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Raivar, qu’este é outro jogo!Por Carlos Alberto Correia
Barreiro

E não é mal feito. Qualquer papalvo acredita. Não digo que os americanos não tenham vontade de enfraquecer o euro. Dava-lhes até muito jeito. Calcula tu o que poderá acontecer se um dia os chineses exigirem, para tomar umas bicas, parte do pagamento da dívida americana em ouro ou mesmo em divisa forte.

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Raivar, qu’este é outro jogo! Por Carlos Alberto Correia Barreiro

Por Jornal Rostos

Raivar, qu’este é outro jogo!
(Gil Vicente, Auto da Índia)

A mim bem me parecia, dizia o Belegário, como se falando comigo, totalmente embrenhado nas suas cogitações. Andámos sempre a reboque dos outros. Mesmo quando parecíamos donos e senhores do mundo não passávamos de capatazes, correndo riscos pelos patrões a quem, para pagamento das dívidas, entregávamos o carregamento das naus. Somos mesmo uns figurões!

Tem lá calma Belegário, tentava eu, em boa alma, retirar o meu amigo daquele estado tão depressivo. Mas ele, truz! Qual calma, nem meia calma. Então tu não vês que nos estão a tirar o pão da boca e nem sequer somos o alvo principal? Venham para cá convencer-me depois que tenho a mania das conspirações ocultas. Isto é tão certinho como a luz que os meus olhos vêm. Então tu não vês que estamos em plena guerra? Dantes mandavam-se uns tantos soldados trucidar-se mutuamente. E ainda se mandam quando os interesses a defender são lá para os lados dos “povinhos”. Agora, entre nós “civilizados”, trabalha-se no escuro, fazem-se golpadas judiciais e financeiras mas o resultado é o mesmo. Fome, morte, miséria! Jorra é menos sangue à nossa porta.

Falas da guerra do dólar contra o euro, perguntei esperançado em quebrar o solilóquio e poder entrar na conversa.

Isso é apenas uma aparência, retorquiu, rapidamente o Belegário, tirando-me de novo a palavra. É o que nos querem fazer pensar. E não é mal feito. Qualquer papalvo acredita. Não digo que os americanos não tenham vontade de enfraquecer o euro. Dava-lhes até muito jeito. Calcula tu o que poderá acontecer se um dia os chineses exigirem, para tomar umas bicas, parte do pagamento da dívida americana em ouro ou mesmo em divisa forte. Vai ser um descalabro. Então aqueles marmanjos andam a imprimir dinheiro sobre avales do estado que não estão firmados em nada mais que um papel a autorizar a emissão. Ouro? Viste-lo! Porque é que pensas que o seu valor cresce todos os dias no mercado? Aquilo são só papéis e comunicações de números entre computadores. São valores mais frágeis que sonhos. Só existem no reino virtual.

Espera lá, o que me estás a dizer faz mesmo pensar que é o dólar a bater-se contra o euro.

Faz não faz? Pois é mesmo isso que se quer fazer parecer. Assim põem-nos a nós todos de má vontade contra o Obama, fazem-nos pensar que tanto vale lá estar ele como o Bush. Que a cantiga é sempre a mesma e acabam com as reformas que o homem quer fazer.

Boa, boa! Nunca te vi tão obamista. Não eras tu quem dizia que presidente americano é presidente americano seja ele burro ou elefante?

Dizia e mantenho. Mas sei ver para lá dessas situações. Olha, no outro dia chegou-me um “e-mail” dizendo que o Strauss-Khan tinha sido vítima de uma armadilha porque tinha descoberto que os depósitos de ouro da Reserva Federal Americana estavam exauridos e os valores que os americanos propalam estão altamente inflacionados em relação à realidade. Já viste o buraco que isto dava se fosse verdade e o homem viesse desmascarar a situação? Pronto, pronto! Nem digas nada. Pode ser, bem o sei, manobras de serviços secretos de um ou de outro lado e, ao que parece, se foi armadilha, baseou-se no comportamento habitual e censurável de tal personagem. Estou-me nas tintas para que seja ou não verdade. O que te quero demonstrar é que a substância do problema é mais profunda que uma mera guerra de afirmação de moedas. Não abras a boca mas o que estamos a ver já o velhinho Marx antevia. Não é nem mais nem menos que uma declarada guerra de classes. Ricos contra pobres! Vês como, mesmo na América das oportunidades, como dizia o filósofo das barbas, a classe média se vai rápida e inexoravelmente proletarizando e o número de pobres cresce em proporções geométricas? Repara como, até nas nossas televisões, em pouco tempo os arautos dos neoliberalismos começaram a virar o bico ao prego sobre os benefícios dos mercados sem travões. Como, repentinamente, a impensável reestruturação da dívida passou de anátema esquerdizante para possibilidade plausível e séria. A Moody’s foi apenas o pretexto que faltava para anunciarem em público os receios que já cultivavam em privado. Sabes, uma coisa é emitir opiniões teóricas quando as coisas acontecem aos outros. Bem diferente é quando começamos a ver aproximar o perigo do nosso castelo. Vais ver como nada do que se fizer, aqui ou em qualquer outro lugar, aplacará o apetite dos financeiros especuladores. O lema do capital é apenas um: maximizar o lucro mesmo que o caos se instale.

Mas isso é uma aposta suicida!

Claro que é, disse o Belegário. Mas o capital em determinados estádios pode ser estúpido como o ébola o qual, em cegueira e avidez, destrói o hospedeiro. Como se julga imbatível está sempre a matar a galinha dos ovos de oiro, confiando que permanentemente aparecerá mais uma para explorar e sacrificar. Vais ver! Começou com os parentes mais débeis e a seguir vão ser a Itália, a Bélgica, a Espanha até há hecatombe final. É triste, garantido e certinho!

Mas então a Europa não pode fazer nada?

Poder podia, mas como disse um dos pais fundadores aos ideólogos seguir-se-ão os contabilistas. Estes apenas sabem alinhar números e só compreenderão o que significam e os efeitos terríveis que causam, sempre tarde demais.

Conseguiste inquietar-me, Belegário. Fico bem preocupado com o que me disseste.

Ainda bem! Pena é que só o consiga fazer contigo e que o resto do mundo continue a caminhar despreocupadamente para o abismo. E olha que bem perto está!

Carlos Alberto Correia

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