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Colunistas

Caro João Alberto GouveiaPor Manuela Fonseca
Barreiro

Dois pensamentos, querido João Alberto, temos, entre outros, em comum: que este País deixaria de ser bacoco com trabalho e estudo; infelizmente aquele escasseia e nunca tivemos tanta gente em actividades intelectuais: esperemos que seja, um dia, melhor governado e mais feliz.

E que surjam, mais tarde ou mais cedo, os frutos de melhor formação para que Portugal possa dar o salto a que temos jus, principalmente os nossos pensionistas e jovens, sobretudo os que têm mais dificuldades.

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Caro João Alberto Gouveia Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos


“As voltas que o Mundo dá”: boas ou más são as nossas.
Nascemos bem perto um do outro: tu, bebé lindo, algum tempo depois de mim.
Para alegria das nossas mães, tão amigas, o que viemos a brincar na tua/vossa fábrica!

Eu dava um saltinho da Rua Dr. António José de Almeida, local da habitação, e corria para a junto de ti e dos teus, na Avenida da República, História do Barreiro e dos teus. Lá, sempre em movimento, o teu pai geria a actividade dos seus distribuidores de bebidas e outros trabalhadores, já afastados, sem ofensa, das minhas lembranças.

Havia os célebres “pirolitos” cujos berlindes, com a minha crónica atrapalhação motora, jamais conseguia empurrar – a vossa fábrica fora das primeiras a produzi-los, em Portugal, suponho que em mil novecentos e vinte e sete – e sabiam-me tão bem e tantas saudades deles tenho!
A tua mãe ou a minha prima e madrinha Maria Helena Horta, funcionária, orgulhosa, da “Fábrica de Refrigerantes e Xaropes José Gouveia”, e outra senhora que com ela, laborava no escritório, faziam, com simpatia e boa vontade, o que eu não conseguia.

Ainda tenho na memória as brincadeiras que lá fazíamos, numa fonte – ou algo que já me é longínquo, na recordação –, divertidíssimos, com umas canequinhas de barro alentejano, “do bom”, como dizíamos, que o meu pai, numa das suas viagens profissionais, como fogueiro ou maquinista, nos trouxera da Funcheira.

(Aliás, terra e estação onde se passava algo curioso: os estrangeiros, habitualmente franceses – suponho que em maioria, então – e ingleses que, na segunda metade da década de cinquenta, começavam a descobrir o Algarve, pediam por gestos, bem perceptíveis, aos ferroviários que lhes fizessem o favor de lhes deitar fora o lixo dos comestíveis.

Tal não se passava com a maioria dos nossos – que deixavam a plataforma composta de lixo – será ainda essa a mentalidade que, “descontraída” e mal-educada, temos, como povo, que, décadas e décadas depois, através dos dirigentes, pedincha, sem nível, à Senhora Angela Merkel e a outros dirigentes da União Europeia?)

Às vezes, se não estou em erro, o Jorge Paulo, vizinho de esquina do João Alberto, ia ter connosco, já com a intenção e o desejo de tudo querer ver e saber, que, mais tarde, veio a fazer dele, certamente, um engenheiro brilhante, com actividades reconhecidas em vários Continentes.

Patrocínia e José Gouveia, como já uma vez referi, por escrito, nunca mostraram aos meus progenitores as diferenças sociais entre os dois casais, nunca estabeleceram a mais pequena barreira numa relação que os uniu enquanto passaram pela (ou por esta) vida.

Havia/há uma referência na História contemporânea do Barreiro, na vida de antifascista de um bisavô de João Alberto. E assim, a família Gouveia acrescenta a uma lição de trabalho, incansável, uma outra, a da coragem.
Miúda, tomei grande atenção à explicação da minha mãe, num dia cinco de Outubro, a propósito da bandeira nacional que cobria o féretro do homem que, sozinho, apenas munido de inteligência e valentia, tinha conseguido salvar um grupo de trabalhadores da Companhia União Fabril, encurralado no meio de forças repressivas da época.

Ainda hoje está, no meu coração e no meu primeiro álbum, uma fotografia na qual baixei a cabeça – eu era muito tímida – quando, no terraço da família Gouveia, alguém tirou uma fotografia em dia do teu aniversário.

As décadas passaram, João Alberto, o desejo de liberdade tomou muitas formas entre os jovens da nossa geração e chegou, felizmente, o 25 de Abril que nos libertou da ditadura.

Um dia, João, encho-me de coragem e, se mo permitires, conto aos meus leitores o que dizíamos um ao outro devido à diferença das nossas formas de encarar Abril… Penso que estão totalmente memorizadas pela tua prima, minha amiga e madrinha de casamento, Maria João Bravo Silva (Gomes), pessoa cuja moderação a impediu, fosse a quem fosse, zangas patetas devido a diferenças de pensamento; ou quaisquer outras.
Talvez por ela nunca nos beliscámos e temos mantido este grande afecto.

Dois pensamentos, querido João Alberto, temos, entre outros, em comum: que este País deixaria de ser bacoco com trabalho e estudo; infelizmente aquele escasseia e nunca tivemos tanta gente em actividades intelectuais: esperemos que seja, um dia, melhor governado e mais feliz.
E que surjam, mais tarde ou mais cedo, os frutos de melhor formação para que Portugal possa dar o salto a que temos jus, principalmente os nossos pensionistas e jovens, sobretudo os que têm mais dificuldades.

Acreditemos num amanhã melhor.
Sinceramente, ao ler a bela entrevista que o “Jornal do Barreiro” te fez, no número 3101, ano 60, nas páginas, 1, 8 e 9, a minha esperança nessa situação aumenta; a distinção “da Unilogos como um dos 100 melhores locais de trabalhos em Portugal” (p.8). Também fiquei feliz pela tua afirmação:”Não temos qualquer tipo de endividamento bancário” (idem)“.

E que comentar acerca de teres retomado a “Unilogos” que, na tua ausência, deve ter apre(e)ndido que “quem sabe, sabe.”: “Como este ramo de negócio implica um conjunto muito diversificado de condições específicas que já conheci de antemão, acabei por resolver voltar a investir nesta área.” (idem).

E, especificamente, em relação ao nosso Barreiro, que ambos tivemos que deixar para poder desenvolver melhor o nosso labor, que fique à atenção dos políticos locais: “Referiu que tenho uma ligação ambígua com o local onde nasci, mas quero que fique claro que tenho muito orgulho em ser barreirense. Tenho toda a honra nisso mas parece-me que tem que existir uma determinação muito grande em combater os problemas com que nos confrontamos. Haverá capacidade para o fazer?” (p.9).

Quanto a Portugal, que todos tentem esforçar-se como tu e os teus colaboradores pelo país inteiro e, certamente apenas dessa forma, deixaremos a pobreza – que nos envergonha: “Neste momento, está tudo à venda. O país, a praia e os clubes de futebol” (p.8).
Se conseguirmos, um dia, sair desta situação, manteremos um dos mais antigos países europeus com a Dignidade que lhe é devida.

Recebe, querido amigo, o agradecimento por me teres citado na entrevista ao “Jornal do Barreiro”, as felicitações habituais e um beijinho da

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

PS: parece que vou ter o patrocínio do filho da querida Patrocínia na edição do meu pequeno texto dramático acerca do centenário do Futebol Clube Barreirense.
(Não voltará a acontecer-me outra, D. Patrocínia…)

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