Amizade e Escrita (2)(Texto a Quatro Mãos)
Por Manuela Fonseca
Barreiro
Comoveram-me pelo passado e pelo presente, na tristeza daquilo a que assistimos.

Por Jornal Rostos
De Manuela
(Em 29 de Outubro de 2011)
Meu amigo
Segue o “link” (1) da revista “Objectiva” (n.º 5) do barreiroweb.com, sob o tema “Associativismo”, na qual colaborei.
Verás o meu texto, que anexo (1), na transposição para o “Word”.
Com a Amizade de sempre, que a distância e o tempo não diluem,
um beijinho para ti e as tuas senhoras. (2)
Manuela
De C. A.
(Em 31 de Outubro de 2011)
Olá, Manuela
Li com interesse o teu artigo sobre o associativismo e não deixei de me lembrar que foi nessa área que cresci como ser humano. Primeiro, muito jovem, como atleta, inicialmente no FC Barreirense, e, em simultâneo, no Verão, nos JJB. Nos JJB fui atleta do FC Barreirense e do Serpa Pinto FC, clube popular dos primos Capela e que foi o mais bem sucedido desses jogos.
Também fui dirigente do mesmo SPFC e oficial dos próprios Jogos, cronometrista do basquetebol, chegando a ingressar, felizmente por pouco tempo, nos quadros da AB Setúbal. Foi aliás nessa qualidade que ganhei os meus primeiros tostões da vida... Mais tarde, fui dirigente do Cine-Clube, já noutra componente mais politizada, começando aí a trilhar os primeiros passos políticos, particularmente nos movimentos de juventude ligados ao PCP.
A prisão acabou por afastar-me dessa área política quando percebi que, através desses movimentos, não se iria chegar a lado nenhum. (…)
Enfim, histórias e estórias. Hoje, a tão grande distância, lembro-me desses momentos, vê bem, com alguma nostalgia, e sobretudo tristeza, por ter perdido os contactos com tanta gente de quem gostava tanto. No centenário do FC Barreirense encontrei alguns, poucos, mas dos mais próximos desse tempo, ficaram só recordações.
Da M., ex-mulher do A. (julgo que faleceu), da ex-mulher do filho da B., da M., do P. e de tantos outros, nem rasto. Saudades só. Que pena um dia não os poder reencontrar, mais que não fosse só para contar histórias e sabermos o que cada um de nós fez nestes mais de quarenta, quarenta… anos. Um dia, quando desaparecermos, tudo ficará reduzido a pó.
Beijinho para ti e família.
31-10-2011
De Manuela
(Em 2 de Novembro de 2011)
Obrigada, meu amigo, pelas simpáticas palavras que me incentivam a continuar a escrever, uma das formas de passar estes tempos em casa, num recolhimento que, penso, me chegou cedo.
Demais.
Comoveram-me essas memórias, talvez porque me falaste da nossa juventude – impetuosa, difícil mas de esperança em tempos que sonhámos e não se concretizaram.
Comoveram-me pelo passado e pelo presente, na tristeza daquilo a que assistimos.
Dos que referiste (boa a recordação, generosos, como sempre, os sentimentos), não sei, sinceramente, se terá falecido a M. ou o A. Soube, há anos, que um deles se encontrava doente.
E pergunto-te (tu, afastado e eu, aqui, sem me lembrar):
– Qual foi a primeira mulher do filho da B.?
Segue, abaixo, o contacto dele:
……
Perco a conta dos jogos que ele e eu vimos ao lado um do outro, já nos últimos anos do “Manuel de Melo”, o Barreirense, o nosso Barreirense na Segunda Divisão, à espera de melhores dias que, como a felicidade do País, parece que foram efémeros.
Às vezes trocamos “mails” a referir isso.
Deram-lhe o meu endereço electrónico e tem sido muito atencioso comigo.
É daqueles artistas plásticos que tiveram que deixar Portugal e, perto, vêem a criatividade apreciada, no alimento da Arte e do corpo. Penso que a companheira também tem actividades idênticas.
Do P., se quiseres, arranjo-te o contacto com facilidade; pertence aos que estão bem mais longe do que o referido, em outro Continente, na busca do ganha-pão.
Palavra: não me lembrava de teres sido preso: foi na altura da venda de selos, na Praça?
Safei-me dessa porque, quando cheguei, os malandros já tinham levado o pessoal e uma velhota, ao ver-me, percebeu ao que eu ia e disse-me: “Raspe-se!”
Foi o que fiz, a disfarçar, sem me apressar muito. Que sorte a de nunca me ter dado bem – excepto para os transportes públicos e o trabalho – com os relógios…
Bj.
De C. A.
(Em 9 de Novembro de 2011)
Manuela
Vou responder-te à pergunta acerca da minha prisão. Não, não foi essa da venda de selos em solidariedade com os presos políticos. Aconteceu na Rua Brás, em 3 de Maio de 1970 e até a hora está marcada cá dentro; 21.
