À Restauração de Portugal em 1640Por Pedro Estadão
Barreiro

Por Jornal Rostos
“Cesarões, Viriatos, Apimanos,
Vós, que, brandindo vingadora espada,
Tentaste sacudir da Pátria amada
O vil, o férreo jugo dos Romanos:
Surgi, vede-a no sangue de tiranos
Inda piores outra vez banhada,
E a nossa liberdade edificada
Nos estragos dos intrusos Castelhanos:
Aos senhores do mundo armipotentes
Arrancaste em bélica porfia
Parte do louro que lhes honrava as frentes:
Porém, com valorosa valentia
Os vossos memoráveis descendentes
Fizeram mais – livraram-se num só dia!”
Manoel Barbosa du Bocage, Sonetos
Hoje, estou a escrever à moda antiga, a caneta está estragada e tenho que esperar que a tinta seque para poder virar a página. Roubei o título desta crónica ao Elmano Sadino, vivo a distância do exílio, tenho uma musa inspiradora e o tempo que a tinta demora a secar dá-me tempo para pensar com exactidão naquilo que quero escrever. Já me tinham avisado que a distância da ditosa pátria amada me ia permitir ver mais claramente, agora acredito.
A partir de hoje, vou começar a escrever a tinta da china porque neste exacto momento, (quer dizer, há coisa de dois minutos, enquanto a tinta secava e eu não tinha virado a página), percebi que, à semelhança dos meus compatriotas, sou um lírico. Uma epifania faz-me sentir totalmente identificado com Camões e com Bocage, a derrota da Rötring é a minha vitória. Consegui finalmente entender na sua plenitude o pentâmetro jâmbico de um e a Marília de outro.
A distância e o tempo que a tinta demora a secar dilatam a nossa capacidade de observação e racionalização dos objectos e das pessoas. A esferográfica e o acordo ortográfico estragaram o Português. O nosso lirísmo militante estragou Portugal.
Não vou queimar bandeiras como alguns exilados do passado, mas, neste momento, sinto um bocadinho de vergonha de ser Português: todos os dias leio notícias que mostram o descaramento e a distinta lata com que candidatos ao posto de representante de todos os Portugueses e defensor dos seus direitos constitucionais se escondem do passado e da sua associação a corjas criminosas, da mesma forma que desde o trauma da descolonização, o país inteiro se esqueceu e procura ocultar a sua herança histórica.
Assusta-me que, nos últimos trinta e poucos anos, os únicos altos representantes da Nação que parecem convictamente honestos tenham sido um Presidente militar, um Primeiro-Ministro que disse que o povo é sereno e duas vítimas de um atentado que nunca foi esclarecido.
Visto daqui, à distância: Portugal parece um país da América Latina dos anos 60, onde a corrupção da classe política, o olhar para o lado generalizado, a manipulação da Justiça, a distorção e ocultação da verdade, os ataques aos direitos fundamentais dos cidadãos, a criação de leis e taxas iníquas e a falta de coragem para tomar as decisões correctas são o dia-a-dia da governança e o “deixa andar” de um povo que se recusa a abrir os olhos e deixa o Estado sustentar instituições financeiras de faz-de-conta que só servem para a malta do sistema mandar dinheiro para os primos que são taxistas na Suíça.
O problema é que a guerra fria já acabou e não dá para escolher entre os Americanos e os Soviéticos para resolver o problema. Agora, vamos a leilão e quem compra é o Kadhafi, o Amadhinedjad, o Hugo Chavez e o Comité Central Chinês. Os Espanhóis também já não têm dinheiro para nos comprar. E nós vendemos porque estamos à venda. Estamos à venda porque temos um Português a sustentar cada cinco, um Parlamento que consome 100 milhões de Euros por ano, (antigamente queria dizer 20 Milhões de Contos, em Euros até parece pouco, não é?), trezentos e tal municípios e mais de mil freguesias, com os respectivos desperdícios.
O problema é que as ideologias estão falidas, foram vencidas pela obsessão economicista. Algures pelo caminho deixou-se cair o Homem porque se pensou que a única coisa importante eram os números. Deixou de fazer diferença quem é que ganha as eleições. A partidocracia parlamentar esgotou a sua credibilidade porque já nem os Deputados são livres de dizer o que pensam ou votar como lhes manda a consciência. A disciplina de voto acabou com a Democracia. A alternância bipolar gerou uma casta corrupta e mercenária que sente impune porque não depende do escrutínio popular para se manter entre o poder e a expectativa de o ocupar, basta-lhes dominar os aparelhos partidários e esperar. As caras e os nomes repetem-se ao longo dos anos.
O problema é que convenceram os Portugueses de que eles são um povo de brandos costumes. Houvesse alguma espécie de memória atávica e estaríamos neste momento a começar a sentir o desconforto da revolta, o crescendo emocional que nos levou à criação da Nacionalidade, a 1383, a 1640 e a 1910. Se eu fosse da numerologia dizia que ainda faltam para ai 150 anos de estoicismo, lirismo e masoquismo para as coisas mudarem a sério outra vez. O 25 de Abril de 1974 não foi uma revolução, foi um soluço. Agora que os soluços passaram, as coisas encaminham-se normalmente para o estado anterior.
O problema é que o sucessivo adiar das mudanças necessárias vai levar ao fim da Justiça, da Igualdade, da Solidariedade e das oportunidades para se fugir suavemente do rumo que leva ao total e absoluto descontentamento. Um Estado em que a Justiça não funciona, a Comunicação Social está afectada pela adoração ao poder e o povo sofre calado, é um Estado com os dias contados.
Os problemas não se adiam, resolvem-se. Acredito que ainda vamos a tempo de os resolver, mas o tempo, como a areia numa ampulheta, está a chegar ao fim. Temos que parar de ser líricos e assumir, cada um de nós, a atitude necessária para a mudança: parar de olhar para o lado e de falar das coisas como se não nos dissessem respeito.
Através de toda a Europa correm ventos de descontentamento, as pessoas pequeninas estão cada dia mais e mais revoltadas e sentem-se atraiçoadas pelos seus representantes. O volume dos protestos está notoriamente a aumentar. Grupos como o Wikileaks começam a arranhar o verniz que esconde a verdade aterradora de uma sociedade cada vez mais controlada e silenciada. Os cidadãos mais destemidos começam a esperar a liderança que lhes falta para sairem para a rua em descontentamento, olham para os Juliens d’Assanges de agora como no passado olharam para Milton ou Locke e as suas posições em favor da liberdade de expressão.
Se a Europa não se conseguir recriar como espaço de liberdade e democracia, o status quo tem os dias contados. O copo está a encher e as palavras resitência cívica e revolução começam a andar de boca em boca, os Europeus estão a ficar fartos de ser enganados. É bom que os líderes políticos deixem de olhar para os seus umbigos e acordem para esta necessidade de mudança, percebam as aspirações dos cidadãos e se comportem como deviam comportar. Se persistirem neste caminho, sinto que a mudança vai encontrar uma maneira de, por moto próprio, se manifestar, porque a mudança é inevitável... é uma constante da vida.
A caneta já despejou a tinta quase toda, mas há uma coisa que ainda tenho que escrever: temo que a próxima revolução não se vá fazer com flores e seja mais parecida com a Restauração de Portugal em 1640...
Aberaeron, País de Gales, 15 de Janeiro de 2010
Pedro Estadão













