata por tê-lo como mestre.
As manifestações de amizade e consideração que por mim tem demonstrado, ao longo de anos, uma das quais num documento inédito, a propósito da condecoração “Medalha Barreiro Reconhecido”, na área da Educação, que me foi atribuída pela Câmara Municipal do Barreiro, no ano transacto, são estudadas ao pormenor e guardadas. Cuidadosamente guardadas. Acrescento que estou de acordo com os argumentos que traz à colação a propósito de instrução, conceito e palavra que utiliza em vez de educação, no entendimento da primeira como a que os professores devem proporcionar aos alunos, num patamar, elevado, de transmissão e comunicação – os muitos anos de estudo, as credenciais que possuem para isso terão (ou deveriam ter) preparado os docentes.
O que se passa, actualmente, na nossa sociedade e, por reflexo, em várias escolas, com alunos de comportamentos incorrectos, agressivos, violentos e, às vezes, perto da criminalidade ou já nela, mostra que mudou o paradigma educativo: de um ensino elitista que serviu outros tempos mas, obviamente, não a Democracia e a democratização do ensino, transitámos para um estádio educativo ainda em busca de valores que as melhorem e a dignifiquem – no presente, os mestres e as instituições escolares são desrespeitados, desautorizados, vulgarizados; rasos os saberes, deficitária a formação; alcançaremos, um dia, teremos de alcançar, a bem de todos nós, patamar mais elevado. Como desígnio nacional.
Os que aí chegarem voltarão aos escritos pedagógicos do Senhor Engenheiro, às palavras, passadas de geração em geração como modelo de perenidade, decoradas umas, repetidas outras, bem interpretadas todas, como Ray Bradbury nos ensinou numa narrativa imortal, “Faherenheit 451” que, sendo de ficção, antecipa a realidade através da função poética da linguagem: “E nas duas margens do rio nascia uma árvore de vida, dando doze vezes frutos e um cada mês; e as folhas dessa árvore serviam para curar as nações “ (1). Como a obra do Engenheiro Caro Proença contribuirá para curar a Nação Portuguesa. Então será um tempo outro: aquele em que a dignidade no e do País será a dignidade na e da Escola.
Aceite, Senhor Engenheiro, os meus respeitosos cumprimentos.
(Barreiro, 1 de Abril de 2010)
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos
Referências
(1) Ray Bradbury, “Faherenheit 451”. Lisboa, Edição Livros do Brasil, Obras-Primas da Ficção Científica, Col. Argonauta Gigante (6), 1999, p.157.













