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Colunistas

Os Parentes da ArgentinaPor Manuela Fonseca
Barreiro

Moveu-se a Lua, aqueceu o Sol, nadei no Clube Naval, saltei de perigosas poldras para riachos do interior, não menos medonhos, nadei nas correntes da Ilha da Madeira, no sossego do Mar Negro, onde me enchi de lama, à beira-mar, na Roménia, convencida do bem que, em pedacinhos de três dias, me faria aos ossos…

6 min de leitura
Os Parentes da Argentina Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

Ouvi, há muitos anos – suponho que no dia do meu casamento – o poeta e pintor Joaquim Pessoa, padrinho do Manuel, que há uma parte da família que escolhemos – referia-se, especificamente, à relação com este afilhado.

O que me leva aos Dr.s Maria João e José Luís Gomes, a cujo elemento feminino dizia, em criança – amiga e vizinha a três portas de distância, depois colega de Escola Primária (sossegada, a João, tal com a minha prima Maria José Horta, nunca levou, no primeiro grau de ensino, reguadas, ao contrário de mim, a resposta na ponta da língua às deselegâncias da professora, que, tantas décadas depois, ainda me ferem), de Liceu e Universidade.
E dizia-lhe:

– Se me casar, és a madrinha. O que for teu namorado ou marido, se o achar simpático, o padrinho. O tempo seguiu e a relação deles chegou na frequência do Superior; eles, estudantes de Medicina, eu e o interesse, entre muitos outros, por Barthes, sempre consultado – ainda há minutos –, em Filologia Românica, na Faculdade de Letras.

Amante de teatro, no sentido Lorquiano que ficou na minha vida para sempre, às vezes via o Manuel no Clube 22 de Novembro, no Teatro de Ensaio do Barreiro, tão longe de supor que, um dia, seriámos casal como em chegar a Marte (para cuja primeira viagem, segundo li, alguém do ramo, certamente caduco, não quer senhoras!).
Como gostava das suas várias interpretações, em diversas peças naquela voz de barítono (décadas depois trabalhadas no CORUTIB) nas palavras – ditas – de Alves Redol, Romeu Correia, Luís de Sttau Monteiro e outros!

Moveu-se a Lua, aqueceu o Sol, nadei no Clube Naval, saltei de perigosas poldras para riachos do interior, não menos medonhos, nadei nas correntes da Ilha da Madeira, no sossego do Mar Negro, onde me enchi de lama, à beira-mar, na Roménia, convencida do bem que, em pedacinhos de três dias, me faria aos ossos…
E fui a outras terras para além de Portugal, com realce para a França, tantos defeitos e tantas qualidades – num dos cursos de Língua e Civilização lá frequentados, assisti, na televisão, à última vez em que o Grande Agostinho foi terceiro no “Tour”. 1979.

E sempre o regresso a Albufeira, essa amada terra e praia, ligada à minha infância, a todo um percurso de vida, ao interesse pela História e pela Arte, parte, também, dos meus filhos – a quem contagiei –, idolatrada por gente Horta Rodrigues.
Uma prima lá ficará, sei onde, no dia da viagem última.

Continuei a trabalhar; acabei, Deus sabe com que sacrifício, a licenciatura. Ou seja, quanto tempo passou! Iniciei, entretanto, o estágio no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho.

Inesperadamente, no emblemático Cinema “Quarteto” – tinha acabado a preparação das aulas do dia seguinte e fui ver “Os Homens do Presidente” nesse fim de tarde –, encontrei o actor Barreirense que, amador, era tão bom – na colocação de voz, no código gestual, nas marcações, na postura – como muitos profissionais cuja carreira acompanhava. Algumas palavras trocadas (somos ambos uns tímidos), depois uns telefonemas e idas a Museus, umas férias, divertidíssimas, com pouco dinheiro, na Costa da Caparica e, no início desse Inverno, o casamento.

Um dia, eram o Rui Sérgio e o Filipe Manuel miúdos, chegou um casal da Argentina, ela, Felicíssima da Glória Espalha, irmã da minha saudosa sogra, ele, António Franco, pessoas já com uma certa idade e que cá não voltavam há muito.
A simpatia de ambas contagiou-me logo.

O espírito folgazão do elemento feminino, a alegria contagiante, as palavras em torrente, o tranquilo matar saudades do marido tornaram-nos, logo, empáticos e fiquei com pena de o filho único, da minha idade, não os ter acompanhado (só viera a Portugal uma única vez, bastante jovem).
Passados uns dois meses, lá regressaram ao País que também lhes pertencia e onde, com trabalho e mais trabalho, tinham encontrado uma vida digna.

Mantivemos o contacto através de cartas e telefonemas. E Felicíssima ainda voltou e acompanhou-nos, durante uns dias, nas férias, em Tróia, desgostosa com o desaparecimento do seu António mas com o inteligente cuidado do comedimento emocional.
E ficámos de um dia ir ter com ela.

Adoeci, melhorei e, nessa altura, o Manuel e eu tratámos dos passaportes – ainda hoje não caducados – e, pouco depois, voltei a não ter condições de ir. Enquanto estive na fase mais crítica, os telefonemas não pararam, ente Trelew, na longínqua Patagónia, e a minha casa, agora feitos, normalmente, pela nora, Liliana, estudiosa de Português, em nome de todos.

Com a minha situação mais estável, o filho mais novo, sempre um sorriso a atender os clientes, no local de trabalho, e a ajudá-los na escolha de bons roteiros turísticos, disse-nos, há dois meses:

– Vou ter férias. Podemos sair duas semanas? Matar saudades da tia, conhecer os primos e ver um bocado da Argentina? Vocês pensam nisso há um bom par de anos e eu, agora, também.

Que fossem eles, que ainda era violento eu andar tantos quilómetros, que o Rui e a senhora que colabora comigo, D. Alice Ramião, me fariam companhia. Renitentes, a princípio, lá se decidiram.
Quase todos os dias tínhamos notícias, telefónicas e via Internet – as saudades eram atenuadas, os passeios deles pareciam meus / nossos.

Duas semanas depois, a narrativa da bela ida foi-me feita, aqui em casa, pelo Manuel, tão bem que eu já referia os locais por onde tinham passado com se lá estivera.

E agora a prima Liliana Calvetti enviou-nos o DVD dos locais por onde andaram: sentada no sofá, a olhar para a televisão, subi, de autocarro de Buenos Aires a Trelew, província de Chubut, para melhor conhecer a paisagem, passeei pela Patagónia. Em Punta Tombo, Península de Valdéz, na já referida região, vi os engraçados pinguins entrarem nas grutas que fazem, cada uma apenas pertencente a cada família, sem enganos ou hesitações.
Como achei interessante a mudança de penas com que a Natureza os dotou e o escrupuloso cuidado dos visitantes na preservação do ambiente!
E, na Cordilheira dos Andes, Bariloche, El Bolsón e o Lago Nahuel Huapi de que tanto o meu marido me tem falado.
E, também lá, na Ilha Vitória, na Reserva Natural que fica na Província de Neuquén, observei essas velhas árvores, “arrayanes”, cuidadosamente preservadas, numa cor dos troncos que imaginei animizados, na evocação da beleza das pessoas índias. Árvores agora também nos meus olhos. E sentimentos.

Obrigada, prima Liliana; pode ser que ainda sejas minha guia por essas paragens argentinas.


Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos


Referências

1 – Fotos de Liliana Calvetti

2 – Agradecimentos a
Liliana Calveti e Manuel Alpalhão

Fotos das tais árvores...














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