Amizade e Escrita(s)(Ou Ágrafas Inteligentes)
Por Manuela Fonseca
Barreiro
Uma União (?) na qual, sempre que podiam, membros das comunidades migrantes iam às suas terras de origem, as que lhes estavam na cultura, nos sentimentos, nas saudades da terra e família:

Por Jornal Rostos
Amizade e Escrita(s)
(Ou Ágrafas Inteligentes)
(Ao Sousa Pereira, em dia de aniversário)
A amizade entre ambas ultrapassara décadas e orgulhavam-se disso; apenas uma vez, em tanto tempo, houvera uma questiúncula de adolescentes.
Cumplicidade e respeito norteavam-nas, os filhos e netos agora o maior motivo de diálogo, seguido das viagens: antes de poder fazê-las, Cristina aprendera-as na sabedoria e nos livros do pai e nas divertidas narrativas que Luísa lhe fazia depois de passear com os autores dos seus dias e os tios no estrangeiro, o campismo como fonte de saúde e possibilidade de ver pessoas e terras, observadas com inteligência e bom humor.
Faziam a rapariga rir a bom rir as peripécias, diversas, que quase sempre lhes aconteciam quando passeavam em Itália, principalmente com certos epítetos que Luísa atribuía às gentes de lá, que os percebiam e, irritadas, lhe davam as respostas, orais e gestuais, adequadas.
Chegada ao lar, juntava-as aos recontos, graves, do pai, as linhas de caminho-de-ferro em toda a Europa como protagonistas.
E viajava sem sair da casa-de-jantar ou do quintal onde cuidava, com esmero, do cágado “Chico”.
(Décadas depois, excepcionalmente sozinha, lembrar-se-ia dos percursos que o progenitor lhe ensinara, em carruagem de segunda classe do “Expresso Oriente”.)
Cristina ria-se muito, nessa longínqua década de sessenta, com as versões da amiga e família, toda a gente sobre a cama de Luísa ou o belo sofá do salão, divisão da casa – muito arranjada, como todas as outras – pouco habitual na época, índice do bem-estar que os Sousa Antunes tinham e, generosamente, partilhavam.
A confortável habitação (bem como a oficina de roupas, no rés-do-chão da mesma, bem rentável, fruto do génio de Antonieta, a mãe de Luísa) tinha sido consequência de uma lotaria premiada, dita com simplicidade, e muito trabalho e orientação na gestão do dinheiro que coubera a tão generosa gente.
As saídas de Luísa e dos seus tinham sido interrompidas, subitamente, com o precoce desaparecimento de Carlos, o único irmão de Antonieta, quase às portas do Barreiro, num acidente de viação de péssimas consequências.
A dor de todos os que lhe tinham querido bem levava-os à interrogação acerca do que somos, questão que, bem depois, José Saramago interpretaria na ligação ao verbo estar.
Carlos fora um futebolista de mérito do Barreirense, também funcionário da antiga Companhia União Fabril, ao mesmo tempo que estudante no Colégio Moderno do Barreiro onde, superiormente, ensinavam os Dr.s Barbado e Fráguas, proprietários da instituição, única do género na antiga vila, a formação liceal de adultos, quase todos trabalhadores – às vezes, os jovens casais tinham que levar os filhos –, um factor relevante, ao longo de gerações, na terra.
Terminado o então quinto ano, Carlos continuara como funcionário administrativo, no local já mencionado e, o tempo menos contado ao deixar a prática desportiva, dedicara-se a ensinar amigos que, reforçadas as habilitações, viriam a ter melhores colocações.
Cristina tem presente, com saudade, a paixão pela família sempre nos olhos e nos gestos do antigo jogador, a alegria do nascimento da segunda filha igual à demonstrada com a anterior, um diabrete, ambas (n)o encantamento de um pai orgulhoso.
O Barreirense, no velho “Manuel de Melo”, e Carlos na emoção de ver os antigos companheiros das quatro linhas, na mistura de sentimentos de quem estivera dentro do terreno de jogos e agora já não voltaria a fazê-lo, pelo menos oficialmente.
