Encontrar os culpados não resolve os problemas!Por Nuno Banza
Barreiro

Por Jornal Rostos
A precipitação de eleições que se verificou na quarta-feira, apelidada particularmente pelo PS de decisão irreflectida e irresponsável, tomada pela oposição aconteceu, objectivamente, porque o Primeiro-Ministro se demitiu! Ninguém o obrigou! Ele fixou sozinho as condições em que o faria, quis demitir-se e demitiu-se! Afinal hoje ficámos a saber que as medidas que foram chumbadas na Assembleia da República já estão aprovadas em Bruxelas e não podem ser mudadas. Quase que se poderia dizer que afinal não havia necessidade! Mas isso agora já não importa!
O Partido Socialista tem procurado fazer tudo o que está ao seu alcance para não ficar com as culpas, atirando para o PSD a responsabilidade de ter provocado a sua demissão, por não ter cumprido as condições que o próprio Primeiro-Ministro definiu para se manter em funções. Confesso que isto me fez lembrar as brigas das crianças, em que o dono da bola se vai embora para casa com a bola, quando não o deixam ganhar! Mas é demasiado sério para ser visto como uma brincadeira de criança!
O que está para mim em causa, ao contrário do esforço que o PS tem vindo a fazer, não é se a oposição ou em particular o PSD foram ou não culpados de o Primeiro-Ministro se demitir. Porque o que Portugal precisa não é de ter um Primeiro-Ministro, é de conseguir ter as suas contas organizadas, de conseguir fazer crescer a sua economia e gerar rendimentos capazes de permitir ao país pagar as suas dívidas e garantir qualidade de vida aos seus habitantes. É para isto que precisamos de um Primeiro-Ministro e de Ministros e de Governo!
Ora aqui é que a porca torce o rabo! É que este Primeiro-Ministro, que o foi durante um mandato completo e mais metade de outro – 6 anos – não foi capaz de, durante um mandato e meio, reduzir as dívidas do estado e travar o aumento galopante da despesa pública. Se estão recordados, António Guterres saiu do Governo queixando-se do pântano em que se encontrava o país e demonstrando a sua manifesta falta de capacidade de inverter esta situação. As medidas que o Governo seguinte tomou, pela mão da Dr.ª Ferreira Leite, no sentido de limitar o endividamento das autarquias e empresas públicas, a reforma da máquina fiscal e de muitas outras despesas supérfluas do Estado, geraram uma contestação feroz por parte dos sectores mais radicais do espectro político português. O Dr. Jorge Sampaio decide acabar com aquilo a que chamou de “confusão política” e 6 anos após um novo governo PS, estamos outra vez, agora num tom mais grave, a gritar por ajuda externa face aos juros inaceitáveis a que estamos a comprar o dinheiro. Isto mostra que o que está à deriva é o país, não a oposição! E embora sabendo que os responsáveis têm nome e face, por muitas voltas que possamos dar, o que precisa de solução é o país!
Já por diversas vezes tive aqui oportunidade de dizer que não acredito em partidos radicais nem em partidos que não usam em si mesmo regras democráticas - se não as usam para si, nunca serão capazes de verdadeiramente as adoptar em todas as suas dimensões na governação da "coisa pública" - e acredito verdadeiramente numa cultura de mérito e reconhecimento individual, por isso não posso aceitar a diluição do individual no colectivo, nem acredito que a sociedade um dia se tornará socialista – a natureza ensinou-me que o equilíbrio faz-se da diversidade e não do unanimismo!
Do ponto de vista ideológico - patamar em que eu acho que se deve fazer esta discussão - sou verdadeiramente social-democrata e defendo uma sociedade justa e solidária, mas que reconheça e premeie o mérito e seja justo com quem tem um pior desempenho. Acredito e defendo a solidariedade para com as pessoas em desvantagem e inter-geracional! Porém, o nível da discussão que se estimula sempre é o nível imediatista e pouco elaborado, de separação entre bons e maus e sempre à procura de encontrar os erros nos outros, para se ser simplesmente menos mau que os piores em vez de se trabalhar para ser melhor que os melhores!
Procura-se sempre encontrar os culpados e com isso pensa-se que os problemas se resolvem, mas a verdade é que são duas coisas completamente diferentes e têm importâncias muito distintas. Confundir os culpados com as soluções é um erro histórico. A igreja fez isso durante anos e queimou as bruxas para exorcizar os pecados, simplesmente porque não conseguia nem sabia como resolver os problemas! E por muitas bruxas que tenha queimado, a verdade é que nunca encontrou aí qualquer solução!
Mais do que discutir simplesmente se os próximos são melhores ou piores que os anteriores, o que verdadeiramente precisamos é de ter alguém em quem confiar e saber o que pensa sobre o que temos de fazer para resolver os problemas que estão à nossa frente! É para este peditório que devemos dar.
Muitos andam agora a “espalhar a palavra” de que um “fim do mundo” está para vir e que os responsáveis têm de ser punidos para evitar o castigo! Mas alguém hoje tem dúvidas de que estamos já a cumprir o castigo? Por favor não nos tomem por parvos!
Proponho que nos devemos centrar no que é importante – procurar soluções! É nesta estratégia que devemos gastar todas as nossas energias! O desafio é difícil - ser justo e solidário, estimular o crescimento económico e a criação de emprego qualificado e bem remunerado, ser atento às minorias e proteger as pessoas em desvantagem, pois são os que mais sofrem em momentos de maiores dificuldades! Somos capazes de nos bater por caminhos melhores e temos de o fazer.
Há 20 anos, uma forte pressão política trouxe para o Distrito de Setúbal um “cluster” de tecnologia de ponta, que é hoje um pilar económico e social insubstituível e que é responsável por garantir uma qualidade de vida preciosa aos seus habitantes – estou obviamente a falar da Ford/Volkswagen – hoje AutoEuropa! Foi uma resposta fundamental à crise de desindustrialização que o Distrito atravessava e representou o enterrar das bandeiras negras da Fome que grassava por muitos lares. Representa hoje um peso determinante no Produto Interno Bruto (PIB) português e na nossa balança de exportações! Não teve repetição! Nestes 20 anos o poder político não foi capaz de promover nenhuma outra decisão como esta.
Está aqui um excelente exemplo de como a acção política, quando orientada no sentido certo, pode ser geradora de soluções! Eu não tenho dúvida de que somos capazes de voltar a investir numa estratégia política que se esforce por promover decisões que contribuam para a melhoria da nossa economia e com isso, a melhoria das condições de vida dos nossos habitantes! Nada disto se consegue encontrando culpados, apenas trabalhando para encontrar soluções!
Foi isto que este Primeiro-Ministro não foi capaz de fazer! É isto que eu espero dos próximos governantes!
Nuno Banza













