O Romance “O Rapaz dos Olhos Azuis”Por Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Vou tentar abordar o romance em epígrafe – (Joanne Harris. Alfragide, ASA II 1.ª ed., 2010, [431+1p.].
A obra começa com(o) numa narrativa tradicional: “Era uma vez uma viúva que tinha três filhos que se chamavam Preto, Castanho e Azul. Preto era o mais velho, mal-humorado e agressivo. Castanho era o do meio, tímido e desinteressante. Mas Azul era o preferido da mãe. E um assassino.” [p.9].
“A cor do crime é azul, pensa ele. Azul de gelo, azul de cortina de fumo, azul de ulceração pelo frio, de autópsias, de sacos mortuários.” (p.11). Isto na altura da morte, num estranho acidente de viação, do irmão que lhe restava.
“O meu irmão estava morto há menos de um minuto quando a notícia chegou ao meu WJ (…).
(…) Eu e o Nigel detestávamo-nos desde o dia em que nascemos (…). Reconheçam-me alguma delicadeza. E a minha mãe deve estar desgostosa, claro, apesar de ele não ser o favorito dela. Outrora mãe de três filhos, hoje só lhe resta um. Este vosso criado blueeyedboy, agora praticamente sozinho no mundo… (p.15).
Quando os agentes da polícia vão à casa da família dar a notícia, o comportamento, dissimulado de Azul, é idêntico ao que percorre o romance quase até ao final: “Contei os segundos na minha cabeça, ao mesmo tempo que reproduzia mentalmente a introdução da guitarra de Mark Knopfler em ‘Brothers in Arms’. (…). “Mas a música torna as coisas mais fáceis, atenuando reacções emocionais inadequadas e permitindo-me funcionar, se não de modo inteiramente normal, pelo menos como os outros esperam de mim.” (p.16).
“Tratem-me por B.B. Toda a gente me trata assim. Ninguém, excepto a polícia e o banco, usa o meu nome verdadeiro. Tenho quarenta e dois anos e um metro e setenta de altura; tenho cabelo acastanhado, olhos azuis e vivi toda a vida aqui, em Malbry.
Malbry-pronunciado mobri.” (p.23).
E, palavras contínuas, a perspectiva negativa como encara boa parte das pessoas, das coisas, da vida, neste caso, da sua terra: “Até a palavra cheira a merda.” (Ibidem).
Malbry, terra pequena, como todas, maiores e menores: uma parte dela, para gente menos abastada, onde está esta família da classe popular: a mãe e dois dos três filhos que deu à luz – abandonada pelo marido, bêbedo e parasita, durante a última gravidez, eventualmente de outro homem.
A mulher esforçava-se, em árduos trabalhos domésticos, em casa, a passar a ferro para algumas pessoas que moravam mais longe, em melhores locais, bem como em várias outras habitações, em tarefas diversas.
Às vezes o mais novo, o nosso anti-herói, acompanhava-a: “ – Olha para isto, Ben (…). – Hás-de ser assim dentro de alguns anos. Hás-de ser assim, na escola grande, a encher-me de orgulho…
Como tantas das expressões de ternura a minha mãe, soava arrepiantemente como uma ameaça.” (p.73).
Posteriormente, a mulher também fazia venda de fruta no mercado loca (p.241), para tentar melhorar as condições materiais dos filhos a quem não permitia o mais pequeno deslize, agredindo-os, brutalmente sempre que a irritavam – até aos traumatismos, físicos e psíquicos, até ao ódio, até quase à loucura.
Que, quando via Azul indisposto e doente, lhe dava a beber, desde criança, uma mistela, inesquecível, sobretudo nas sinestesias ligadas à cor verde e à parte “olfactiva-gustativa adquirida” (p.224), segundo o Dr. Peacock, figura abaixo citada, que lhe chegariam, de forma medonha, à fragilidade, ao mal-estar, às enxaquecas, à febre, à doença.
As técnicas informáticas, como se parte da narrativa figurasse numa rede social que Azul / B.B. usa, prazenteiramente, são um encaixe perfeito e parte da trama romanesca; dão-lhe uma certa admiração e respeitabilidade: tem eco, habitualmente interessante.
Há gente que deixa comentários de que o protagonista quase sempre gosta e mantém – “ClairDELune: adorei, blueeyedboy, acho que devias escrever mais a fundo sobre a tua relação com a tua mãe e a maneira como te afectou. Não acredito que ninguém nasça mau. Simplesmente fazemos más escolhas, mais nada. Aguardo ansiosamente o próximo capítulo!” (p.13).
