Ricos e PobresPor Carlos Alberto Correia
Barreiro

Por Jornal Rostos
Estou sentado na varanda do hotel fruindo o pôr de sol. Para trás fica a marina com as suas embarcações milionárias em amarração tranquila. Daqui a pouco, quando escurecer, irei procurar um restaurante onde, com os barcos em fundo, e sem ser rico pagarei por uma refeição pretensiosa e medíocre quase metade do valor mensal do rendimento social de inserção. Sei também que, antes de chegar à rua que vira para a marina, sentada no chão, uma sexagenária inválida estende, em silêncio, uma lata para receber esmola. A multidão que passeia, vê e se senta nos cafés e restaurantes parece indiferente a tudo quanto não seja o seu prazer imediato. Eu, claro, navego nestas ondas. Vou distraído a pensar como era este local quando aqui cheguei, nos anos setenta, com a equipa destacada para a construção da marina. Chegámos, num dia pleno de sol, à sonolenta Vila de Quarteira. Havia, na altura, apenas uma pensão, onde ficámos alojados durante a semana que duraria a nossa atividade, pertencente ao mesmo proprietário do também único restaurante-café, uma palafita instalado sobre a água da praia. Era tarde, não esperava ninguém, não tinha almoços. Procuramos e, no largo, frente ao mercado, uma velhota, numa tasca, fritava linguadinhos num fogareiro a carvão. Pode almoçar-se? Pode, mas o que tenho é comida de pobre. Não sei se os senhores quererão, disse ela impressionada pelo Citroën bico de pato parado frente à sua locanda. Nós comemos qualquer coisa! Serviu-nos um saborosíssimo arroz de tomate, acompanhado por uma salada de alface que era veludo, mais os linguadinhos saídos da frigideira para o prato. Foi uma das mais memoráveis e saborosas refeições da minha vida.
Ao grupo que ali estava - o engenheiro diretor da futura obra, o administrador da zona, o diretor de recursos humanos e eu, responsável pela publicidade da empresa - competia verificar as condições para alojamento e alimentação das centenas de trabalhadores que para ali seriam deslocados e, com maior urgência, montar um stand com os projetos e maquetes das obras para, na semana seguinte, recebermos o Almirante Américo Tomás, que, a convite da sociedade promotora da obra, iria visitar, antes de transformado, o local onde a marina nasceria e, com ela, uma profunda modificação, cultural e social da zona. Éramos, inocentemente, os transformadores da paisagem rural e da moldura humana. Lembro-me que, no local onde começaram as escavações para a marina - campo seco e amarelo de ervas mortas - erguia-se uma vacaria onde, nos dias iniciais, nos fornecíamos de leite. O dono do estábulo já com o negócio feito dava o leite a quem o quisesse, esperando apenas que o novo proprietário das vacas o libertasse do trabalho cansativo de as mungir.
No dia aprazado para a visita estava montado o stand e, nervoso, o administrador tentava saber todos os pormenores acerca da marina para não vacilar em qualquer pergunta que Sua Excelência o Presidente da República quisesse fazer-lhe. Tranquilizava-o o presidente da administração do promotor: descanse engenheiro, se bem conheço o almirante, depois de observar tudo quando expuserem e lhe digam ele apenas irá perguntar-lhe quais são as cotas das marés. Coisas de marinheiro, finalizou!
Chegada a comitiva, explicados planos e projetos lá saltou a Sua Excelência a sacra questão: então senhor engenheiro, qual é a cota das marés. Só não saiu gargalhada porque a solenidade da ocasião o não permitia. Destacou-se então da comitiva uma personagem pequena e ridícula no seu casaco aberto e nos puxões, dados ao ritmo da fala, nos seus berrantes suspensórios. É o almirante Tenreiro, ouvi dizer. Então Sr. Presidente com tanto terreno para o lazer não me vai dar um bocado para fazer um lar para pescadores? Pois. Pois, senhor almirante, disse escarninho o Presidente Tomás, dou-lhe um terreno para pescadores e nasce-me uma fábrica de sardinhas. Sorrindo descaradamente o almirantezinho retorquiu: claro, senhor presidente, cada qual puxa a brasa à sua sardinha! Congelada, evidentemente, congelada, concluiu o presidente da república e foram-se afastando daquele terreno que, no dia seguinte, começaria a era esventrado para criar uma povoação para ricos.
