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Colunistas

Os passarinhos da AvenidaPor Jorge Fagundes
BARREIRO

"Meu senhor, estamos a construir o nosso ninho, para nele, depois de chocados os ovinhos, nascerem os nossos passarinhos".
"Numa árvore da Câmara? Têm licença?".
"Licença? É preciso?".
"Pois claro que é. A árvore é um espaço público. Está no Regulamento".

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Os passarinhos da Avenida Por Jorge Fagundes BARREIRO

Por Jornal Rostos

Os dois pequenos bandos de pintassilgos, um vindo dos lados de Alburrica, outro da zona dos Casquilhos, encontraram-se, por mero acaso, no Jardim dos Franceses.
Um dos machos e uma das fêmeas, cada um deles de bandos diferentes, trocaram olhares embevecidos, aproximaram-se, beberam água no pequeno lago e, quando os dois bandos se separaram, ficaram juntos,
Para o bem, e para o mal, tinham resolvido juntar as asinhas.
Nas primeiras noites seguintes dormiram numa das árvores do Jardim.
Mas, dias depois, começaram a procurar a árvore onde queriam instalar o seu ninho.
A Avenida Alfredo da Silva ficava perto e, por dela terem gostado, avenida abaixo, avenida acima, optaram por uma das novas e bonitas árvores ali existentes.
Escolhido o ramo ideal, para ele começaram a transportar os materiais necessários para a construção do ninho.
Ora, quando a parte inicial, assim como a modos de caboucos, já estava feita, foram interpelados por um senhor que, alto e bom som, lhes dizia: "O que é que vocês, seus pardalões, estão a fazer nessa árvore?".
"Pardalões, não, pintassilgos".
"Dá no mesmo. Para mim são pássaros. O que pensam que estão a fazer?".
"Meu senhor, estamos a construir o nosso ninho, para nele, depois de chocados os ovinhos, nascerem os nossos passarinhos".
"Numa árvore da Câmara? Têm licença?".
"Licença? É preciso?".
"Pois claro que é. A árvore é um espaço público. Está no Regulamento".
"E o que é preciso fazermos?"
"Têm de apresentar uma planta topográfica do local, mais um projecto de arquitectura e outras coisas mais. Vão à Câmara, tirem a senha e informem-se. E, nesse tal de ninho, nem mais uma mexida. É obra clandestina, está embargada. Palavra de Fiscal".
"Mas, senhor Fiscal. Que tempo demora? É que está na época própria, não podemos esperar muito".
"Bem, pouco tempo não demora, isso não. Se tudo correr bem, aí uns seis meses".
"Seis meses? Daqui a seis meses já os nossos passarinhos estão a voar no bando que lhes calhar".
"Isso é problema vosso. E volto a avisar: não mexam mais nesse tal de ninho".
O casal de pintassilgos, bicos bem abertos de admiração, olhos nos olhos, levantaram voo e desapareceram da nossa Avenida.
Passada, que foi, uma semana, tendo de me deslocar à Moita, não é que os fui encontrar, ninho bem feito e já com três ovinhos a ser chocados, ora pelo pai, ora pela mãe, numa árvore do jardim daquela nossa vizinha localidade?

Moral da fábula: há regulamentos e...regulamentos!

Jorge Fagundes

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