Carta de AmorPor Pedro Estadão
Barreiro

Por Jornal Rostos
“Com que brilho e inspiração copiosa a compusera o divino Artista que faz as serras, e que tanto as cuidou, e tão ricamente as dotou, neste seu Portugal bem-amado!”
Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras
Estou sentado na praia a olhar para o mar. Do outro lado deste imenso azul vejo uma terra onde os homens têm alma de poetas e coração de meninos; onde as andorinhas fazem os ninhos na primavera; onde há um palácio, leve como uma pena, que se ergue do meio das núvens como um sonho de amor; onde as ondas beijam as areias douradas.
Levanto-me e ponho os pés dentro de àgua. Tremo com a realização de uma ligação ancestral ao mesmo fluido gélido que banha a Baía de Sesímbra, de Sines, da Foz do Porto e da praia do Moledo. O Atlântico Norte está aos meus pés, está aos nossos pés; o líquido infinito que contém as nossas dores do passado e as nossas esperanças do futuro distante.
Fecho os olhos e oiço as gaivotas grasnantes. Sorrio com os sons da maré no silêncio do Inverno, mergulhado no profundo azul que me liga ao mundo e me alimenta os sentidos. Um farol buzina, ao longe, avisando os navios do perigo das falésias. Os pássaros continuam a grasnar na sua língua universal, os barcos seguem o seu caminho.
Sinto chegar o frio marinho do mês de Janeiro. A ilusão que se apoderou de mim não durou mais que um instante: a buzina do farol, o ruído dos motores dos barcos e o piar das andorinhas-do-mar não são mais que uma banda sonora delico-doce que me promete sonhos que não vai cumprir. A terra prometida continua ao longe, muito afastada.
Saio da água devagar e sacudo a areia dos pés. Uma lágrima corre-me pela face. Do outro lado deste mar há um povo que sofre, que tem o fado de repetir os mesmos erros uma e outra vez, porque gosta de chorar as suas mágoas. Gente que na sua hora final alimenta os abutres porque não teve ventura de voar como as águias e cumprir o quinto império.
Caminho pisando cascas de moluscos escavacadas. Repito a sina de há muitos anos atrás, quando, na foz do Tejo, espetei uma concha de ostra no pé. Um mal do passado volta para me atormentar. Não nos livramos da cicatriz, arde. Se tivéssemos prestado atenção, não tinha acontecido. Acertar à primeira não é humano. repetir o disparate é torpe estupidez.
Os sais do mar curam todos os males do mundo. Olho para o cais, ainda está longe. Volto os meus olhos para as ondas, sinto os ventos do Sul no rosto. Vem lá o nevoeiro, há de ir-se embora. Não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe. Respiro fundo... Sinto um nó na garganta como se um malfeitor me apertasse o pescoço. Escrevo uma carta de amor.
Bristol, Inglaterra, 21 de Janeiro de 2011
Pedro Estadão