E alguém que o irrita, de quem os apaga, nervosa, sucessiva e obsessivamente, sem que dessa personagem uma palavra quase nos chegue: Jenny Trickcs. Em relação a ela, seja o “Nível de Privacidade” “público”, “restrito” ou “privado”, retira-lhe a maioria dos comentários. Depois de o ter feito três vezes seguidas, acabará por comunicar com ela: “És muito persistente, Jenny Tricks. Diz-me… eu conheço-te?” (p.69).
Ou: “Despejar uma dúzia de Jenny Tricks. Nada do que digas me afecta. Embora admita que sinto curiosidade. Diz-me, conhecemo-nos de algum lado? (p. 133).
Azul via tudo e todos através da sinestesia a que terá sido induzido, desde criança, pela mãe e o Dr. Peacock, figura estranha da terra, já reformado, antigo Director da melhor escola da terra, St. Oswald, que o estudava e o recebia na Mansão (p.149), a sua Casa da Lareira (p.225) – a temática referida era observada através de algumas crianças.
Azul, o Rapaz X nas investigações daquele, foi-lhe entregue pela mãe, na esperança, de, através do extravagante homem e dos seus conhecimentos, intelectuais e pessoais, o herdeiro mais novo poder aceder ao citado estabelecimento de ensino, aonde chegou, com dificuldade, numa passagem difícil e conturbada, e num óbvio fracasso.
O que exterioriza, nesse fatídico dia 28 de Janeiro, na narrativa principal, confunde o destinatário, o que fará sempre: “Seja como for, valeu a pena. Vê-lo morto; livrar-me do sacana de uma vez por todas…
Tudo isto é ficção, compreendem? Nunca assassinei ninguém.” (p.18). E, em continuação: “Sei que nos mandam escrever sobre aquilo que conhecemos, como se conhecer fosse o essencial quando o essencial é o desejo. Mas desejar que o meu irmão estivesse morto não é o mesmo que cometer um crime. A culpa não é minha se o universo segue o meu webjournal. E assim a vida continua – para a maioria de nós – praticamente igual ao que sempre foi e o blueeyedboy dorme o sono dos justos – se bem que não seja exactamente o dos inocentes.” (Ibidem).
Que pensará / sentirá o leitor ao verificar não haver qualquer remorso pelo desaparecimento trágico do irmão por ele provocado? No webjournal, às “18.04 de segunda-feira, 28 de Janeiro”, enquanto ouve música, dirá apenas: “Sinto-me: apático”. (p19).
As mentiras de Azul à progenitora sucedem-se: desde a frequência do Instituto Politécnico local, depois Universidade, onde segundo lhe diz, frequenta Medicina,
tudo lhe descreve com lentes de aumentar para ela o louvar junto das conhecidas.
Quando fica desempregado, sai e entra em casa nas horas adequadas à actividade profissional perdida, uma humilde tarefa hospitalar que também exacerbava: “A partir de agora, disponho de mais tempo e de muito menos hipóteses de ser apanhado em flagrante. A minha rotina diária não se alterou. (…). Depois das quatro, dou muitas vezes um salto ao café Pink Zebra onde as possibilidades de esbarrar com a minha mãe ou as amigas são mínimas (…) (p.60). A mãe, essa mãe brutal que, paradoxalmente, detesta e sem a qual não pode estar, numa relação, terrivelmente simbiótica, que será, certamente, a raiz de tanta bestialidade.
“O Pink Zebra é demasiado informal para o meu gosto, (…)” (p.61).). Mas ela gosta dele. Tinha de gostar. A rapariga do anoraque vermelho-vivo. Que B.B. segue e persegue, convencido de que ela, em meio tão pequeno, o desconhece. Como se ele fora o Lobo atrás de Capuchinho. “Está na hora de ir espreitar a Albertine. (Tem um ar muito inocente, não tem, com o seu casaco vermelho e o seu cesto?” (p.74).
Era a mulher que vivera com o irmão, recém-falecido, actante cuja personalidade podemos apreciar neste excerto. “Chorei com uma madalena quando o meu pai morreu. Choro com filmes maus. Choro com canções tristes. Choro com cães mortos e anúncios na televisão e dias de chuva e segundas-feiras. Por isso – porque não chorar pelo Nigel?” (p.110).
Ou: “Sim, fui egoísta. Sim, procedi mal. Mesmo desde o princípio que soube que o Nigel pertencia a outra pessoa. Alguém que nunca existiu. Mas ao fim de anos a fugir, uma parte de mim queria ser essa rapariga; (pp.157-8). Albertine era, de facto, um “Capuchinho”, adulto e bem especial.
