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Colunistas

“O Baile 2”Por Manuela Fonseca
Barreiro

Como se a Arte tivesse passado para a realidade, triste, que muitos de nós ainda sentem como ferrete.
Breve, o recomeço, situado, temporalmente, em mil e novecentos e setenta e um.

O que se passa no estrado continua a doer-nos com o que vemos, ouvimos, sentimos.
Para mim (para todos?), os pontos mais altos da bestialidade terão sido a despedida de um dos rapazes para a Guerra Colonial, o assassínio por bandidos da PIDE de um adversário da ditadura, frequentador do baile.

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“O Baile 2” Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

(À Isabel e Hermínia Caeiro. Ao Mário)

Quem me diria, quando, há quase três décadas, tive o prazer de ver “O Baile”, o extraordinário filme de Ettore Scola, notável realizador italiano, e me deslumbrei com a vida ali figurada, feita por gestos, danças e sem palavras, numa sala de baile, uma mostra da alma da França de várias décadas do século passado, que, tanto tempo depois, sentiria, na Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense, “Os Penicheiros”, a mesma estupefacção e excelente disposição perante o espectáculo apresentado por seniores da nossa Cidade?

Desta vez de ordem teatral, em “O Baile 2”, numa “Direcção / Encenação / Luz Som – Luciano Barata”, sigo o Programa, “Música – Vários autores”, “Cartaz – João Pires” [página 3] e “Intérpretes” [página 2] da responsabilidade da UTIB – Teatro, ramo da área artística da Universidade da Terceira Idade do Barreiro –, uns e outros com notável e inesquecível trabalho, no qual a idade sénior da maioria dos que pisam o palco nunca é lembrada.

Tal o fulgor com que se aperaltam, convivem, dançam, num labor, inesquecível, de quase três horas de elevação para eles e quem os vê que, de tão perto fisicamente, quase se imagina “do outro lado”.
Tal o fôlego com que os técnicos os acompanham, em todos os pormenores. Ou os dirigem.

Respigo, ainda, um excerto da sinopse:

“Um salão de baile. As mulheres vão chegando uma a uma. Os homens também. (…) O Baile é um olhar sobre a História, ou seja, a História que viaja no tempo.” [página 3].

Portugal ali metaforizado, numa sala com tanta História de Resistência e onde o palco também foi espectador: uma bela imagem reproduz um quadro do saudoso Mestre Belmiro Ferreira, no pano de fundo do SIRB: o retrato da sua fachada.

O cenário, simples, de algumas mesas, cadeiras como adereços mais notados, em dois segmentos de círculo, um de cada lado do estrado da actuação principal, – que, assim, nos trazem os actores, mesmo à nossa frente, transformados em personagens planas.
Quase sempre acompanhada de música.

A primeira parte vai de mil e novecentos e sessenta e quatro a sessenta e oito e a segunda, mais rápida, de mil novecentos e setenta e um às alegrias do 25 de Abril.

O “barman” é o primeiro a aparecer – pelos gestos se vê que conhece o psiquismo das jovens que se sentam, algumas acompanhadas das mães, e dos que chegam para ir buscá-las.

A rádio é uma informação – refere a morte do antigo Presidente da República, Craveiro Lopes – cuja saída do alto cargo, acrescento, ainda hoje não tem contornos bem definidos, excepto, com certeza, para os estudiosos de tal assunto – e uma obsessão através da funções expressiva e poética da linguagem, nos anúncios que fazem nascer nas mulheres o desejo de possuir certos produtos de beleza que as farão mais emancipadas e felizes.

(Como me lembro que comecei, na adolescência, a utilizar um creme, no rosto e no corpo, por causa da influência radiofónica!)

O baile com progenitoras que são guardiãs das filhas, que impedem os avanços de algum (mais) atrevido – o cúmulo é a interrupção de danças por tais senhoras que pode chegar à agressão.

E a História passa, nas músicas estrangeiras que o “barman” coloca, como uma canção de Jacques Brel ou uma tarantela, interrompida pelos nojentos da PIDE que arrastam para a “ramona”, o terrível carro que levava os presos, alguns dos intervenientes.
Não podia estar-se em grupo, não podia haver “ajuntamentos” nos tempos ditatoriais, não podia cheirar a povo e às suas formas de expressão, esta vinda da tradição napolitana.

São lembrados os “Serões para Trabalhadores” da Emissora Nacional.
“Emissora Governamental” era, então, dito entre os oposicionistas mais afoitos, um dos quais ilustre professor e modelo que tive, Dr. Hélder Fráguas, escolhido pelos seus pares da Comissão Administrativa da nossa Câmara Municipal para Coordenador da mesma e Presidente da Câmara, logo após o 25 de Abril, entre a saída do anterior autarca com esta função e as primeiras Eleições Livres.

Tais “serões” lançaram, apesar da marca autoritária e censória do regime, muitos cantores e músicos, entre os quais Maria de Fátima Bravo, com a canção “Vocês sabem lá!” que fez furor e é evocada.
(A intérprete, lembro-me, depressa abandonou os palcos.)

Meninas à procura de marido, naquele rodopio, os homens, mais diversificados na estrutura social.
E o baile continua. Mesmo com o percalço de uma discussão feminina que chega à agressão.
E a Terra gira. Mesmo com o percalço de uma ditadura em Portugal.

E há a eleição da “Miss”, “por acaso” a incidir na filha do Presidente da Câmara.
O indivíduo começa a fazer ofertas à Sociedade, na altura do acto e, claro, só a filha, Menina Almerindinha, pode ganhá-la. Através de batota na contagem.
Confrange, até, ver a pobre rapariga a quem a estupidez fascista obriga a cantar “Os óculos de Sol” sem a mínima aptidão para tal acção.

(Resultado tão viciado como o que fez de Tomás Presidente da República e não o vencedor efectivo, Humberto Delgado, “O General sem Medo”.”)

Intervalo – apanhamos ar, discutimos a excelência de todos os primorosos intervenientes.

Como se a Arte tivesse passado para a realidade, triste, que muitos de nós ainda sentem como ferrete.
Breve, o recomeço, situado, temporalmente, em mil e novecentos e setenta e um.

O que se passa no estrado continua a doer-nos com o que vemos, ouvimos, sentimos.
Para mim (para todos?), os pontos mais altos da bestialidade terão sido a despedida de um dos rapazes para a Guerra Colonial, o assassínio por bandidos da PIDE de um adversário da ditadura, frequentador do baile. Com uma matraca, após a tortura do sono.

Matam um herói, cobardes, porque não abre a boca para denunciar camaradas de actividades antifascistas, no intervalo entre a ida e o regresso do militar, mutilado, perante a aflição de todos, especialmente da mãe.

Mas as canções do baile vão mudar e ele também: “E depois do adeus” antecede “Grândola” e ambas são sinais de Liberdade. Finalmente conquistada. Duramente conquistada.

No “Baile”-Portugal-em-Esperança, canta-se e dança-se “Agora, o povo unido…”, “Corações ao alto”, volta-se ao rodopio da tarantela.
Chega a alegria de roupas dos diferentes estratos populacionais.
E a peça termina. Em fraternidade.

Parabéns, Luciano Barata. Parabéns, UTIB – Teatro. Parabéns, Barreiro.

(Uma ideia: com o que, no momento, se passa em Portugal, em Espanha, em Estados da Alemanha, um pouco por todo o lado, não será melhor criarmos, com os nossos saberes e coragem, “O Baile 3”?)

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Fotos Luciano Barata














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