O Livro «30 Anos de ArteViva…»(Ou a Companhia de Teatro do Barreiro)
Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
Há trinta anos e alguns meses nasceu o meu filho mais velho; há trinta anos e alguns meses nasceu a ArteViva que, pelo que atrás disse, não pude acompanhar, presencialmente, logo no início mas da qual recolhi todas as informações e impressões que consegui – uma nova abordagem de explorar, fazer, (re)criar a Arte de Molière, Talma, Sara Bernhardt, Mestre Herculano Marinho começava a fazer escola no Barreiro.
A chegada do meu rapaz mais novo adiou, por mais um pouco, a primeira peça, saboreada no Externato Manuel de Melo. Que não cheguei a ver, numa noite – ainda hoje memorável por não me ter corrido bem.
Um quase-conceito, muito pessoal, de relógio, que sempre me tem acompanhado, excepto na pontualidade de chegar às salas de aula e de outros tipos de formação, fez-me a partida: perdi a representação.
Cheguei uns momentos depois do início, num dos quiproquós em que a vida me tem sido fértil e através dos quais temos dado cor uma à outra.
Um quase-conceito, tão peculiar que, acrescento, qualquer marcador do tempo, logo que chegado ao meu pulso, deixa de funcionar…
Como a excepção serve para confirmar a regra, tem-se mantido, certinho, um, que, entre muitos, me resiste, em heróico trabalho anónimo – visto não lhe fazer, coitado, publicidade. O que o meu marido, homem de espectáculos e horários escrupulosos, estupefacto com o fatídico atraso, resolveu, em boa hora (é caso para usar a expressão em sentido literal), oferecer-me, para além de outros, menos felizes, depois dele.
Que, imperturbável, anda comigo desde “A Farsa de Inês Pereira”, finalmente vista, sentida, interiorizada como se pertencesse à Companhia – ou ao Grupo, como prefiro referir.
De ambos me sinto membro, em monólogos silenciosos, férteis em sentimentos, explicados – a mim e a outrem – por um olhar, um aplauso em pé, um “bravo”.
(Faço um curto excurso e passo do teatro para o futebol – ambos jogo e drama, às vezes tragédia, comédia, sátira, ambos parte da minha vida como sua seguidora, admiradora e estudiosa.
Para acrescentar que tal relógio bem me ajudou aos festejos do primeiro golo, eu já no “Manuel de Melo” em vez de escorrer os pratos antes de colocá-los na máquina da loiça e saudá-lo a ouvir a rádio…
Como posso ter saudades de um campo de futebol sem condições adequadas à prática do mais popular dos desportos? Pela razão, existencialista e triste – obrigada, Kierkegaard –, de ser impossível substituir pouca coisa pelo nada.)
Pouco dada a desculpas, trago, no entanto, à colação a falhada aproximação inicial à ArteViva:
1. O marido cumpria um turno, complicado para a família, na empresa onde trabalhava.
2. Mãe e a sogra não tinham podido estar mais cedo junto dos netos.
3. Eu morava longe do Externato.
4. Não tinha (tal como agora, credo!) carta de condução.
5. Fui de autocarro e, para cúmulo, andei um bom bocado a pé até chegar ao Externato.
Moral da história: melhor me soube quando, uma semana depois, me sentei para ver (e estar com) a peça. Com a ArteViva a oferecer-se, exemplarmente, a Gil Vicente e a um público rendido à Companhia.
Em amor perene.
(Não tinha a ditadura conseguido demover – os Barreirenses, os Portugueses – do Teatro e outras manifestações artísticas.
Que população mal-educada e anti-social!
Que raio de ideia, essa de, em família, em sociedade não querermos ficar pelos gatafunhos?
Somos um caso perdido para a ausência de Direitos Humanos e Qualidade de Vida, embora alguns finjam que não damos por isso: Trabalho, Arte, Cultura, Desporto, Alegria, Democracia e outras esquisitices moldaram gerações.
E, por esses e outros factores, andamos estupefactos com este pechisbeque que nos andam a impingir como Liberdade e Modernidade. Mas nós não gostamos de imitações rascas – como já está farto de ser dito – de Democracia. E de fingimento em vez de Verdade.
Nós assim e “eles” a pedi-las, como diria o Ti João Cavalheiro da minha velha Rua Dr. António José de Almeida. Inclusive uma peça que reponha o grito de Solnado, no fim da década de sessenta: “Senhor, estou farto!”)
A ArteViva continua a surpreender-nos, com uma qualidade que Lorca tanto teria apreciado, em cada dia, em cada encenação, em cada mostra, em todos os escalões etários que a compõem. E, agora, sob a forma de um belo livro que, através da pesquisa e redacção de Paula Magalhães, nos chega às mãos, à leitura atenta, à observação, ávida e orgulhosa por mais esta criação. Que nos faz querer oferecê-lo ao País. E, então, gritar ou sussurrar: “O Barreiro também está aqui!”
Paula Magalhães traz-nos, com sabedoria, amor e graça, uma Arte cada vez mais aperfeiçoada que é a do seu grupo (a da sua Companhia): datas, fotografias, produções, depoimentos, momentos vividos nos bastidores ou em palco, peripécias, agradecimentos, humildade, desejo de superação divertem-nos, ensinam-nos, apaixonam-nos e tornam-nos, pessoal, social, intelectual e esteticamente, mais ricos. Tanto como quando vibramos com o que nos é oferecido no tablado.
Em relação ao que, emocionalmente, mais me toca, o relato, com finura, no fim da página sessenta e três, de um esquecimento do meu marido, Manuel Alpalhão, durante a representação de “Cécile ou a Escola de Pais” de Jean Anouilh que quase fez a minha querida Genoveva Pimpista, na função de ponto, desesperar, resolvida pelo Manel de forma hilariante e experiente fez-me rir a bom rir.
Por acaso, a saudosa sogra, a jovem nora e eu assistíamos, aflitas, nesse dia, ao lapso, enquanto aquela nos dizia: “Se já não decora os papéis, o que está aqui a fazer o meu filho?”
Afinal ainda veio a decorar outros…
Quanto ao agradecimento que, na noventa e cinco, me é feito, a propósito de “A Paixão Segundo o Árbitro”, remeto-o para a Paula e a ArteViva: sou eu que fico reconhecida sempre que me solicitem escrever acerca de Futebol (Teatro, Literatura). Nem que seja uma linha.
Paula Magalhães entra na História do Barreiro, da Cultura e do Teatro em Portugal com “30 Anos de Memórias… e Outras Estórias da Companhia de Teatro do Barreiro”. A que ela e a ArteViva fazem jus.
Em edição da Companhia, datada de Outubro do passado ano; indicada como a primeira. Felizmente.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













