A Supertaça Cândido de OliveiraPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
(Ao Paulo Pardana, amigo para sempre.
Em memória de Luís Mestre, nosso companheiro de jornada desportiva.)
Maria e Paulo conheceram-se nos anos oitenta, na Escola Secundária de Santo André, ele um adolescente a frequentar o Ensino Secundário, um aluno não excepcional, interesses culturais e sociais, aliados a um sorriso contagioso, numa rica personalidade.
Maria, ainda na primeira metade do percurso profissional, encontrava no rapaz características idênticas às suas, ela, que também nunca fora uma estudante excepcional, e que dizia, entre amigos, gostar de ser docente, o que quase nunca lhe acontecera como discípula.
(Continua a dizê-lo, as saudades da profissão – do contacto com os alunos e alguns colegas e funcionários, da rotina, das múltiplas tarefas, da leitura de milhares de livros, do folhear outros tantos, da investigação, da reflexão, das viagens de trabalho, dos horários que tentavam roubá-la à família – cada vez maiores.)
Terminada a relação institucional (nem sempre fácil, sorria agora ao lembrá-la e, às vezes, comentavam-na ambos quando reviam um pormenor menos agradável, rapidamente ultrapassado), imparcial como tentara que fosse com todos os formandos – aliás, tão simplesmente, o cumprimento de um dever pedagógico e cívico –, encetaram uma amizade que os levaria a vários locais, nas áreas desportiva e política. Que continuava, quase três décadas depois, a uni-los.
Haviam atravessado os anos, tantos, e com sonhos comuns, sempre discutidos, às vezes concretizados – quantas vezes tinham saído das respectivas residências, primeiro com os filhos dela, depois com a família que Paulo e Céu tinham constituído, em noites de eleições – conhecidos os resultados, iam no automóvel “do rapaz amigo”, parceiro desafiador de sonhos, o veículo a buzinar de esperança e boa disposição, os garotos divertidos?!
O pavor da estrada impedira Maria de levar muito a sério a carta de condução: quando pensava nisso, havia sempre um fato para comprar aos miúdos, uma estante, outro móvel, uma obra de Psicanálise, uma enciclopédia a substituir essa prioridade. Até que esquecera, definitivamente, uma necessidade que gente generosa disfarçava: tinha boleias já na paragem do autocarro ou, até, prestes a seguir de comboio quando os trilhos da profissão a levavam para Setúbal ou de lá a traziam para o Barreiro.
Quantas vezes Maria se perguntara como Paulo e os seus passeavam com ela sem a mais pequena alusão ao facto de ser já bem crescidinha, em tempos pouco solidários quanto à partilha de espaços e tempo com os mais velhos?
A paixão pelo Barreirense, vibrante, dorida, angustiada, por vezes optimista, e a quase transgressão do apoio ao Porto – em região de idolatria pelos dois brilhantes rivais de Lisboa – levaram-nos a diversos campos e estádios de futebol, pretextos para conhecer melhor o País, boa comida e divertida cavaqueira.
O melhor almoço? Em Moreira de Cónegos, no desempate de uma eliminatória da Taça de Portugal, competição – para ela “a Taça” – que apreciavam muito, entre o Moreirense e o Barreirense, o verde único do Minho e a higiene do restaurante aliados a uma gastronomia impecável. O melhor jantar? No regresso, silencioso. Na Bairrada, o belo leitão e o espumante no disfarce da derrota que sempre achariam imerecida: aquela grande penalidade não assinalada ao Barreirense quando havia apenas um a zero ainda estava por esquecer.
E, nesse jogo, um conterrâneo, mesmo ao lado, na pequena bancada, os braços no ar, os amigos a levantá-lo como se fossem intérpretes vitoriosos dentro das quatro linhas e ele o protagonista de defesa ou golo notável? Perante o espanto de todos, incluindo o de um treinador de outro clube do Norte, então na Primeira Divisão e hoje ainda em pior situação do que o mais representativo clube do Barreiro. Pois o moço acabara de ser pai, bem longe da companheira e do bebé recém-nascido…
(Criança que, num instante, crescera e lá ia para o “Manuel de Melo” ao colo do progenitor; certamente preparariam agora a ida comum ao novo Campo da Verderena, sonho reiterado da comunidade, resistente, chamada Futebol Clube Barreirense.)
Luís Mestre, de preferências clubistas iguais, homem de rara educação – conhecer os seus pais era entendê-la –, também passara a acompanhá-los, protagonista de cenas pitorescas.
Uma irreparável nostalgia. Especialmente do momento, no Vale do Jamor, a noite a descer, devagar, a Primavera no auge, após uma das finalíssimas entre o Futebol Clube do Porto e o Sporting: no meio da mata, a saída, complicada por uns rapazolas arruaceiros, apanhara, em dois tempos, o comboio próximo, ele, profissional que sabia os percursos e os horários de dezenas…
Luís Mestre que acrescentava sempre algo às narrativas de Maria acerca da, outrora enorme, família ferroviária e ao ambiente e paisagens que tinham os seus trabalhadores e veículos como protagonistas.
(Da imagem do falecido partia – havia sempre uma partida e uma chegada – para outras recordações: o encontro recente com Dorinhas que, menina de sete, Maria já com catorze anos, conhecer no Alentejo, mais precisamente na Funcheira, para onde fora conduzida pelas andanças do pai na chefia de maquinistas, confirmara-o. As duas, em diálogo sentido, na esperança, em situação coincidente, de melhores dias de saúde.)
Vira, desconsolada, através da televisão, o empate consentido pela conturbada Selecção Nacional depois da derrota fatal dos mais novos. Imaginou um dos treinadores preferidos, Domingos Paciência ou Jorge de Jesus – já que se deixara passar o tempo de Manuel de Oliveira, nada se fizera para que Fernando Santos oferecesse à Grécia e não a Portugal os seus saberes e ainda era cedo para Mourinho, segundo as opções do próprio –, a dirigir uns jogadores à deriva e a transformá-los num grupo, crente na vitória, logo após uma nova e urgente mudança federativa.
Ligou o número do telemóvel do amigo, como fazia amiúde:
– Olá Paulo, como vão todos?
– Cá vamos, Maria, obrigado. Continua bem?
– Assim parece. E tão bem que não posso deixar de referir o “piloto automático” que o Dr. Madaíl encontrou junto à equipa de todos nós, qualquer dia, coitada, apenas de todos eles. E logo na noite em que se devia ter respeitado, através de uma vitória, a memória do grande José Torres!
– Olhe, Maria, acho que…
(O amigo comentou como e o que entendeu.)
Desatou a rir, o que pouco fazia, ao invés de outros tempos, desde a detestada recidiva.
Divertido e surpreso, o interlocutor não se conteve:
– Maria, estou já como você, como ouvirá, certamente.
– Se oiço essa risota!... Está como eu … mas não sabe a razão.
– Senhora, o que está a passar-lhe pela cabeça?
– Olhe, a Selecção tem que jogar como o Porto fez agora na Supertaça Cândido de Oliveira.
– Então?
E a grave professora concluiu a ideia:
– Até imaginei, quando o Helton elevou esta décima sétima Supertaça, que eu tinha sido a treinadora e você o adjunto, sem ofensa para a equipa técnica do André Villas-Boas…
– Maria, era só o que nos faltava! Ah, ah, ah!
Despediram-se e imaginaram-se no relvado do Estádio Municipal de Aveiro.
Desligaram.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













