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Eu, Barreirense, escrevo-vos da EuropaPor Pedro Estadão
Barreiro

A verdade é que eles pensam que Portugal é uma espécie de Brasil, que ai é Verão o ano todo e se pode ir à praia em Dezembro, não desconfiam que temos internet mais rápida que eles e que, ao contrário daqui, há rede de telemóvel em todo o lado, mesmo no alto da Serra da Estrela, que não acreditam que seja 600 metros mais alta que o Ben Nevis e berço de um queijo melhor que os dos franceses.

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Eu, Barreirense, escrevo-vos da Europa Por Pedro Estadão Barreiro

Por Jornal Rostos

“Por sorte me restavam os sonhos, e em sonhos eu estava sempre numa ponte do Danúbio, às horas mortas, a fitar as suas águas cor de chumbo. E soltava os pés do chão, e balançava de barriga sobre o parapeito, feliz da vida por saber que poderia, a qualquer momento, dar à minha história um desfecho que ninguém previra.”
Chico Buarque, Budapeste

Caros amigos,
Se os imprevistos acontecem, aquilo que era previsível não podia deixar de acontcer. Altas horas da madrugada, ouvi dizer que Portugal ia pelo cano, que ia dar FMI, que os Espanhóis iam a seguir. Isto foi há coisa de uma semana, agora, estamos todos à espera de ver o que é que o Governo Português vai fazer, dizem que estão a tentar resolver o problema.
Acordei num país onde se ignora que, pelo mundo fora, 250 milhões de pessoas falam Portugês, toda a gente me compara o sotaque ao do Jouzéi Mourínhiu, e música Portuguesa quer dizer Néli Furtado. Mesmo os cidadãos com uma cultura acima da média nunca ouviram falar de Camões, Bocage, Eça, Pessoa, muito menos de Jorge Amado ou Vinicius de Moraes. Dizem-me descaradamente que os maiores autores do mundo são todos de língua inglesa, franzem o sobrolho, desconfiados, quando lhes falo de Tolstoi, Sartre, Gorki, Neruda, Pasternak; nunca ouviram falar de Luís Sepúlveda, Dario Fo ou García Marquez. Ah, mas afinal, não são Portugueses, esses! – dizem então com um certo alívio.
Literatura aqui é Shakespeare, Dickens, Yeats, Orwell, Twain, Hemingway e Fitzgerald. Curiosamente fazem como o Groucho Marx, que leu Guerra e Paz num minuto e afirmou: é sobre a Rússia. Dizem que os maiores autores do mundo são de língua inglesa apenas porque estão convencidos que tudo o que fazem é o melhor que se faz no mundo. Vão de férias a Portugal mas não gostam do nosso vinho, (já confirmei a suspeita que tinha de que quando ai vão, só bebem os vinhos da casa que se servem nos restaurantes algarvios), há que subir os padrõezinhos: vender vinho da tanga aos camones só serve para eles depois não recomendarem o nosso vinho a ninguém e ficarmos com milhões de litros a apodrecer nas adegas todos os anos. Por favor acabem com o vinho do garrafão.
A verdade é que eles pensam que Portugal é uma espécie de Brasil, que ai é Verão o ano todo e se pode ir à praia em Dezembro, não desconfiam que temos internet mais rápida que eles e que, ao contrário daqui, há rede de telemóvel em todo o lado, mesmo no alto da Serra da Estrela, que não acreditam que seja 600 metros mais alta que o Ben Nevis e berço de um queijo melhor que os dos franceses. Garanto-vos que como quase todos os dias presunto de Barrancos com um rótulo que jura piamente tratar-se de Prosciutto di Parma (origin: Barancuss), porque é mais fino ser Italiano. A bela Pera Rocha Nacional, (origin: Portugal) chama-se Sweet Pears e é a mais barata do supermercado, é pequenina e enfezadinha, não lhe pegam a não ser para fazer tartes.
Mas também comem as nossas laranjas, uvas, couves, cenouras e batatas a não ser que as existam de origem British. Se houver de origem local, não tocam noutra coisa. É para ajudar a economia da terra, afirmam orgulhosamente. Ficam espantados, (flabbergasted), quando lhes mostro que o GPS N-Drive que tenho no carro é, afinal de contas, produto daquele país quase terceiro-mundista que se chama Portugal, que a nossa maior fonte de receitas externas é a indústria automóvel e que ao longo dos últimos vinte anos produzimos os melhores recursos humanos do mundo em quase todas as áreas, mas não os conseguimos fazer ficar na terra que os viu nascer.
