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Os Dois ManosPor Manuela Fonseca
Barreiro

A mulher considera que, infelizmente, as relações laborais actuais se parecem com tempos que os portugueses pensavam ter ficado, definitivamente, nas gavetas do passado.
Olha para os “miúdos”, embora Tiago tenha atingido os trinta anos, e lembra, com alguma amargura, as expectativas de “um bom futuro” que, há alguns anos, imaginava para eles, num Portugal onde o cravo vermelho ainda parecia viçoso.

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Os Dois Manos Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Marta olha para os filhos e verifica, intimamente feliz, que João Miguel janta em paz. É a primeira vez, há meses, que ele retoma os olhos risonhos de menino. Bonitos, expressivos, bondosos – herdados do avô materno que os dois rapazes conhecem bem.

Paradoxal esse conhecimento, quase íntimo, com o antepassado, desaparecido mais de duas décadas antes de o primeiro ter sido dado à luz. Sabem que foi um cidadão que deixou saudades entre todos os que com ele privaram, na família, no “Manuel de Melo”, no Depósito de Máquinas, no Desportivo Ferroviário. Serralheiro, fogueiro e maquinista brioso e dedicado, depois chefe humano. Honradamente, à revelia dos pides e bufos que todos e tudo observavam e denunciavam.

A mulher considera que, infelizmente, as relações laborais actuais se parecem com tempos que os portugueses pensavam ter ficado, definitivamente, nas gavetas do passado.
Olha para os “miúdos”, embora Tiago tenha atingido os trinta anos, e lembra, com alguma amargura, as expectativas de “um bom futuro” que, há alguns anos, imaginava para eles, num Portugal onde o cravo vermelho ainda parecia viçoso.

País sempre adiado, entregue a vários incompetentes e oportunistas, e uma população que, escassa a formação, apenas dá pela aflição económica e financeira quando esta lhe bate à porta.

Serve a sopa e olha para os descendentes. Tiago, mais parecido com a família paterna, boa gente, também tem traços dos autores dos dias dela, identificados no silêncio da recordação, e pelos que, vindos do fim dos anos sessenta – quando Luís Santos Júnior os deixou – também os encontram. No mais novo, a parecença chega a admirá-los.

(Como o pai se reveria nos moços! Como teria andado com eles a pé e em viagens de comboio como fizera com a família nuclear e, mais curtas, com os sobrinhos – até Setúbal ou Praia do Sado – e ido ao Clube Naval para ensiná-los a nadar! Quantos jogos do Barreirense, sempre na esperança de dias mais radiosos?)

Volta a concentra-se na refeição. António e João Miguel levam pratos para a cozinha. Tiago descansa agora das tarefas domésticas e vibra com a noite europeia do Benfica, incita Roberto, como se estivesse no estádio, aplaude as indicações de Jorge de Jesus, grita por David Luiz e Cardozo.

– Mãe, o Jesus é bom, não é?

– Admiro-o; vê lá o que fez do Coentrão. Para além da organização e gestão de uma bela equipa.

João Miguel quer para esse jogo tudo ao contrário. Como, na sua casa, o mais velho, fruto do outro casamento do pai – qualquer deles designa Eduardo por “o meu irmão”, numa espécie de reverência dada pela entoação – e o “sobrinhinho”.

A situação profissional dos dois jovens melhorou. Que Tiago comenta:

– Fartei-me de estudar, aqui e, nas férias, para o exame. Puxa, que aflição! E passei!
Mano, tu sabes como agradeço o apoio dos pais e de todos, lá no trabalho. Gosto mesmo de pertencer à CMB (nomeia sempre assim a instituição que tão bem o acolheu e onde todos o estimam)!
E agora vieste para o Barreiro. É bom; escusas de gastar dinheiro em transportes…Eh! Eh! Tens a empresa quase em casa.

António ainda se lembra dos sacrifícios de tantos anos a caminho de Lisboa, os turnos e o escasso o tempo para a família (ou beijava os garotos que dormiam há horas ou levantava-se tão cedo que, no regresso, de cansado pouco podia conviver com eles).

– E não deixas o Barreiro que bem precisa dos jovens cá!

João Miguel acrescenta:

– Claro, pai. Além de ser interessante procurarmos criar aqui oportunidades de vida. As actividades produtivas complexas devem ter cada vez mais lugar na nossa terra para nos fixarem. E estou aqui a visualizar um tipo…

Dá uma gargalhada:

– O parolo que viu a nossa região no deserto… Não deve saber nem Sociologia nem Geografia…

– Nem nada, filho. Ele e os outros que puseram o País e a Europa neste estado não sabem isso nem muitas outras matérias, entre as quais a Ética. Não posso com eles, estou farta!
E, em vez de aprender inglês comunicacional, só ecoam em mim sons do género “spread”, “offshore” e outras chatices que nos devoram.

Marta não se conforma com os sacrifícios, sempre para os mesmos, e os dinheiros grados, tantos deles desonestos, intocáveis. Desonestos mas intocáveis.

João Miguel levanta-se:

– Deixem-se estar; vou buscar o resto da refeição.
Mudem para o canal “Mezzo”, por favor. Ao menos há lá boa música.
A propósito: sabem o que está a apetecer-me? Outra Festa do “Avante”. Ao menos gente de tantas culturas e ideais canta, dança, encontra formas de diálogo e antevê melhores coisas.

A família continua o jantar a ouvir música brasileira através do canal televisivo francês. E deseja, na Europa, gente como Lula da Silva. Ou Dilma Rousseff e José Serra.

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

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