Ainda não tinha largado estes pensamentos quando voltei ao hotel e, ao contrário do habitual em férias, liguei-me ao Facebook. Ia por lá uma discussão sobre ricos e pobres e um dos principais polemistas perguntava porque é que as esquerdas queriam acabar com os ricos, perguntando ao mesmo tempo o que era um rico e a partir de quanto se era rico. Não fora o tom acintoso e não me dispusera a dar-lhe resposta, até porque nunca me propusera acabar com ninguém. Num relance teclei a minha perspetiva. Disse: Um rico é aquele que pelos seus excessos de bens obriga os outros à míngua. É relativo e acontece sempre que a distribuição de bens é injusta, sempre que alguém, se calhar por direito divino, se considera proprietário de bens que a todos deverão caber. Enfim, um rico é uma perversão social. Não é preciso ser de “esquerda” para perceber isto. A social-democracia é pela redistribuição equitativa e até um senhor chamado Emanuel disse ser mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, que um rico nos reinos do céu! Portanto, um rico é, para a igreja militante, um réprobo. Estou equivocado?
Parece que estava. O meu interlocutor mandou-se a mim como gato a bofe e foi um vê se te agarras de chavões e pensamentos mais velhos que matusalém. Se calhar era melhor estar dos lados dos madraços que em vez de trabalhar queriam viver à custa do estado. Daqueles que se entregavam aos vícios com o “nosso” dinheiro – pasmei que vícios poderia alguém pagar com cento e oitenta euros – que preferiam engordar sem esforço, etc. etc. e etc.. Argumentava ainda que além de ser o melhor, o capitalismo era eterno, o que me levou a replicar que os sistemas nascem, crescem e morrem. Todos! Porque tudo é, na vida, transitório e marcado pelo tempo. Quando um paradigma deixa de responder às necessidades sociais entra em declínio e é trocado por outro. De modo mais pacífico ou violento. Depende das forças em presença. Sugeria ao meu interlocutor que não tomasse por eterno o que era meramente conjuntural e que prestasse mais atenção às dinâmicas sociais. Reforcei ainda a constatação de que os ricos que ele tão denodadamente defendia estavam a levar, por pura ganância, o mundo para confrontações sem precedentes e pretendi mostrar-lhe que, quando elas acontecessem, nós, os que não somos ricos, sofreríamos igualmente os seus efeitos fossemos pró ou contra a posse de riquezas excessivas. Cedi, no entanto, na forma como cada um de nós encararia as catástrofes. Eu, revoltado e bramando contra tudo o que me levara àquela situação. Ele, certamente, feliz por estar a receber os frutos do modelo que professava e defendia. O homem não gostou e só não me condenou ao inferno porque, disse, não era religioso. Mal sabia ele como estava tão vizinho da teoria da predestinação sagrada que Max Weber outorgou ao espírito protestante.
É quase verdade, o que o vulgo diz, sobre a perene existência de ricos e pobres. Já não será tão verdade dizer que sempre assim será. É que ser rico ou pobre não está no ADN de ninguém. Muitos fatores pessoais, sociais e conjunturais se conjugam para determinar quem será rico e quem será pobre. Escrevi um dia, sobre os papéis que nos cabem, um epigrama que transcrevo: numa rua/ há sempre/ um herói e um bandalho/ depende de quem parte o baralho.
Mas, certamente, nada obriga a que seja sempre assim. É possível e necessário que, um dia, as diferenças sejam menores e que todos possam gozar de quanto necessitem na sua vida. A produção atual já o permite. Só a injusta distribuição o impede.
Carlos Alberto Correia













