Homero Serpa: «Largo da Memória»Por Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Aprendi a ler no jornal “A Bola”, era ainda muito pequena. Sentada num banquinho do sótão da Tia Bá, comecei, em dia longínquo, a soletrar uma palavra estranha, “Co-ro-na”, nome de um herói desportivo da Cidade. Ainda hoje penso que esse silabar precoce foi a motivação maior para uma vida dedicada à leitura e ao seu ensino.
A “Cartilha Maternal: Arte de Leitura” deixou de ter segredos para mim por causa de “A Bola”, em números que o tio Manuel Horta trazia dos comboios, deixados por leitores que, embora desconhecidos, gostavam de partilhar afectos e saberes.
Uma doença infantil levara a embrenhar-me nas “Lendas da Nossa Terra” de Gentil Marques que o meu pai, homem de rara cultura, me oferecera, no tempo da “escola particular”, anterior à primária, na casa de duas senhoras, quase vizinhas.
Atingido o primeiro grau de ensino, acompanhava várias publicações, muito mais interessantes, confesso, do que “O Livro da Primeira Classe” cujas lições lia numa velocidade superior à das outras alunas.
E assim fui a primeira, numa das salas de aula cedidas pelo Instituto dos Ferroviários ao Estado, no meio de diabruras várias, a passar para a segunda parte do referido manual.
Verificado o facto, a professora tirou-me logo a alegria pela meta atingida, embotada pelas perguntas que resolveu, de chofre, fazer-me – ainda hoje, mais de cinquenta anos passados, ecoam em mim e magoam-me –: “Chegaste já aqui? Fizeste batota?”
(Tais questões foram das que me moldaram como docente: é um princípio acreditar nos alunos e no que produzem com e pelo trabalho que as disciplinas que tenho orientado promovem. Que continuo, irónica e paradoxalmente, a agradecer a D. Fulana.)
Os dias e os anos passaram; li, analisei e ensinei obras chamadas clássicas, o prazer de “A Bola” ao lado. Carlos Pinhão, Alfredo Farinha, Carlos Miranda, Homero Serpa foram os Mestres – da Língua Portuguesa e da Vida – escolhidos para a auto-formação. Tive o gosto de poder dizer isso, respeitosamente, aos dois primeiros.
Na Faculdade de Letras de Lisboa, o café, apressado, entre duas aulas, o jornal, folheado a correr, e uma exclamação com uma das parvoíces em voga entre pseudo-intelectuais da minha geração: “Ah! Gostas de ler esse jornal de homens em cuecas?!” Por educação e respeito pelos meus leitores, não registo, aqui, a resposta que dei à colega.
Os anos passaram, muita tinta correu em jornais, revistas, programas culturais ou de outra índole e livros. Li e reli, partilhei leituras e métodos para as tornar motivadoras, acompanhada por jornais de que fiz e refiz arquivos, depois perdidos – no pó, no tempo, na falta de espaço.
(Como gostava de ter uma casa-hemeroteca!)
Passado que me parece o pior de uma fase difícil que atravesso, ligo-me ao Mundo, regularmente, pela leitura, a Internet a proporcionar-me que o faça a qualquer momento, ainda que o prazer de folhear um discurso em suporte de papel continue a ser único na minha vida.
(E começo sempre por “A Bola” que me informa acerca das mais variadas temáticas.)
As polémicas, ligadas ao jornal da minha infância, segundo as preferências clubísticas, são por mim acompanhadas mas não me incomodam; se a família e a velha vila operária me moldaram como espírito livre, ainda no tempo do ditador, ia agora ceder a querelas inúteis a propósito de deixar de lê-lo?
Olho para uma destas estantes e nela revejo Carlos Pinhão (continuam a emocionar-me nele o talento e a simplicidade) e as dedicatórias que me fez.
Volto a Homero Serpa: “Largo da Memória: Contos” obra límpida na coerência da narração e descrição de uma Lisboa do povo, em labuta pela sobrevivência:
“Que horror de Inverno!, grasnava a mulher da fava-rica que tinha por agasalho o xaile de lã enrolado ao corpo. Com bom ou mau tempo, nunca faltava à clientela. O petrolino também não, nem o vendedor de fruta e hortaliça mais o paciente burro.”
De uma Lisboa de sacrifícios e coragem operária:
“A mancha azul dos fatos-de-macaco mesclada de castanho dos uniformes dos condutores e guarda-freios estendia-se, parecia azeite derramado que ia progredindo pelo pátio (…). É claro que a ferrugem compreendia a situação dos mangas-de-alpaca, censurava-os porque alguma coisa tinha de dizer à sua apatia, aos seus medos (…).”
De uma Lisboa de valorização dos ideais democráticos, insubmissão à ditadura, desprezo por inspectores mancomunados com o regime e bufos:
“O Totó, servente das oficinas, (…) aparecia nas retretes ou no refeitório como se tivesse saído de um buraco invisível, com o seu ar aparvalhado, físico ridículo e momices que os distraía até que foi descoberto quando recebia ordens do inspector, Vê lá se apanhas o Avante! ou qualquer panfleto clandestino e me dizes quem lê essas merdas. Fora uma imprudência do inspector, coisa rara nele e nos outros viscosos servidores da mesma categoria, mas não imaginava que alguém tivesse ficado na oficina depois das cinco horas (…). Nunca mais ninguém dirigiu uma palavra ao Totó (…). De um dia para o outro, Totó deixou de ser o indivíduo estimado que animava os dias com as suas momices para passar a ser o Enguia.”
Lisboa, hoje democrática mas pouco feliz pelo sofrimento das pessoas mais carentes; uma capital que vê, às suas portas, famílias em casas alagadas que não podem, para já, a História dirá a razão disso, ser substituídas por habitações decentes.
Manuela Fonseca*
*Colunista do Jornal Rostos
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Homero Serpa, “Largo da Memória: Contos”. Lisboa, Caminho, O Campo da Palavra, 2005, 169 [+6] pp.
Idem, p. 95.
Idem, p. 105.
Idem, p. 107.













