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O Polvo e o PeriquitoPor Manuela Fonseca
BARREIRO

– Olá, Polvo, como vais?

– Cansado, meu caro, cansado; não me dão tréguas, tantos os palpites que me pedem: se o dinheiro está bem nos bancos, se estes têm fundos, se a China já domina a economia americana, se as guerras acabam, se merece a pena os jovens irem para a Universidade, se a experiência dos mais velhos tem valor, se…

O Periquito sem deixar o interlocutor acabar a frase:

– Tanta coisa, tanta coisa para as nossas possibilidades intelectuais, caro Polvo…

– Se consigo prever a economia em alta, se esses patifes acabam com as pensões de reforma, se surgem novos postos de trabalho, se mais isto e mais aquilo…

5 min de leitura
O Polvo e o Periquito Por Manuela Fonseca BARREIRO

Por Jornal Rostos

As fábulas pareciam, infelizmente, esquecidas. Dois animais, de repente, cada um em sua parte do Globo, ficaram numa dobadoira devido ao recente Mundial de Futebol: apostas, consultas a ambos para ver quem ganhava a série, a eliminatória, a final.

O Polvo e o Periquito deram palpites e foram, pasme-se, filmados em directo por cadeias televisivas, certamente na ânsia de novidades e entretenimento das populações. Talvez assim se esquecessem, pelo menos por algum tempo, dos desvarios naturais e dos originados pelos homúnculos dos vários poderes, cansadas que andam de múltiplas aflições – térmicas, económicas, financeiras, bélicas, sociais.

Mais um pouco, de regresso ao futebol, e os jogadores deixariam de treinar (por ser desnecessário competir) e ficariam na bancada de um qualquer estádio, espectadores iguais aos que antes os idolatravam: no terreno de jogo apenas o Polvo e o Periquito em actuação.

Os antigos atletas e as multidões, num estádio cheio – feitos em vez de escolas, hospitais, centros de acolhimento e lazer –, só teriam olhos para os dois bichos que pensariam trabalhariam, treinariam, jogariam, correriam riscos, criariam situações aleatórias, tentariam resolver problemas. Em vez dos Humanos.

Finalmente, cansados de tanta actividade, os dois novos deuses das adivinhas e da Terra, num dos poucos momentos permitidos pelas incessantes tarefas, teriam a seguinte conversa telefónica, através de telemóveis topo de gama, ouvida e vista, em directo e em diferido, por todo o lado:

– Olá, Polvo, como vais?

– Cansado, meu caro, cansado; não me dão tréguas, tantos os palpites que me pedem: se o dinheiro está bem nos bancos, se estes têm fundos, se a China já domina a economia americana, se as guerras acabam, se merece a pena os jovens irem para a Universidade, se a experiência dos mais velhos tem valor, se…

O Periquito sem deixar o interlocutor acabar a frase:

– Tanta coisa, tanta coisa para as nossas possibilidades intelectuais, caro Polvo…

– Se consigo prever a economia em alta, se esses patifes acabam com as pensões de reforma, se surgem novos postos de trabalho, se mais isto e mais aquilo…

E o Periquito:

– Imagina: chegaram-me pedidos para ver quando os serviços de saúde e assistência são, de novo, compassivos, se as pessoas, de alguma maneira carentes, são tratadas com dignidade, se volta a haver mais justiça social ou, melhor, se haverá justiça social.

O Polvo e o Periquito seriam, subitamente, interrompidos e interpelados por terceiros:

– Aqui da Rádio e Televisão do País-Triste, da Terra-de-Quem-já-Foi-Feliz, do Jardim-dos-Jasmins-em-Outros-Tempos-Viçosos, em serviço conjunto e em nome dos nossos povos, garantimos que vos alimentaremos para o resto da vida se contribuírem para que a Esperança volte, a Alegria encha as casas, o Amor ao próximo norteie as Mulheres e os Homens.

O Polvo e o Periquito tomariam, subitamente, consciência da poupança de energias dos Humanos, à espera de milagres. Diria o de Singapura:

– Polvo, sabes uma coisa? Qualquer dia não dominamos esta situação; o melhor é o fim da conversa, não achas? Que tratem da vida deles, ora essa! E então em Portugal …

O da Alemanha:

– Estás melhor informado do que eu, embora mais longe. Então o que se passa lá?

– Em alguns locais, segundo fui informado, há Pacientes que têm que se deslocar às cidades mais importantes por causa de um exame complementar de diagnóstico…

– Para poderem melhorar, suponho.

– Nem sempre, nem sempre. Muitos deles, transportados, mesmo às portas de Lisboa, uma e outra vez, como mercadoria de segunda, ainda ficam com mais penas; tantas como as que tem quem me contou o facto.

– Que medidas poderão tomar para dar fim a essa anormalidade?

– Se calhar muitos administradores dessa área deveriam deixar o ar condicionado dos gabinetes de luxo e ir observar a realidade; já que não a sentem, que a vejam! E que oiçam os queixosos com respeito!

– Os prejudicados que façam chegar a revolta, os incómodos, fotos e palavras à Comunicação Social.

– Boa ideia! E os que informam, seguros da verdade, não se deixem intimidar pelos que os ameaçam com estúpidas multas e, até, indemnizações!

– Só com coragem as Mulheres e os Homens mudarão o actual mau destino e encontrarão condições mais estáveis; que comecem a fazê-lo já! Bons exemplos deram os Portugueses, há poucas décadas, com o 25 de Abril.

– Que voltem à prática!
Terminemos este diálogo; está na hora.

– Acabem, por favor, as emissões. Nós voltamos ao anonimato e vamos tomar atenção ao que as Mulheres e os Homens fazem. No próprio interesse.

O Periquito:

– É o fim do espectáculo.

Os Humanos terão apre(e)dido a lição ou verão na nova e linda Estrela-do-Mar mais um motivo de distracção?

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

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