Saltar para o conteúdo
Colunistas

A banha da cobraPor Jorge Fagundes
BARREIRO

O homem que vendia, além do mais, caixinhas de banha da cobra. E que também tinha, num frasco com alcóol, uma bicha solitária. Não te lembras?".
"Lembro, lembro. Mas a que propósito, tantos anos passados, te veio essa recordação?".
"Porque o homem tinha cá uma lábia! O raio da banha da cobra servia para tudo. E, segundo o vendedor, a cura era garantida. Parece que estou a ouvi-lo: vocências têm dores nas costas? Têm? Livrem-se delas. Levem uma caixa desta pomada milagrosa, esfreguem com ela, ao deitar, as vossas costas e...as dores já o eram".

5 min de leitura
A banha da cobra Por Jorge Fagundes BARREIRO

Por Jornal Rostos

Ontem à tarde, comodamente instalado numa das novas esplanadas junto ao Mercado Municipal 1º. de Maio, fui interrompido nas minhas cogitações pela chegada do meu velho Amigo e Colega da Escola Alfredo da Silva.
"Em que estavas a pensar? Nem deste pela minha chegada".
" É verdade, estava a olhar para este espaço e a meditar porque razão foi construido, bem no meio daquela que poderia ser a grande praça que faltava ao Barreiro, aquele enorme e inestético caixotão. Como diz o ditado, no melhor pano cai a nódoa. E tendo o arquitecto catalão, autor do projecto, fama e proveito por essa Europa fora, loga a nódoa havia de calhar ao Barreiro!".
"Tens razão", disse o meu Amigo enquanto se sentava a meu lado.
"Mas, recuando uns bons anos até ao tempo em que éramos rapazitos da Escola Nova, sabes do que me lembrei?".
"Se calhar daquele espaço, ali mesmo em frente, com chão em cimento e onde podíamos andar de triciclo, pagando cinco tostões".
"Por acaso, não. Recordei-me dos vários vendedores, mais ou menos neste local, e muito em especial de um que por cá passava de vez em quando e que era um espanto".
"Quem era?".
"O homem que vendia, além do mais, caixinhas de banha da cobra. E que também tinha, num frasco com alcóol, uma bicha solitária. Não te lembras?".
"Lembro, lembro. Mas a que propósito, tantos anos passados, te veio essa recordação?".
"Porque o homem tinha cá uma lábia! O raio da banha da cobra servia para tudo. E, segundo o vendedor, a cura era garantida. Parece que estou a ouvi-lo: vocências têm dores nas costas? Têm? Livrem-se delas. Levem uma caixa desta pomada milagrosa, esfreguem com ela, ao deitar, as vossas costas e...as dores já o eram".
"E, sem perder o ritmo, dava ordens à empregada: Jesuína, uma caixa para aquele cavalheiro do chapéu preto, mais uma para esta senhora do lenço amarelo, mais uma..."
"E as caixas saíam, saíam. Até a minha avó comprou uma, e dias depois, quando veio a casa dos meus pais, revelou que, qual milagre da Senhora do Rosário, já não tinha dores nas costas".
"Previdente, como o era, acabadas as dores nas costas, logo se voltava para os calos. Vocências têm calos? Têm? Uma simples massagem, ao deitar, com esta pomada e os calos desaparecem. Jesuína: uma caixinha para o senhor da samarra, mais uma para a senhora do xaile preto, mais uma...".
Depois vinham as dores de dentes, as dores de cabeça, as dores de ouvidos, as dores nas pernas, as dores nos pescoços torcidos, enfim, a banha da cobra dava para tudo".
"Do que te foste lembrar. E não é que o homem conseguia vender todas as caixas?. Mas não só. Para as bichas solitárias e para as lombrigas tinha uns chás especiais, com venda também garantida. Mais ou menos um mês depois, lá voltava ele".
"Mas, meu velho Amigo, puxei esta conversa do vendedor da banha da cobra porque, ao ouvir certos senhores na televisão, me lembro sempre dele".
"Essa á boa! A que propósito? Já ninguém vende banha da cobra".
"Aí é que te enganas. Se bem te lembras, o nosso vendedor até vestia bem. Fatinho, camisa bem engomada, gravata".
"É verdade, parecia ser um homem rico. Mas o que tem ele a ver com esses senhores da televisão?".
"Ora, ora. Vestem bem, falam melhor e têm todos ar de pessoas bem instalada na vida e com posses, o que até parece ser verdade já que os jornais lhes atribuem um certo acumular de pensões várias, e das grandes. Criticam tudo e todos e, sem entrar numa de soluções concretas para os problemas deste nosso Portugal, até dão a entender que se fossem eles a governar (e aqui, dada a sua respeitável idade, têm súbitos ataques de amnésia não se lembrando que também passaram pelas áreas do poder) tirariam da manga umas tantas caixas de banha da cobra e tudo se solucionaria. E imagino-os, tal como o vendedor que hoje recordamos, mas com uma plateia muito maior, a perguntar:vocências estão numa de crise? Estão? Libertem-se dela. Esfreguem-se, de alto a baixo, com esta pomada milagrosa e...era uma vez uma crise!".

Jorge Fagundes

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção