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Colunistas

O TESFALPor Manuela Fonseca
Barreiro

Portugal onde a pobreza aumenta a cada hora e, em “cada esquina” – ao invés da fraternidade que Zeca Afonso anteviu e cantou, em plena ditadura –, um inimigo para roubar a actividade de outrem, um inimigo – com calúnias e mentiras contra os colegas, lambe-botismo à maioria de um patronato que não tem condições para sê-lo.
Portugal de aparências e aflições que há-de encontrar, tal como outros países da União Europeia, de outras Comunidades e Continentes, o caminho da dignidade: pela força da verdade, inovação; na preparação, dura, para o devir. Pela força do trabalho.)

7 min de leitura
O TESFAL Por Manuela Fonseca Barreiro

Por Jornal Rostos

(Às minhas primas Maria José e Fernanda Horta)

“Uma Casa Portuguesa” e a voz de Amália dão o tom à simplicidade da vida das personagens, no início da peça. Num local, fora dos grandes centros urbanos, a sogra, Alzira, e a nora, Rosinha, afadigam-se e quase se atropelam, entre a sala e a cozinha, comum, à espera de um homem conhecido, com alguns bens materiais, que possa ajudar as duas e os filhos da mais velha, através do casamento da viúva com ele, numa ligação desprovida de qualquer afecto.
Quando Onofre, o pretendente, aparece, qual personagem vicentina, a refeição ainda atrasada, elas percebem o desatino de Ventura, um adolescente, o rapaz mais novo de Alzira (que, em tempos mais solidários, o recolheu do abandono); nas tropelias da idade, o moço bebera o licor comprado para aquele…
Eis que chega Janjão, o mais velho – fala, de forma desajeitada, com Onofre: quer que o pedido seja simples e no momento. Ora o leiteiro deseja as coisas como a tradição determina: que o recém-chegado se informe acerca das suas qualidades, o enlace só autorizado depois de confirmá-las. Assim, vai-se embora, sem nada comer ou beber, numa das saídas que, como as entradas e as marcações, faz o público ri rir a bom rir.
Entretanto, um casal de vizinhos, Vitalino e Tina, vai despedir-se: seguirá para Lisboa, local onde, promovido, o elemento masculino, desempenhará altas funções estatais: as vozes afectadas dos provincianos são inesquecíveis, bem como o desejo de pertencerem à “alta sociedade”, mito que não definem mas antevêem…
Tal como na narrativa popular a referir mãe e filha que, deixada a aldeia, a ela rapidamente regressam e ignoram se uns animais que voltam a ver são “caibras” ou calhabras”, assim os dois parolos já não se lembram do local onde nasceram e viveram até àquele momento…
Da vizinhança escapa a família de Alzira, a única a quem dizem adeus, afectada e ridiculamente.
A viúva aproveita, claro, para a célebre “cunha” lusitana: que Vitalino tenha Janjão em mente nas próximas promoções…
Janjão concorreu a uma lotaria e quer ser rico, rico! O que vem a acontecer: de um momento para o outro, fica cheio de dinheiro, muda de discurso e de relações – despreza, de imediato, o irmão – o miúdo será colocado em casa de acolhimento.
Considera que Ventura já não é parente chegado e, portanto, não poderá acompanhar o agregado familiar. Enviesa o modo de falar e de se deslocar, quer partir tão depressa quanto possível, cortar os laços com as origens.
Muda-se o cenário, num curto lapso: novos cortinados, almofadas e forro do sofá reluzentes, o bar bem diferente – percebemos, entre gargalhadas, que o móvel é o mesmo do tempo anterior, colocado ao contrário: regressados à cena, Rosinha e Janjão “viraram a casaca” e o adereço.
Deixaram de dormir juntos porque isso não é coisa do meio a que, agora, pertencem; pese o desgosto da rapariga, o marido é inflexível nesse ponto: não podem demonstrar afectos, mesmo que os quartos sejam contíguos – é assim no novo meio social…
A abertura e fechamento das portas dessas divisões, Rosinha a entrar no quarto do cônjuge, ele a evitá-la e a mandá-la embora para não ser visto pelos “criados”, estes, Gustavo e Palmira, vestidos, a rigor, de funcionários domésticos, já peritos em espreitar pelas fechaduras dos patrões, mandados por Petra, a governanta, são do melhor…
Em danças de valsa da maior comicidade, enquanto limpam o pó e se aproximam, às escondidas, quase unidos os lábios, os espanadores em notável movimento que conseguem executar.
Janjão transformou-se em Doutor João (onde teria arranjado o diploma?), evita ser tocado pela mulher e prepara-se para receber os convidados; dá uma grande festa. Aparecem Alzira, num espantoso penteado, Onofre, agora com nome eslavo, a fingir de Director de uma multinacional, obviamente fictícia – antes mandado embora quando foi cobrar uma conta de leite –, Ventura, Vitalino e Tina. A jactância destes e de Janjão, eventual ponto mais alto do ridículo, serão quebradas com a chegada de dois embaixadores de países europeus porque nenhum dos intervenientes consegue comunicar com eles, tal a ignorância linguística.
Face à aflição, Onofre acabará por ir com um dos importantes representantes para outra divisão – vão comer qualquer coisa. Regressa, eufórico e… sozinho: no seu inglês mal digerido, tinha mandado o homem embora…
Como o tempo passa e não aparece mais nenhuma pessoa, começam a ficar incomodados e a sentir que não haverá festa. Terá que ser Petra, qual grilo de Pinóquio, com bom senso, a dizer-lhes que não tinham sido enviados mais convites para que os patrões e os amigos não fizessem figuras tristes ao pé de muita gente. E que voltassem à simplicidade que os tinha gerado.
A peça termina como começou: com “Uma Casa Portuguesa”, agora o público a cantá-la (como Reinaldo Ferreira, o compositor, e Amália conheciam o nosso povo!), sob grandes aplausos que foram para todos, actores e técnicos, porque Lurdes Sales [Pereira] e Elsa Assunção, encenadoras e directoras de cena, a peça adaptada pela primeira – não indicada, para esse efeito, no Programa (1) mas em documento diverso (2) – chamaram cada um deles para o nosso reconhecimento.
Obrigada a todos. Obrigada, TESFAL; volta em Setembro, repõe a peça, no Salão Nobre da SFAL e em mais locais: estaremos contigo! Mais uma vez.
(Já na rua, pensei melhor; esta peça é uma tragicomédia: nela todas querem pertencer ao tal “jet set” – tão bem retratado, há anos, apenas numa frase, irónica, de António Capucho –, esquecer a proveniência e, principalmente, o Outro.
Joracy Camargo faleceu um ano antes do 25 de Abril pelo que se imaginaria, há alguns anos, que este trabalho seria visto, em Portugal, numa perspectiva histórica. Infelizmente, tal não acontece, nos difíceis tempos que atravessamos.
A observação dos espectadores é sincrónica, tal o que naquele palco se passa, metáfora e retrato de um Portugal onde se vive cada vez mais de dinheiros sujos, de mentiras e violência. Onde os trabalhadores são cada vez mais desrespeitados, desempregados e isolados.
Portugal onde a pobreza aumenta a cada hora e, em “cada esquina” – ao invés da fraternidade que Zeca Afonso anteviu e cantou, em plena ditadura –, um inimigo para roubar a actividade de outrem, um inimigo – com calúnias e mentiras contra os colegas, lambe-botismo à maioria de um patronato que não tem condições para sê-lo.
Portugal de aparências e aflições que há-de encontrar, tal como outros países da União Europeia, de outras Comunidades e Continentes, o caminho da dignidade: pela força da verdade, inovação; na preparação, dura, para o devir. Pela força do trabalho.)

Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Referências

(1) http://videos.sapo.pt/aGtwdpKdDrYYyzJin9eE, consultado em 16/6/2011.

(2) Programa da peça, em frente e verso.

«Mania das Grandezas» - de Joracy Camargo

FICHA TÉCNICA

DIRECÇÃO E ENCENAÇÃO
Lurdes Sales Pereira
Elsa Assunção

ADAPTAÇÂO
Lurdes Sales Pereira

CENOGRAFIA
Elsa Guerreiro
TE5FAL

LIJZ E SOM
Pedro Lima
Elsa Assunção

FIGURINOS
TESFAL

CARACTERIZAÇÃO
Luisa Reis

INTERPRETAÇÃO

Ventura — Natacha Amendoeira
Alzira — Lurdes Sales
Rosinha — Marta Pereiral
Onofre — José Miguel
Janjão — Ruben Sequeira
Vitalino — António Santos
Tina - Sandra Rocha
Gustavo — João Noronha
Palmira — Inês Baptista
Petra — Sónia Rocha
lnglês / Alemão — Rui Pinto

DESIGN GRÁFICO
Cartaz e Programa
Alexandra Antunes

FOTOGRAFIA/VIDEO
Ivo Almeida
Gonçalo Camões

AGRADECIMENTOS
Jornal Rostos
Faty Lopes
Salão Luísa Reis
António Pequito

APOIO
Câmara Municipal do Barreiro
Junta de Freguesia do Lavradio
PRODUÇÂO
TESFAL / SFAL

JORACY CAMARGO

Joracy Camargo (Rio de Janeiro, 18 de Outubro de 1898 — Rio de Janeiro, 11 de Março de 1973) foi um jornalista, cronista, professor e dramaturgo brasileiro.

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