O Filho mais NovoPor Manuela Fonseca
BARREIRO

Por Jornal Rostos
O Filho mais Novo
João Miguel janta. Reservado em público, deixa, na casa dos pais, quase diariamente, as mágoas que tem na empresa. Solta, finalmente, a língua, na sala onde tanto gosta de ver futebol, em convívio com os seus, e barafusta com o estado a que chegou o mundo laboral português.
Refere a falta de direitos dos trabalhadores, horas e horas de actividade, sem regalias ou seguro, categorias profissionais sonegadas, salários ofensivos das necessidades e dignidade humanas.
Quase grita:
– Más palavras, bolas! É só os clientes saírem. Um homem novo e, também ele, assalariado. Deve estar caladinho, lá no trabalho dele, onde também amocha, de certeza, e depois vem implicar comigo; parece que é tudo o que sabe fazer. Quem se julga ele? E, antes de chegar, só telefonemas, escusados, repetidos, maçadores. Que seca!
Imita, jocosamente, o patrão: “João, faça isto e mais aquilo! E, logo que atenda os clientes, envie-me os orçamentos por ‘e-mail’!” Parece que é parvo! Que chatice!
Marta intervém:
– Filho, a refeição nem te serve de nada. Digo-te isto todas as noites; enervas-te e também a nós. Aproveita, em cada regresso, o ar do rio; respira o Tejo, vê Lisboa do barco. Acredita no que te digo: durante anos, fui a correr para a Faculdade, vinha a correr para dar as aulas. Depois da licenciatura ia, bem cedo, para o estágio pedagógico. Olhava para esta beleza que a natureza nos deu…
O rapaz interrompe-a:
– Estás sempre a dar-me música para ver se me calo! Nem aqui posso desabafar? Quando deixas as tuas teorias acerca do Tejo? Está tudo complicado para os jovens; não posso olhar para o rio como se estivesse a lê-lo nos teus Lusíadas; não me apetece.
– Vá lá, come com mais prazer e baixa o tom de voz. O meu pai exclamava, à hora da refeição: “À mesa não se fala!” Nesta mudança de paradigmas, grita-se.
Terminam a sopa os quatro, constrangidos. Tiago não se pronuncia; a luta quotidiana dele é bem complexa mas deixa-se levar menos pela emoção ruidosa. António sente-se incomodado com as dificuldades daqueles dois filhos mais novos. Incomodado com o labor deles quase para o boneco.
João Miguel foi o que pôde acompanhar melhor, logo após a aposentação. Em noites brancas, localizou material bibliográfico, imprimiu trabalhos, colocou-os nas capas, a mãe no escritório, a interromper o estudo do Processo de Bolonha para dar ânimo ao “miúdo”. Ambos sabem, e Tiago, que João Miguel terminou o ensino secundário com interesse e se dedicou com gosto ao curso superior, escrupuloso no cumprimento de um compromisso: “Atrasei-me um bocadinho mas isto é de seguida para não vos sobrecarregar e ser independente.”
O jovem pensou, há bem poucos anos, numa actividade remuneratória interessante, o pagamento adequado às responsabilidades das tarefas que viria a executar. Sobretudo depois dos estágios, em França e em Portugal, que lhe deram um bom conjunto de conhecimentos e ferramentas, agora, de forma humilhante, pouco apreciados, embora os utilize com dedicação.
António está também incomodado com o pouco apreço dado por parte da sociedade portuguesa – cada vez mais estranha, mesquinha, egoísta, a tradicional falta de formação a emergir – aos sacrifícios dos mais novos. Ao fim e ao cabo, aos de todos os que os fazem e constituem a maioria da população. Não pertencem ao grupo que causa toneladas de papel inútil. Sobra aos carenciados a dignidade. E essa não está na moda.
Pessoas cheias de dificuldades materiais – ou sem acesso ao primeiro emprego ou com trabalho precário, os contratos mentirosos que se vêem obrigadas a assinar e dos quais nem lhes dão cópia, ou despedidas. Como se fossem um objecto que se deita fora.
Ainda bem que Eduardo, o mais velho dos três, pôde consolidar a situação profissional, escolhida há duas décadas. A diferença de idade em relação aos irmãos, fruto do segundo casamento, proporcionou-o.
Marta retoma o fio à meada:
– Tens que passar das palavras exaltadas aos actos, firmes e educados. Um revoltado está isolado, não chega a parte alguma; a História bem nos tem ensinado o que fazer.
– Já cá faltava agora o sermão! E como?
– Será melhor cada um para seu lado, em lamúrias e discussões que conduzem ao lugar do nada? Ouviste o discurso do Aguiar Branco no Parlamento? O que disse e quis dizer um homem que não é comunista, na citação de Lenine, em dia 25 de Abril, já tão longe dos sonhos do primeiro? Não lembrou a importância das organizações?
– Que “subtil”, mãe...Tens ideias antigas mas, deixa lá, não são mazitas de todo; vou perder a vergonha, telefonar ao Sindicato, dizer que fui quase obrigado a pôr o meu nome numa coisa que mal vi, na qual sou considerado abaixo de cão. E depois peço os papéis e inscrevo-me; desde pequeno me dizes que “a união faz a força.”
Marta considera que, como disse o poeta e cantou o saudoso trovador, “há sempre alguém que resiste”. Levanta-se. Beija o marido e os filhos. Diz-lhes que não precisa de ajuda no arranjo do segundo prato.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













