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O reverso da medalhaPor Pedro Estadão
Barreiro

O que sinto é que estas últimas têm decorrido sem objectivos concretos porque falharam em identificar que o instrumento que possibilitou a sua consciência de que as coisas não estão bem, pode vir a ser o veículo da Democracia do futuro.Um dia, toda a informação, sobre todas as coisas do mundo, vai estar disponível para todos; os sistemas de Governo vão ter que reflectir esse facto.

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O reverso da medalha Por Pedro Estadão Barreiro

Por Jornal Rostos

"Mas enquanto eles falam de leis económicas, há homens e mulheres a passar fome. Temos que nos confrontar com o facto de que as leis económicas não foram feitas pela natureza. Elas são feitas por seres humanos."

Franklin Delano Roosevelt

Há dias em que acordamos com uma profunda vontade de mudar o mundo. Olhamos em volta e, por todo o lado, vemos os efeitos da devastação que temos causado a este planeta. Da Antártida ao Evereste sentem-se os efeitos da forma desregrada que a humanidade tem tido de explorar os recursos limitados desta bolha em que vive. O terramoto e consequente maremoto que ocorreram do outro lado do mundo, no Japão, por via do infortúnio de terem despertado mais uma vez o monstro nuclear, mais uma vez nos lembraram, de forma brutal, que a nossa vida neste planeta é curta e preciosa e está ligada à de todos os outros seres deste mundo.

No Norte de África os aviões Franceses despejam bombas sobre o dispositivo militar do déspota Khadaffi. Por todo o médio oriente as populações se sublevam contra os seus governos iníquos, injustos e totalitários. De todo o lado nos chegam notícias da forma Siciliana que os líderes do nosso mundo têm de gerir os assunto que, afinal, são de todos nós, de todas as aldeias, vilas e cidades de todo o planeta. Insistem em obrigar as populações a fazer coisas que são contra a sua vontade, dizendo-lhes que é do seu interesse, sem as ouvirem. O resultado é esmagador: numa época em que produzimos, de longe, muito mais do que é necessário para que todos os seres humanos tenham uma vida digna e sem privações, dois terços da Humanidade têm falta de tudo e o outro terço sustenta o menos de um por cento que tudo comanda.

Mas, a globalização, que reforçou as injustiças, também teve o seu reverso da medalha, permitiu o reforço da consciência de cidadania global que hoje nos preenche. Apesar das diferenças culturais e religiosas, temos hoje à nossa disposição ferramentas que nos aproximam a todos e que reforçam este sentir de que o mundo pode ser um lugar melhor se todos formos ouvidos nas decisões que a todos dizem respeito. As redes sociais globais proporcionadas pela internet não são só uma maneira de interagir a nível global, são também uma miragem do que é possível, em termos da participação de todos, que é necessária para eliminar as desigualdades no mundo. Foi esta miragem que produziu as revoltas no Médio Oriente e no Norte de África e, atrever-me-ia a dizer, as manifestações popularres, em todos os países ocidentais onde as políticas nacionais estão podres.

O que sinto é que estas últimas têm decorrido sem objectivos concretos porque falharam em identificar que o instrumento que possibilitou a sua consciência de que as coisas não estão bem, pode vir a ser o veículo da Democracia do futuro.Um dia, toda a informação, sobre todas as coisas do mundo, vai estar disponível para todos; os sistemas de Governo vão ter que reflectir esse facto. Se há uma coisa que o caso Wikileaks nos mostrou é que já não há segredos; se há uma coisa que a revolução no Egipto nos mostrou é que as pessoas, para se organizarem, basta estarem em contacto. Não era concebível que o nosso mundo continuasse o mesmo depois do advento da Internet, agora, está na hora de os poderes públicos se adaptarem a esta verdadeira revolução da Humanidade.

Está talvez na hora de caminharmos todos para uma existência mais simples, em que a Ciência e o Desenvolvimento Tecnológico sejam usados para o objectivo de todos termos vidas mais felizes. Como dizia o Sayyub, que até é muçulmano e eu não deixo de concordar com ele por isso: "Para sermos felizes, só queremos poder sustentar as nossas famílias, ter algum tempo para passar com elas e com os amigos, e viver em paz". Para que isso seja possível é necessário que os governos do mundo, (salvo honradas excepções), deixem de governar para a manutenção das castas poderosas e passem a governar para todos.

(Este autor recusa-se a obedecer ao Acordo Ortográfico, que, aliás, considera um enorme disparate.)

Pedro Estadão, Nottingham, 19 de Março de 2011

P.S.- Não estive na Avenida da Liberdade no dia 12, mas estive solidário.

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