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Um cabelinho na sopa!Por Jorge Fagundes
Barreiro

"Tens razão. Andamos sempre a tentar bater recordes mundiais, mas há um que, por enquanto esquecido, ao qual deveríamos concorrer".
"Qual?".
"O do país com mais economistas por metro quadrado. Julgo que dessa fartura ainda há-de sair, mais ano, menos ano, o terceiro prémio Nobel português!"

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Um cabelinho na sopa! Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Esta manhã, embora soprasse um pouco de vento, fui dar o meu habitual passeio ao longo da Avenida da Praia.
Depois, atravessando o cada vez mais decrépito Barreiro Velho, fui até ao Parque - mas que saudades dos tempos da meninice e da juventude em que aquela zona era como que um oásis deste Barreiro- e depois fui sentar-me numa das esplanadas junto ao Mercado 1º. de Maio.
À mesa, claro, do meu amigo da Escola Alfredo da Silva.
"Ainda bem que apareceste. Estou aqui às voltas com um problema linguístico e gostava de saber a tua opinião".
"Então, do que se trata?"
"Quando andávamos na Alfredo da Silva, o meu avô, que tinha então a nossa idade actual, era chamado de velho.
Em tempos mais recentes, volta não volta, um cavalheiro da nossa idade é apanhado a conduzir em contra-mão numa auto estrada".
"É verdade. Mas qual o problema?"
"É que os órgãos de informação não lhe chamam velho, mas sim idoso!"
"E isso preocupa-te?"
"Um bocadinho. Há dias, sendo sócio do Inatel, quis saber se havia algum evento para rapazes da minha idade. E, por descuido, acrescentei: para velhos. A menina que me atendeu, felizmente ao telefone, interpelou-me com certa rudeza".
"Como assim?"
"Velhos, meu caro senhor, são os trapos, e o senhor, com essa idade, não é velho, é sénior".
"Aí tens a riqueza da língua portuguesa. E o que tens feito?"
"O trivial. Passear, ler, e preocupar-me com o futuro, mais dos meus filhos e netos, já que eu, como velho, idoso e sénior, palpita-me que vou aguentar os tempos que me restam".
"Mas as nossas pensões não são lá grande coisa, comparadas com as daqueles figurões que passam a vida a dar palpites e zero soluções para a palavra da moda: a crise".
"Tens razão. Andamos sempre a tentar bater recordes mundiais, mas há um que, por enquanto esquecido, ao qual deveríamos concorrer".
"Qual?".
"O do país com mais economistas por metro quadrado. Julgo que dessa fartura ainda há-de sair, mais ano, menos ano, o terceiro prémio Nobel português!"
"Essa é bem apanhada. Mas agora reparo que está na hora do almoço. Queres vir comigo almoçar a um dos nossos restaurantes?"
"Está bem. Até dá para conversarmos um pouco mais".
E assim nos deslocámos a um restaurante da nossa cidade.
Escolhemos a ementa e, hábito que nos vem da infância, começámos por uma sopa.
Veio a terrina, a sopa tinha bom aspecto, mas...
Como se fosse um banhista flutuando de costas, a toda a largura da terrina, era bem visível um cabelo negro e muito bem enroladinho, quase um caracol.
Chamado o empregado, e vendo que não nos tinhamos servido da sopa, perguntou: "há algum problema? Está fria?"
"Há problema sim, há problema" respondemos a duas vozes.
"Mas qual, não noto nada!"
"Veja bem que a sopa deveria ter passado, antes de vir para a mesa, por uma cabeleireira, a fim de ser dado um retoque no caracolinho da superfície".
"Então é só isso, meus senhores! Não se zanguem comigo, mas só dois velhos como vocelências, é que dão valor a um pormenor tão insignificante. Num país à rasca, sem cheta, sem empregos, etc. e tal, todos esses enormes e importantissimos problemas não vos preocupam? Mas um simples cabelinho na sopa, que na minha aldeia até tem outro nome (talvez por pudor, baixou a voz e disse-nos) já é um drama! Vou trazer-vos outra".
Embora com as faces avermelhadas pela vergonha passada, mas, vá lá, satisfeitos por termos reassumido a posição de velhos, à cautela, desistimos da sopa!

Jorge Fagundes

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