(O Externato Moderno, o “Colégio”, fora a primeira escola onde Cristina aprendera a ensinar, nos medos e esperanças dos vinte anos.
Aqueles tinham sido ultrapassados, com relativa facilidade, ainda jovem; as esperanças concretizadas, aos poucos, numa profissão de exigência, rigor, solidariedade e compromisso com o desenvolvimento psíquico, pessoal, social de muitas centenas de alunos – o seu empenho num país que acabara com a ditadura, sonho de gerações, prisão, tortura e incómodo para muitos, também para alguns parentes, em ideais e práticas diversos, no desígnio de um Portugal mais igualitário e risonho.)
A União Europeia e as esperanças que a professora nela depositara, caminho de avanço de Portugal – pensara e, ou, desejara – que os antecessores tinham iniciado. Algo Cristina tinha produzido, no País e em outros, no sentido da evolução, da multiculturalidade, da compreensão entre as pessoas, junto dos formandos que, um dia, seriam seus colegas.
Uma União (?) agora em descalabro e falta de solidariedade, os povos de alguns países pressionados, pressionados com discursos de terrores financeiros.
Uma União (?) na qual, sempre que podiam, membros das comunidades migrantes iam às suas terras de origem, as que lhes estavam na cultura, nos sentimentos, nas saudades da terra e família:
– Está quieta, ‘Vanilha’”, ouvira uma compatriota dizer à cadela, há poucos dias, em extraordinário cruzamento linguístico, o animal, pelo que percebera, já habituada ao avião. A mulher falava com outra portuguesa; ambas andariam pela sua idade.
Continuara a escutar a tagarelice, um recente e badalado casamento monegasco dissecado ao pormenor (as orelhas de um tal Alberto deveriam estar bem vermelhas, facto que, certamente, o homem merecia. Cristina, como boa republicana, deliciava-se…), até em número de revista gratuita que elas tinham ido buscar.
– “Vanilha”, fica tranquila que estamos quase a partir.
E a outra:
– O que a tua dona pagou a estes “gulosos” pelo saco novo e pelo bilhete dava para nem te mexeres, “menina!”
Olha, parece que já vamos para o avião!
Virou-se para a turista:
– A senhora gosta da França?
E, antes que esta abrisse a boca:
– Agora que volto uns dias ao Algarve, cheia de saudades da filha e da neta (amanhã já faço o comer da moça e da menina!), digo-lhe que isto aqui também não está grande coisa. A gente está a deixar-se “comer” por esses “pavões” dessa agências, se faz favor, de?...
Cristina respondeu-lhe:
– Chamam-se de notação financeira.
Estão na América, a mandar no dinheiro do Mundo, onde milhões andam bem aflitos. Mesmo lá entre eles.
– Malandros!
Cristina retorquiu, uma certa tristeza na voz:
– Sabe, temos que fazer como os chineses: criar as nossas próprias agências para tal gente insensível deixar de se rir de nós.
A Europa atrasa-se em tudo, deixa o nosso e outros Países, como a Grécia, a Irlanda, a Espanha, numa aflição que, se não se mudar o caminho, ainda há-de estender-se a mais. Infelizmente.
Os aviões levantavam voo ou paravam, ininterruptamente, sob o belo sol da “Côte d’Azur”.
No sector de Cristina, as pessoas começaram a dirigir-se para o da TAP.
Companhia que continuava a fazê-la sentir-se segura, tantas voltas que dera sem gostar de andar no céu, o bilhete já na mão, as despedidas a “Vanilha” e aos portugueses ao pé dela que, com certeza, já não voltaria a ver.
E para o marido:
– Suponho que quase ágrafas em duas línguas, estas mulheres, e, ainda assim, bem inteligentes.
Vê lá como percebem o que políticos e financeiros sem categoria têm feito!
Hei-de referir à Luísa este encontro. Já amanhã. A amizade é perene, as escritas continuam; pode ser que ela faça umas linhas acerca disto.
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos
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Agradecimentos a Ana Filipa Leite Xavier pelos esclarecimentos prestados.













