Então, até daqui a dois anos?Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

Por Jornal Rostos
E pronto! Depois do carrossel estonteante da pré e da campanha, feitos os jogos, os resultados surgem, como já anunciados, sem surpresas de maior. Também eu, que nauseado pela hipocrisia dos discursos dominantes me remeti, neste tempo, a voluntário silêncio encontro-me, agora, livre para a crónica irritante ou o comentário mordaz, armas de quem desarmado procura, a seu modo, influenciar, por pouco que seja, o devir dos acontecimentos, sendo o mais sujeito que puder e não mero objeto arrastado pela corrente de alheias vontades.
Posto este preâmbulo ataquemos o cerne da questão. O PSD, sem surpresa venceu as eleições. O PS (Sócrates), como era por tantos desejado, foi liminarmente despedido. O CDS-PP ficou aquém do desejo mas conseguiu consubstanciar o crescimento ficando numa confortável posição negocial. O PC conservou os seus eleitores e o Bloco, de inocência perdida, parece ter perdido o carisma e afundou-se para metade do seu último resultado. Conclusão: ganha a direita e alinhem-se para novos jogos.
Ao passar os olhos pela imprensa diária de hoje encontrei textos para todos os gostos e feitios mas, quase sem exceção, todos auguravam o nascimento de um novo ciclo longo, marcado pelo claro predomínio da direita. Como não é esta a minha previsão arrisco-me a, tirando um pouco do vosso precioso tempo, aventar uma ideia que me serve de consolo neste momento em que a derrota eleitoral da minha esquerda me dói sem pena nem agravo. Parece-me no entanto não ser tal previsão ditada por falsas paixões nem recalcados desejos de virtuais vinganças.
A primeira interrogação que se me põe é de se não será pagamento excessivo, para a derrota de Sócrates, o avanço da direita. Espantai-vos mortais que eu, com todo o descaramento, declare sonoramente que não! Já estou a ouvir uma legião de consabidos democratas vociferar: lá está ele, no seu esquerdismo serôdio, a alinhar na política do quanto pior melhor. Acreditem-me que não é nada disso.
Ora então escutem lá!
Indiferente a quem ocupe o lugar do governo o programa do dito está de antemão estabelecido. Com prazos e ações obrigatórios e inalteráveis. Todos sabemos, mesmo quando parecemos quer ignorá-lo, que a Troica e os seus representados decidiram qual o único programa de governo para este país e para, pelo menos, os próximos três anos. Tal projeto é um repositório de medidas económicas neoliberais e, inevitavelmente, acarretará o aprofundamento das desigualdades, a fome para muitos e, para a maioria, um doloroso e profundo abaixamento do nível de vida e bem-estar. Se, por infortúnio, o PS ganhasse estas eleições teria de gerir estas medidas, afundando-se irremediavelmente no seio da direita e nas políticas que apenas servem interesses egoístas e mesquinhos defraudadores das aspirações de todos. Para o neoliberalismo a pátria é o lucro e o investidor seu sacerdote. Sócrates estaria bem neste papel. O ideário genético do PS? Creio que não!
Com o PSD no governo bate a bota com a perdigota. Eles são este programa e o programa é eles. Tudo certo no melhor dos mundos até porque a Europa se reflete hoje neste parcos valores e tem, no coração, uma máquina de calcular. Assim, fica tudo em família e ninguém, vão tentar convencer-nos, se magoará. Aí é que a porca torce o rabo. A possível harmonia resultante desta maioria de direita vai defrontar-se com tensões tão grandes que o desgarramento se poderá infiltrar mais forte e precoce que aquilo que, neste momento de recatada euforia, poderá parecer. Assim de chofre, deteto três momentos de tensão que passo a descriminar:
Não dando maioria absoluta ao PSD o povo obriga-o a procurar a coligação com o CDS. Paulo Portas há muito que espera esta ocasião para se fazer valer e conquistar postos de relevo para a sua gente. Já nas negociações para formação do governo se instalarão os primeiros descontentamentos. Com o tempo irão crescendo e agravando-se criando zonas de fricção perigosas nas cartilagens da coligação.
Por sua vez o PSD, há tanto afastado das benesses do poder, correrá avidamente à bica das rendas governamentais e para governamentais. Encontrará porém três obstáculos. A exiguidade de postos (Passos Coelho propõe-se diminuir bastante os postos de poder) agravada pela necessidade de repartição com o parceiro de coligação cujo apetite não é pequeno; as restrições impostas e controladas pelo exterior fixando a exiguidade do maná e, por fim, os custos sociais das ações restritivas a empreender, conduzindo ao empobrecimento alargado, implicando a concomitante insatisfação popular, mais o pesadelo do PS de, ao mesmo tempo que quer ser oposição, ver-se obrigado a pactuar com a direita no cumprimento das dolorosas medidas que também aprovou. Vai ser areia demais para qualquer camioneta e, creio, este conjunto de fatores levará a um desgaste tão acelerado do governo que o melhor será a Comissão Nacional de Eleições não desarmar a tenda e começar, de imediato, a preparar o próximo ato eleitoral.
Acham que estou a ser demasiado pessimista e redutor? Esperem pelos efeitos da recessão económica e depois falamos. Entretanto a esquerda que pense e se repense, analise as formações sociais e desejos das populações do Século XXI, atualize-se e venha fazer aquilo que melhor sabe: defender as populações mais indefesas e sacrificadas, não com miríficos amanhãs nunca chegados, mas com a possível abundância do hoje democraticamente distribuída. Deve, assim, começar a preparar-se já porque eu – reafirmo - ao contrário da maior parte dos nossos comentadores e analistas, arrisco pensar que o desenvolvimento sociopolítico dos próximos tempos seja qualquer coisa não muito diferente de uma tempestade.
Estarei enganado? Então, até daqui a dois anos?
Carlos Alberto Correia













