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Colunistas

A Unidade de Oncologia e o Novo Aparelho DomésticoPor Manuela Fonseca
Barreiro

Tenho, ainda por cima, a coincidência da excelência de condições de acolhimento, tratamento e escuta na “segunda habitação”, a Unidade de Oncologia do nosso Hospital.
Localização e equipamentos novos complementam os esforços de todos os que nela laboram para que nós, doentes, sejamos, de facto, pacientes, nos sintamos com a melhor qualidade possível de vida e por esta lutemos.

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A Unidade de Oncologia e o Novo Aparelho Doméstico Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

(Do Diário de Uma Mulher em Casa)

Maria José Horta e Fernanda Horta Almeida, minhas primas, mulheres que admiro: desdobram-se, todos os dias, em actividades profissionais e familiares.
(Gostava que ainda me acontecesse o mesmo.)

Quase quarenta anos entregue ao trabalho, numa dedicação quebrada, abruptamente, por doença – estúpida como todas e muito estúpida como algumas – que, quando parecia quase debelada, se decidiu por uma recidiva que me arrancou das aulas, da preparação das mesmas, de leccionar, por aqui e por ali – como se fosse de etnia cigana.

(A querida Maria Rosa Colaço descreveu, com mestria e admiração, em páginas inesquecíveis, gente desse grupo de pessoas, observada sob os prismas da solidariedade, partilha e gosto pelo lúdico.)

Arrancou-me, também, das dificuldades e rotinas da profissão, do convívio que ela proporciona – há os que não o esqueceram, a minoria que mantém laços comigo, e continuam a incentivar-me na luta contra o cancro, certamente herança genética, que me roubou sonhos, aptidões e nomadismo.

Quase quarenta anos de labuta, os primeiros entre a casa de meus pais, já sem o progenitor, as escolas onde trabalhei, o bacharelato em Filologia Românica, feito aos poucos – não havia, antes do 25 de Abril, horários para trabalhadores-estudantes na minha Faculdade – e a licenciatura em Literatura-Românicas.

Mais tranquilos os subsequentes, entregue à família constituída, à superação de graus académico e profissionais, à fixação oficial, na segunda metade da década de oitenta, na Escola Superior de Educação de Setúbal, à possibilidade, dada por esta, de conhecer melhor o meu Distrito e colaborar no seu desenvolvimento, na minha área de intervenção, a Educação, ligada a dois grandes amores, Língua Portuguesa e Literatura.

Momentos de grande prazer, com(o) o envolvimento em projectos europeus que me proporcionaram o conhecimento de outras pessoas, terras e culturas, em partilha numa Europa então cheia de esperança em dias de prosperidade e união que, por enquanto, infelizmente, não se confirmam, hipotecada por detentores, incompetentes, dos diversos poderes.

A família, o trabalho, o teatro, a música, a pintura, a escultura, a fotografia e outras artes visuais, o desporto, em variadíssimas vertentes, enriqueceram-me e quase fizeram sentir-me indestrutível, mesmo depois da ameaça que já me batera à porta.

Desdobrei-me por eles até à queda na cama, de novo e mais gravemente doente, convencida, então, que dela não me levantaria. Suponho que os que me rodeiam também o terão pensado e sentido.

Graças a Deus, embora depauperada, levanto-me, muitos meses depois, e ultrapasso o caminho só com dois sentidos, casa-hospital-casa, inicialmente com a lentidão que a situação clínica exige, depois com maior à-vontade. Passo à coragem, à esperança; o humor, que supus definitivamente perdido, regressa.

Retomo a atenção à comunicação social – durante meses, colmatada só pela TSF, “A Bola” e o “Rostos” cuja amizade fraterna com o Sousa Pereira foi a motivação para a regularidade de produção textual própria, inicialmente tímida, agora mais segura.

(Ensinar – além de actividades na ligação entre a Autarquia e a escolas do Concelho, em comemorações do 25 de Abril, regressei, recentemente, à Universidade da Terceira Idade do Barreiro – a escrita dos Mestres assusta-me quando procuro e produzo textos pessoais, experimentados, não poucas vezes, como um atrevimento.
Não estará já tudo dito e registado, através das palavras, na busca do belo, ao longo de séculos?
Partilho signos e sinais linguísticos com os outros porquê?
Porque venço melhor a solidão feita eu?)

Também Pedro Brinca e Luís Ferreira me têm convidado a colaborar nos jornais de que são Directores, respectivamente, o “Setúbal na Rede”, ligado à Escola Superior de Educação a que tanto me dei e o “Jornal do Barreiro”, parte da história da Cidade.

Alinhavo os meus tecidos de letras e sinais de pontuação numa forma de voltar a uma actividade regular, na expectativa de transmitir e trocar ambições, sonhos, dissabores, alegrias.
Com atenção à crítica.

Ajudam-me tais tecidos a viver melhor entre as quatro paredes da casa, agora melhorada e alindada.
Está mesmo como eu desejava, na simbiose entre o preenchimento de espaços e os que ficam vazios, uns e outros remodelados por técnicos competentes que tão bem interpretaram as solicitações feitas.

(Quantas pessoas poderão viver num lar acolhedor? O que fazemos todos nós, cidadãos, para lembrar a dignidade da e na vida?)

Tenho, ainda por cima, a coincidência da excelência de condições de acolhimento, tratamento e escuta na “segunda habitação”, a Unidade de Oncologia do nosso Hospital.
Localização e equipamentos novos complementam os esforços de todos os que nela laboram para que nós, doentes, sejamos, de facto, pacientes, nos sintamos com a melhor qualidade possível de vida e por esta lutemos.

Referi, por um destes dias, o estado de espírito positivo em que me encontro às dedicadas enfermeiras que, desde o primeiro dia da grande decepção, me acompanham e animam.

Uma dessas categorizadas profissionais comentou, com a graça do costume, o que acabara de ouvir:

– “Ti Manuela”, você renasce!

(Nota: “TI Manuela é a variante de “Tia Manuela do Politécnico”…)

– Parece que sim: estou bem-disposta com a geometria que agora me abriga, aqui e em casa; coincidência fantástica! Na Unidade, realço a privacidade de que os doentes usufruem.
E, lá, há um novo aparelho que adoptei como parente… Até organizo uma espécie de visitas guiadas ao esquentador!

– “Tia”, já a queríamos assim desde o ano passado!
Como gosto de ouvi-la! Diga isso à Doutora quando ela passar!

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

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