Lá vou para o trabalho.
Até breve.
De Manuela
(Em 13 de Novembro de 2011)
Olá, C. A.
Levei alguns dias a responder-te porque ando muito incomodada com um problema que nos afecta, na família materna.
Sabes que a querida M. “C.”, o marido e a filha passaram aí, no carro, na altura em que os nojentos faziam as prisões e a H. foi, de seguida, a correr à minha casa.
Quando lhe abri a porta, exclamou, ofegante, com um certo alívio: “Bem dizia eu à minha mãe que aquela magrinha não eras tu!”
Mesmo depois do 25, a empresária, uma tia por afinidade, dizia-me: ”Marota, tens-me enganado sempre com isso. Eras tu, sim!”
Falaste do Partido (2) antes de Abril.
Falo-te do que nos uniu, nesse Abril irrepetível, no P.R.P. (3): convicções, sentimentos positivos, desejo de um Portugal desenvolvido.
Por tal longínqua razão, esperava apoio, nesta fase mais dolorosa da minha vida, de alguns dos antigos camaradas; só aconteceu com a minoria.
Outros magoam-me. Como diz um companheiro de então: “É a vida.”
A propósito dos jovens que fomos então, alegres, na crença de um Mundo melhor (o que nos terá sobrado?): nunca mais soube da F. e V., tão boa gente - ninguém daqui tem informação acerca deles.
Ainda estarão na Suíça? O Manuel e eu fomos ter com eles duas vezes a Lausana e, na última, levámos o nosso filho mais velho – que tinha seis anos (e agora trinta e um: como “ele” voa!) Fartou-se de brincar, na neve, com os miúdos deles, perto, numa zona conhecida como “a estância dos pobrezinhos”.
Até lhe vestiram fato, luvas e boné apropriados, acompanhado das botas adequadas; quase que nem o conhecíamos.
A família de F. e V. ainda veio ao Barreiro duas ou três vezes e desapareceu, que pena!
Para “que tudo” não fique, como talvez temas, “reduzido a pó”, pertenço aos Barreirenses que escrevem – no desígnio de deixar algo aos vindouros.
Neste contexto, fiz a pequena peça “O Comboio da Pedra” – que te mando, em anexo, no “Word”, bem como cópias, digitalizadas, da capa e contracapa (1); foi patrocínio de "Rostos" e “Unilogos”.
Pensei-a para a noite da comemoração dos cem anos, como me propus fazer junto dos colegas da Comissão Executiva.
Não tendo acontecido, foi apresentada no Salão Nobre, no dia 16 de Abril, com interessante assistência, entre a qual o Presidente da Câmara Municipal, a Vereadora da Cultura, o S. P., o J. A. G., gente da comunicação social da Cidade, membros directivos do Barreirense, da minha família e vários amigos (com fotografias inesquecíveis do L.M. e, uma surpresa, a leitura dramatizada de excertos por actores do grupo de Teatro da SFAL, o TESFAL.)
Em princípio, a peça será estreada pelo UTIBTeatro (da Universidade da Terceira Idade do Barreiro), com o apoio de jovens de uma escola básica daqui, a Mendonça Furtado, ainda em Dezembro.
Acho que o encenador, Luciano Barata, que fez formação aos meus filhos quando eram rapazinhos, teve uma das suas magníficas ideia com a colaboração de tão diferentes gerações.
Bj.
De C.A.
(Em 14 de Novembro de 2011)
Não sabia da peça. Obrigado pelo envio. Fiquei satisfeito com a mesma. Para que algo consiga marcar a nossa passagem pelo Barreiro.
De Manuela
(Em 15 de Novembro de 2011)
Meu Amigo
Ainda acerca do Partido (2): há oito anos, penso, aderi a esta preciosidade (que apoiava); fi-lo por razões familiares, sentimentais. E sociais e políticas, obviamente.
Como acerca dele dizia o nosso velho e saudoso Mestre e Amigo A. B., “está onde estão as massas” – para mim, claro –, embora pense que devesse desenvolver mais sinergias, sobretudo entre os jovens.
Na minha situação, não posso colaborar muito, além de não concordar com muitas coisas, mas os camaradas sabem que podem contar comigo.
Fiquemos por aqui hoje – que já é… amanhã –, dia de ganhar-se à Bósnia e Herzegovina, com todo o respeito pela equipa adversária.
Bj. para o vosso trio.
Manuela
PS: o Barreirense voltou a dar-nos uma semana bem boa em seniores, através de vitórias “para animar a malta” – em basquetebol, no Funchal, ao CAB Madeira, em futebol ao Luso, no reencontro dos dois verdadeiros velhos rivais da nossa terra.
C. A.
e
Manuela Fonseca *
*Colunista do Jornal Rostos
Referências
(1) Os documentos citados não figuram neste texto.
(2) Mulher e filha de C. A..
(3) Partido Comunista Português.
(4) Partido Revolucionário do Proletariado.













