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Uma alergia especialPor Jorge Fagundes
BARREIRO

"Ora, ora, meu Amigo. Por muito que se queira reescrever a história, há factos que, por dela fazerem parte indelével, jamais se conseguirão apagar, ou retocar, como nas tais fotografias. E, quer queiram, quer não, não conseguirão, por maior que seja a alergia, dissociar Alfredo da Silva da história do Barreiro!".

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Uma alergia especial Por Jorge Fagundes BARREIRO

Por Jornal Rostos

Apesar do calor que há dias se faz sentir, esta manhã não se estava nada mal no nosso Parque. E foi aí que, sentado num dos bancos, bem à sombra, fui dar com o meu velho Amigo da Escola Alfredo da Silva, entretido a ler um jornal.
"Então, como estás? Senta-te aqui um pouco para conversarmos", avançou de imediato.
E lá me sentei, enquanto, fatal como o destino, me perguntou:
"O que achas da estátua de Alfredo da Silva estar já identificada?.
"Acho bem. Apenas demorou muito tempo essa dita identificação".
"Achas bem? Estás no gozo, ou quê?".
"Não estou no gozo, não. Estão lá todos os elementos essenciais: nome, embora abreviado; datas do nascimento e do falecimento; funções que ocupava na CUF em 1907. E, pela primeira vez, até consta o nome do escultor: Barata Feio".
"Essa agora! Não te lembras dos dizeres que estavam à volta do monumento original?".
"Claro que me lembro. Mas, repara bem: se uma placa com pouco mais de uma dúzia de letras demorou meses a ser feita, quantos anos seriam precisos para nessa placa constar tudo como o era antes do derrube da estátua?".
"Bem, bem. Já vi que estás numa de humor. Já agora: que me dizes daquela moção do PSD sobre a identificação da estátua rejeitada em recente reunião da Assembleia Municipal?".
"Para além da incorrecção de atribuir a Alfredo da Silva a fundação da CUF, o que não é verdade, a reprovação da moção não é mais do que a confirmação da existência, a nível do Barreiro, e por parte de alguns, políticos e não só, de uma alergia especial ao nome de Alfredo da Silva".
"Alergia? Como?".
"Alergia, sim! Ora nota: "não homenageamos Alfredo da Silva" e "não subscrevemos os elogios a Alfredo da Silva" foram palavras de destacados representantes da CDU e do BE. Isto é, por outras palavras: já que não temos a coragem, de uma vez por todas, de retirar a estátua, ela que fique mas... o mais anónima possível e sem elogios à figura que representa. Com o passar dos anos, quem, dos vindouros, se lembrará de Alfredo da Silva?".
"Não estou muito de acordo contigo. De repente, veio-me à memória aquela célebre fotografia de Lenine e de Trotsky, em 1919, celebrando ambos, na Praça Vermelha de Moscovo, o segundo aniversário da revolução. Anos mais tarde, num livro sobre Lenine , este mantem-se na fotografia, mas Trotsky desapareceu, pura e simplesmente".
"É verdade. Além dessa, há muitas outras fotografias também retocadas posteriormente. Mas a que propósito da estátua de Alfredo da Silva te veio essa recordação?".
"Ora, ora, meu Amigo. Por muito que se queira reescrever a história, há factos que, por dela fazerem parte indelével, jamais se conseguirão apagar, ou retocar, como nas tais fotografias. E, quer queiram, quer não, não conseguirão, por maior que seja a alergia, dissociar Alfredo da Silva da história do Barreiro!".

Jorge Fagundes

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