Não temos o estilo dos Italianos nem a pinta dos Espanhóis, mas também já não somos tratados como os Europeus do Leste e os Paquistaneses. Os portugueses de hoje, ao contrário dos dos anos 60, são emigrantes de luxo: administradores, cientistas, técnicos altamente qualificados, gente de alto gabarito, pessoas de bem, very educated, much knowledgeable; oh, and where did you learn to speak english? You sound like Mourinhiou. Your english is much better than my portuguese! Quando lhes dizemos que foi na escola pública, ficamos sempre com a sensação de que fomos preparados, ainda na nossa infância, para nos irmos embora assim que pudéssemos.
Portugal é um país que se habituou a viver das remessas dos emigrantes, cujo sistema de ensino se encarregou de garantir as condições necessárias para que a emigração não deixasse de existir, e cujos meios de comunicação social não defenderam suficientemente a língua pátria e os produtos nacionais para que o êxodo fosse evitado. Durante os anos 80 e 90 vivemos deslumbrados com tudo o que era estrangeiro. Os sucessivos Governos também não foram capazes de, em conjunto com o Brasil e os PALOPS, promover uma língua que é nossa e uma raiz cultural que nos é comum, aproveitando para criar condições para se olharem os produtos nacionais com outros olhos e, desenvolvendo a economia, abrir espaço para os recursos humanos altamente valiosos, que tanto dinheiro custaram aos contribuintes, ficarem na terra que os viu nascer e ai desenvolverem as suas actividades que sabemos serem altamente apreciadas e altamente valorizadas pelo mundo fora.
Nas palavras do meu compadre Rui, que é Português mas administra uma empresa na América do Sul: o “Tuga Ninja” está no seu melhor quando vai para fora: é desenraskated. Nas minhas palavras: se os Governos continuarem a sobretaxar a iniciativa privada e a dar benefícios absurdos a quem, obviamente, não os merece, só vão ficar em Portugal pobres, velhos e funcionários públicos. Aqui, os brothers resolveram o problema das reformas milionárias de uma cajadada só: a partir de agora, a reforma é igual para todos, descontem muito ou descontem pouco, tenham os cargos que tiverem. Se quiserem mais, poupem, (gostava de ver isso aí, na terra dos tugas ninjas). Mas entretanto, todos os que tinham reformas miseráveis passam a ter condições razoáveis de vida e a Segurança Social passa a ser muito mais sustentável por ser muito mais previsível e não depender, como no nosso país, de haver 3 a sustentar 10, incluindo nestes dois ex-políticos (um dos quais, reformado três vezes), um delegado sindical que nunca fez nada na vida e, pelo menos um ex-Administrador de um banco qualquer, que, eventualmente, é um dos ex-políticos.
Como estou na Europa, muito perto do centro do mundo e muito longe de casa, sendo uma pessoa que gosta de falar com os seus amigos mais íntimos, que até são portugueses, começo o dia a falar com um que está quase a deitar-se na Nova Zelândia, depois falo com uma que está na Austrália, seguem-se os que estão em Moçambique e nos Emiratos Árabes, um no Turquemenistão, outra na Rússia, dois em Itália, três em França. À hora de almoço falo com os que estão na África do Sul, na Alemanha, na Bélgica, na Holanda, no Luxemburgo e na Suiça, a seguir falo com outro em Espanha e, ao fim da tarde remato o meu dia com uma skypada para Angola, Brasil, Estados Unidos e Canadá. Saio do trabalho e vou , ocasionalmente, beber um copo com um amigo Português que esteja em Cambridge, Londres, Birmingham ou Leeds. No fim-de-semana vou ao País de Gales, que é a parte de Inglaterra mais povoada por Portugueses e o sítio mais próximo onde posso beber um café em condições.
Se isto não é ridículo, peço-vos a todos que continuem a votar em quem vos engana descaradamente, em vez de vos dizer a verdade do que pensa e do que está a acontecer.
Decidi, pela primeira vez na minha vida, não votar nestas Eleições Presidenciais, apesar de o poder fazer. Tenho a minha preferência pessoal, mas decidi juntar-me ao protesto colectivo contra a falta de seriedade e honestidade, que são constantes na política Portuguesa, e que considero reflectir-se na abstenção. Espero que, no futuro, as coisas melhorem e apareça um candidato Presidencial que nos garanta independência, inteligência, coerência e discrição no desempenho do cargo, e que isso seja o corolário de uma verdadeira renovação da classe política.
Se as coisas por ai continuarem como estão, não sei se volto. Como constuma dizer o Jorge Paulo, que se foi embora para o Golfo Pérsico: estou farto de mediocridade.
Para todos um grande bem haja do vosso,

Pedro Estadão
7 de Dezembro de 2010
Shifnal, Telford, Reino Unido

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