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Elementar, meu caro Watson!Por Pedro Estadão
Barreiro

Esta nova consciência global, que nos permite assistir, em tempo real a uma cirurgia que está a decorrer no Japão enquanto damos a nossa opinião a partir de um qualquer ponto da Europa ou da América do Sul, também nos permite acompanhar minuto a minuto o que se está a passar na Bósnia com os familiares das vítimas dos crimes de guerra que ali ocorreram, ou falar e rever amigos que estejam em pontos tão distantes como a Califórnia e o Sri Lanka, simultaneamente e a qualquer hora do dia ou da noite.

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Elementar, meu caro Watson! Por Pedro Estadão Barreiro

Por Jornal Rostos

“A partir de uma gota de água, um Lógico pode inferir a possibilidade de um Atlântico ou um Niagara sem nunca ter visto ou ouvido um ou o outro.”
Arthur Conan Doyle

Era uma vez Mohamed Bouazizi, um jovem licenciado, sem emprego fixo, a tentar sustentar a sua família. A alternativa que arranjou foi vender frutas e legumes no mercado. Não tinha licença, a polícia confiscou-lhe os produtos No seu desespero, encharcou-se em gasolina e tentou imolar-se pelo fogo, acabou nos cuidados intensivos e iniciou uma onde de protestos por mais emprego e melhores condições de vida que está a varrer o norte de África e o Médio Oriente e já suscitou manifestações de solidariedade em locais tão longínquos como as Filipinas e o Vietname.

O mundo já não funciona à distância, como funcionava há vinte ou trinta anos atrás, quando a informação nos chegava pelos jornais impressos, duas vezes por dia e a informação televisiva e radiofónica, na sua limitação, nos apresentava a imagem de um mundo lá fora. Era o nosso mundo e o dos outros, os fenómenos de massas transmitiam-se em câmara lenta, com todo o género de filtros, censuras e desvalorizações que isso permitia. Veio a Internet e o mundo é agora. Deixou de haver o nosso e o dos outros, passou a haver uma consciência global que é imediata. As batidas dos corações da humanidade passaram a estar sincronizadas e interligadas.

Esta nova consciência global, que nos permite assistir, em tempo real a uma cirurgia que está a decorrer no Japão enquanto damos a nossa opinião a partir de um qualquer ponto da Europa ou da América do Sul, também nos permite acompanhar minuto a minuto o que se está a passar na Bósnia com os familiares das vítimas dos crimes de guerra que ali ocorreram, ou falar e rever amigos que estejam em pontos tão distantes como a Califórnia e o Sri Lanka, simultaneamente e a qualquer hora do dia ou da noite. Como corolário, tendo-se mantido as fronteiras físicas que separam os países, abateram-se as fronteiras do espírito. Sou Tunisino como os que protestaram contra o desemprego naquela parte do nosso mundo como sou Egípcio a protestar contra a falta de liberdade e contra a imobilidade social do país dos Faraós.

Em 2010 despertámos para uma nova realidade, o caso Wikileaks demonstrou que a aspiração ao direito de ser informados de todos os cidadãos do globo podem convergir para um único ponto e os Governos do Mundo não podem mais jogar às escondidas uns com os outros, as regras da Diplomacia Internacional mudaram de um dia para o outro. A privacidade, que tem sido cada vez mais negada aos indivíduos, foi finalmente negada aos Estados todos poderosos. Olho por olho. Quem ainda não percebeu que esta situação implica uma radical mudança de mentalidades ao nível dos Governos e das grandes empresas multinacionais, e da liberdade que têm para agir de modo inaceitável para todos nós, está na hora de se retirar.

Cada vez é mais presente o personagem de “1984”, Winston Smith. Para o bem e para o mal somos observados e controlados nos nossos mais pequenos gestos do dia a dia e a informação vai sendo armazenada numa qualquer base de dados cuja localização desconhecemos. Os Governos estão a usar o nível tecnológico que atingimos para controlar os cidadãos, sem lhes darem, em contrapartida, o alargamento da Democracia e da sua participação nos assuntos dos estados que a mesma tecnologia permite. Isso tem de mudar, e tem de mudar depressa, porque o mundo pulsa, neste momento, à razão de centenas de milhão de mensagens por minuto, e os indivíduos querem ter uma palavra a dizer.

Se os governos dos países mais desenvolvidos não derem o exemplo e procurarem transitar pacificamente para formas mais evoluídas e mais participadas de Democracia, as revoluções digitais, das quais temos o primeiro exemplo no Egipto, vão alastrar aos países ocidentais porque o mundo passou a ser um fluxo contínuo de informação e as experiências e as vontades transmitem-se de forma cada vez mais rápida e imparável. Instrumentos como o Twitter e o Facebook deixaram de ser considerados recreativos e transformaram-se em equipamentos de organização social de evolução rápida. Os sistemas políticos vão ter que se reorganizar para se adaptarem a esta nova realidade, se não o fizerem, vão entrar em falência.

Os ventos da mudança começaram a soprar na Tunísia, não se vê sinal de estarem a abrandar.

Pedro Estadão

(Aviso: Este autor recusa-se a seguir o Acordo Ortográfico, se quiser ler bom Português, consulte a Folha de São Paulo)
Belfast, Irlanda do Norte, 5 de Fevereiro de 2011

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