Um bom negócio!Por Jorge Fagundes
Barreiro
"Quanto ao pessoal, é simples. São oito empregados e vou ficar só com quatro."
"E os outros quatro?
"Vão ser despedidos e o Antunes paga as indemnizações. As dívidas, não muitas, também vão ser pagas por ele, que
também fica com a lista dos caloteiros.

Por Jornal Rostos
Hoje, logo a seguir ao almoço, e quando me dirigia ao Ginásio do Barreirense para a bica e cavaqueira do costume, ao passar junto ao Mercado Municipal, alguém, sentado numa das esplanadas, me chamou.
Embora a horas não habituais, era o meu velho Colega da Alfredo da Silva.
Sentei-me à sua mesa e ia encomendar o café mas ele, autoritário, disse:
"Nem penses! Hoje é um dia especial e vamos beber champanhe. E francês, se houver!"
"Champanhe? Não fazes anos hoje".
"Pois não. Mas realizei ontem o negócio da minha vida e quero comemorar contigo, meu velho Colega e Amigo"
"Negócio? Estás aborrecido de nada fazer usufruindo a tua merecida reforma?"
"Em boa verdade ainda me sinto capaz de ter uma certa actividade. E a oportunidade surgiu inesperadamente."
"Conta, conta."
Lembras-te do Antunes, que andou connosco na Escola Nova do Barreiro, e que quando fêz a quarta classe foi trabalhar para a mercearia do pai?.
"Lembro-me, e sei que até singrou bem na vida alargando os negócios paternos."
"É esse mesmo. Calcula que tem (ou melhor, tinha) lojas no Barreiro, no Lavradio, em Santo André e na Baixa da Banheira."
"Tantas? Não o sabia."
"Pois o Antunesl lá conseguiu amealhar uns cobres valentes e ( aqui baixou prudentemente a voz) consta que se safou muito bem em negócios da bolsa."
"Sim? E qual é relação com a tua actual euforia?
"Já vais saber. O Antunes resolveu largar os negócios e passar à reserva dourada. E veio-me propor a compra das suas quotas na sociedade."
"E porquê a ti?
"Tinha outros pretendentes, que até lhe pagavam mais, mas como somos amigos de infância (até chegámos a pertencer à mesma Direcção da Colectividade) deu-me a preferência."
"Está bem. Mas em que condições?.
"Óptimas, óptimas. Pelas quotas vou pagar-lhe apenas quarenta mil euros. Vou retirá-los de uma conta resultante de uns dinheiritos que ganhei naqueles meses que estive a dar cursos de formação em Luanda."
"Mas as lojas não têm pessoal? Nem credores? Nem devedores? E as rendas?
"Quanto ao pessoal, é simples. São oito empregados e vou ficar só com quatro."
"E os outros quatro?
"Vão ser despedidos e o Antunes paga as indemnizações. As dívidas, não muitas, também vão ser pagas por ele, que
também fica com a lista dos caloteiros. Segundo me disse até há mercado para o recebimento destas dívidas. Quanto às rendas são antigas, o inquilino não muda e os quatro balcões estão muito bem afreguesados.
Como vês, fiz um bom negócio. Senhor empregado, abra lá a garrafinha!
Jorge Fagundes













