A crise, as medidas e o parágrafo único.Por Jorge Fagundes
Barreiro
"Mas"?
"Mas ganham balúrdios, acumulam altas pensões fruto de bem remunerado trabalho de poucos anos e, como a memória dos povos é curta, até se esquecem de quando passaram por cargos governamentais ou da área do poder".

Por Jornal Rostos
Esta tarde, quando ia a caminho do Ginásio do Barreirense para a cavaqueira do costume, fui dar com o meu velho Colega da Escola Alfredo da Silva junto à estátua do industrial daquele nome.
Estava tão absorto que nem sequer deu pela minha aproximação.
"Então, que fazes aqui"?
"Nem te vi chegar! Disseram-me que a placa tinha desaparecido e vim ver. Mas está cá".
"De facto, durante alguns, poucos dias, levou sumiço. Alguém, mais ingénuo, até julgou que lhe iam mudar o texto, mas não"!
"Não te queres sentar um pouco numa daquelas esplanadas"?
"Acho bem".
E lá nos sentámos, e enquanto não nos traziam as bicas, começámos a nossa conversa tendo por tema, inevitável, a crise que atormenta os europeus e não só.
" O que achas destes tempos tão atribulados", perguntou o meu velho Amigo.
"Ainda que, historicamente, sejamos um País sempre, com altos e baixos, agarrado a uma qualquer crise, aí estamos metidos numa mais".
"É verdade. Mas todas as outras, e muitas foram, já pertencem ao passado. Mas esta está a mexer em todos nós e, uma vez mais, a ir-nos aos bolsos".
"Creio que te enganas um pouco. Na verdade, há bolsos e...bolsos!"
"Como"?
"Vês os programas televisivos, não vês? Lês os jornais, não lês"?
"Sim, vejo e leio. Mas, vá lá, explica-te melhor".
"Quase todos os dias passam pelas televisões, e escrevem nos jornais, abalizados senhores que sempre são apresentados como especialistas em matérias económicas e financeiras. Vestem muito bem, falam ainda melhor, mas...".
"Mas"?
"Mas ganham balúrdios, acumulam altas pensões fruto de bem remunerado trabalho de poucos anos e, como a memória dos povos é curta, até se esquecem de quando passaram por cargos governamentais ou da área do poder".
"Tens razão. Às vezes fico a olhá-los e de repente... recordo-me quando, alguns, até foram Ministros das Finanças. Será que nessas alturas os nossos orçamentos não tinham défice"?
"Vês? E não é que todos, sem excepção, têm milagrosas soluções de cintura"?
"De cintura"?
"Sim, de cintura, A solução deles consiste, fundamentalmente, no apertar dos cintos. Mas, curiosamente, invocam sempre o parágrafo único"!
"Que é isso"?
"Já lá vamos. E como agora voltou a ser moda falar da nossa necessidade quanto ao aumento das exportações, bem poderíamos oferecer à estranja o talento desses cavalheiros. E se nos pagassem pelo preço que eles julgam que valem, era cá um negócio"!
"Lá estás com as tuas ironias. Mas, que é isso do parágrafo único"?
"Como bem o sabes, têm de ser tomadas medidas tendentes à dita redução do nosso défice orçamental. E qual é o clamor, do Minho ao Algarve, com desvios inter-ilhas, qual é"?
"Diz, diz".
"Elas são as muitas corporações ainda existentes num Estado não Corporativo, são as Autarquias, são as Centrais Sindicais, etc., etc, a, por um lado, não escamotear a existência da crise, para a qual em nada, é claro, não contribuíram, e a proclamarem, com uma ou outra divergência, infalíveis soluções, mas, sempre, sempre, hipoteticamente ao lado do povo, a exigir o cumprimento do parágrafo único.
Ou seja, medidas, medidas, sim, sacrifícios, sacrifícios, sim, mas...não se nos aplicam! Só aos outros, só aos outros.
E quem são os outros, quem são? O Bordalo Pinheiro bem os retratou, há largos anos, na imortal figura do Zé Povinho"!
Jorge Fagundes