Voltemos ao Rapaz dos Olhos Azuis: “Tento arranjar uma mesa por perto. Bebo Earl Grey sem limão nem leite.” (p.61).
(Peacock já passou na sua vida há bastantes anos e também foi mentor de uma menina, esperada vários anos pelos pais e cujo nascimento, para além de muita alegria, bem os afligiu porque nasceu cega.
Tal como Azul, Emily White tinha na sinestesia o ponto comum entre ambos. Era filha de uma artista plástica e de um professor de Música de St. Oswald. Bem diferente dele, igualmente em outros contextos, era uma intérprete musical exímia e pintora. A fama da criança chegou à Comunicação Social e foi objecto e sujeito de estudo de investigadores.
Desfeita num abrir e fechar de olhos, de acordo com calúnias a que foram dados ouvidos, obviamente inventadas por “B.B” (p. 248)): “Tudo isso começou comigo (…), cresceu e deu fruto e o fruto foi colhido.” (p.250). O fruto da maldade e do rancor contra quem brilhava e se esforçava. Contra quem era dado amor.
Pobre menina-prodígio: cada vez fisicamente mais perto, em casa dela e na Mansão, que lhe teria feito o extravagante estudioso de inconfessável? “ [Emily] Vai para casa com os bolsos a abarrotar de rebuçados. O Dr. Peacock bate todas as noites as suas conclusões a uma máquina de escrever com uma voz à Pato Donald.(…); ela perde-se sob a sua carícia trémula e nem todos os perfumes do Oriente a podem salvar.” (p.222)
Pobre criança, vítima de morte brutal, provocada pela mãe, passado o mito da filha excepcional, observada por Emily logo após falecer: “Catherine White encheu uma banheira de água, na qual afogou Emily, então com nove anos, antes de ela própria se meter lá dentro e tomar um frasco de comprimidos para dormir.” – p. 376 –.)
Regressemos a blueeyedboy: as mortes ou acidentes graves provocados por ele ficam por explicar pela polícia, que, sem provas, não pode prendê-lo.
“Gostaria que a morte dela fosse, de algum modo, simbólica – electrocussão, talvez, causada por um aspirador defeituoso ou um dos vibradores que tem no armário da casa de banho (…) o terceiro de um púrpura perturbante, entre os frascos de loções e comprimidos.” (p.56).
Deixará tudo preparado para um grave acidente que roubará vida à mulher. Dará convincente explicação aos agentes da autoridade acerca de umas reparações na casa dela: refere que verificou “que todos os aparelhos (…) eram um acidente em potência (…) (p.57).
Na verdade, acha-os ridículos. A sua culpa, pensa ele, devia ser-lhes evidente mas não é; sentam-se no sofá e toma o chá da mãe e falam com ele cheios de simpatia (…). (Ibidem.)
“O seu objectivo é unicamente não ser apanhado. Tem de ser um acidente.
(…) Ele pensa como um assassino. Sente o seu esplendor no coração. Nunca faria mal a alguém que já não merecesse morrer. (…) Um parasita a menos no mundo, transformando-o num lugar melhor.” (p.33).
Um Édipo não resolvido, o terror da mãe, num homem-criança, feito um monstro humano, se as circunstâncias lho propiciam e, ou, ele as provoca.
“ – Quem está aí? – pergunta ela.
– Ninguém, mamã.
– (…)
Mamã. O som que um bebé faz, o som da doença, de estar na cama, um som ténue, leitoso, indefeso, que lhe dá vontade de gritar.
– Então anda para baixo. São horas da tua bebida.”
A péssima e humilhante bebida. Como se continuasse um menino pequeno. A enfurecê-lo ainda mais: A levá-lo a uma associação: “Morte. Mãe. Palavras tão semelhantes. Matriarca, Matricida.” (p.34).
Afirma Francis Lacassin: “Avec l’entrée en scène de Sherlock Holmes, s’est levé sur le sinistre empire du crime le matin des logiciens.” “Mythologie du Roman Policier”; tome I, p 105.) B.B. está nos antípodas do seu celebérrimo compatriota ficcional.
Muito mais haveria para dizer; fica para o destinatário / leitor ler, julgar e emocionar-se. Até ao fim da narrativa.
Referências
http://bau-dos-livros.blogspot.com/2011/01/o-rapaz-dos-olhos-azuis-joanne-harris.html
Publicada por Ana Luisa Alves em 04:16 (sic).
Francis Lacassin, “Mythologie du Roman Policier”, tome I, Paris, 10/18, n.º 867, 1974, 320 pp.
Joanne Harris, “O Rapaz dos Olhos Azuis” (obra referida no título e nas linhas 1-2 deste texto).
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













