O povo é quem mais ordena?Por Jorge Fagundes
Barreiro
"É verdade. Foi muito gratificante e os quadros expostos são excepcionais. Embora Manuel Cabanas fosse algarvio, o certo é que a maior parte da sua vida foi passada no Barreiro. Pelo que a exposição relacionada com a passagem dos cem anos do seu nascimento deveria , também, ter direito a ser mostrada no Barreiro".
"E não é?"

Por Jornal Rostos
Ao passar, esta tarde, perto das esplanadas situadas junto ao Mercado Municipal, vi o meu velho Amigo e Colega da Escola Alfredo da Silva instalado numa delas, absorto na leitura de um jornal. Aproximei-me e:
"Boa tarde! Que é feito de ti que há muito te não vejo?"
"É boa! Tenho estado no Algarve e era para te telefonar para podermos trocar umas impressões".
"Avança!"
"Estive em Armação de Pera mas aproveitei para passar por Vila Real de Santo António e visitar a exposição do Kira. Alguém me disse que tu e outros barreirenses compareceram na inauguração".
"É verdade. Foi muito gratificante e os quadros expostos são excepcionais. Embora Manuel Cabanas fosse algarvio, o certo é que a maior parte da sua vida foi passada no Barreiro. Pelo que a exposição relacionada com a passagem dos cem anos do seu nascimento deveria , também, ter direito a ser mostrada no Barreiro".
"E não é?"
"Se o não for, será mais um mistério barreirense em termos culturais. Aliás, tendo Manuel Cabanas privado com altas figuras nacionais, muitas das quais ainda bem vivas, é estranho que nenhuma delas tenha a coragem de proporcionar ao Kira, que, sem favor, bem o merece, a exposição em Lisboa e em local de relevo, destes quadros".
"Bem, bem! Que me dizes da história do falhado referendo grego?"
"Ora, ora, meu Caro Amigo. Quando o Zeca Afonso escreveu e musicou Grândola vila morena, não esperava, certamente, a projecção que a canção iria ter depois do 25 de Abril. E, com a sua repetitiva reprodução creio que muito boa gente acabou por acreditar, como lá se diz, que o povo é quem mais ordena",
"E não é?"
"Pura ilusão. Como o disse Rousseau, ainda que referindo-se aos ingleses, ao apor a cruzinha no boletim de voto aliena-se a nossa liberdade".
"Não estás a exagerar?"
"Sem pagamento de direitos de autor, olha que não, olha que não. Repara que a União Europeia tem já 27 membros e, a não ser que esteja errado, a nenhum dos povos foi perguntado, em referendo, se queria transferir parte das suas soberanias e competências legislativas para as várias instituições comunitárias".
"Não me digas. Nem um, sequer?"
"Em boa verdade a pergunta foi feita só aos noruegueses que, em referendo, disseram não".
"De repente começo a perceber o alarido e os receios que o anúncio do referendo grego causou por essa Europa fora. A efectivar-se quantos e quantos interesses estariam afectados? Como dizem que as conversas são como as cerejas, que achas das medidas anti-crise?"
"Aí está uma boa pergunta, e as soluções impostas pelo triunvirato (historicamente, como o deves saber, esta história dos triunviratos deu sempre mau resultado) vão esbarrar, direitinhas, na canção do Zeca Afonso".
"Vão? Como?"
"Se, como ali é afirmado, fosse o povo quem mais ordena, pensas que os mandantes europeus, mais os seus fiéis seguidores nacionais, teriam a coragem de, mandando às urtigas ainda bem quentes promessas, nos voltar a fazer empobrecer alegremente?"
Jorge Fagundes













