Os EncontrosPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Isabel do Carmo, médica e professora eminente, também dos nossos mais brilhantes intelectuais, entre o muito que, em tipologia diversa, tem escrito ao longo de décadas, produziu, por um destes dias, para o Jornal “Público”, um texto que, através de correio electrónico, circula por Portugal – desejo e espero que ultrapasse, já, fronteiras.
Para quem não possui tal ferramenta, “façamos nós, por nossas mãos” (1) as fotocópias necessárias que entregaremos, como os mais velhos faziam no tempo do fascismo, às vezes mesmo nas barbas da polícia por não haver outro remédio, e entreguemo-las a quem delas necessita.
Eis o que li e aumentou a minha desinquietação com o rumo para que uma gente qualquer está a querer empurrar-nos: “Vamos empobrecer. Já vivi num país assim. Um país onde os ‘remediados’ só compravam fruta para as crianças e os pomares estavam rodeados por muros encimados por vidros de garrafas partidos, onde as crianças mais pobres se espetavam, se tentassem ir às árvores. (…)
Na terra onde nasci, os operários corticeiros, quando adoeciam ou deixavam de trabalhar vinham para a rua pedir esmola (…)” (2).
Essa terra é a minha, o Barreiro, onde Isabel do Carmo e eu fizemos amizade. Terra exemplar na Resistência à ditadura, todos o sabem no País, altiva na sua humildade, em herança na qual homens e mulheres, afrontaram, desde pouca idade, com honra, o perigo de “bufos”, “pides”, chefes e patrões sem escrúpulos que, quando o conseguiam, os denunciavam, prendiam, desempregavam, punham na miséria – bem como, claro, em tantos locais de Portugal, mormente os de forte raiz operária e o Alentejo dos (tão mal) assalariados agrícolas. Onde se acrescentava, ainda, sacrifícios para os filhos estudarem e, um dia, mais preparados para os desafios da vida do que os progenitores, ido o salazarismo, pudessem ser mais felizes.
O que, associado à enorme alegria pelo 25 de Abril, propiciou que muitos dos jovens de então atingissem desempenhos que lhes deram, para além do pão, mérito e satisfação pelas tarefas desenvolvidas em prol de um novo País que sonharam estar a construir, que desejaram construir.
Pertenci a esse grupo, enorme, que ousou tentar mudar Portugal; por mim, o estudo e o trabalho ao mesmo tempo não foram prejudicados pelas manifestações, nas horas de júbilo (tantas!) em que participei.
Fui, com os sentimentos sociais, positivos, que aprendi na minha família, na minha terra, professora. Vi e colaborei num Portugal mais moderno e afortunado – apesar de tudo, ainda não o subtraíram por completo –, vi pais e avós construírem parques infantis, remodelar escolas, arranjar Sociedades de Cultura e Recreio.
Vi o País ficar muito mais letrado, culto, solidário. E com apoio, notável, na saúde. Testemunho isso junto de alguns para os quais o salazarismo é algo de ténue – mal explicado nas escolas e nos conteúdos programáticos a que as mesmas foram, obviamente, sendo obrigadas a seguir, num recuo, anteontem naquele assunto, ontem num outro.
Com o afastamento temporal de “Abril”, vi fábricas fechadas em vez de modernizadas, gente sem idade ou utensílios, manuais e intelectuais, para tentar algo de diferente, os (mal) eleitos no aconselhamento – que não faz falta para eles, e os seus, uns e outros numa ascensão, injusta, nova classe de privilegiados que para aí se pavoneia – de que os mais necessitados, os cada vez mais necessitados se transformassem, e, agora mais do que nunca, que parolice, se transformem em empreendedores, espécie de filhos de fadas românticas que vão, a correr, encontrar dinheiro e competências para isto e aquilo que dê nas cabeça e vozes que para aí andam no ar e, paradoxalmente, não dê encargos a este Estado(zinho) (quase de sítio) que, ignorantes, os “conselheiros” nem conhecem nem querem conhecer. Nem gerem.
Sim, vejo muito dislate, quem manda aqui, na “quintinha”, ser cada vez mais subserviente com algumas nortadas e agressivo com o povo, esse mesmo que, maioritariamente, por certo o elegeu.
Vejo centenas de colegas meus, na Suíça, colocados, de um momento para outro, no desemprego, com uma vergonhosa e ridícula desculpa de um qualquer, ainda por cima à frente de câmaras televisivas.
Vejo os que afrontam os direitos dos cidadãos (professores, outros profissionais, estudantes, imigrantes, pessoas sem emprego), numa navegação à bolina. Que pode começar a contar os dias.
Até lá, dores de cabeça, outros incómodos, faltas de suporte financeiro. Manifestações e greves. Tantas quantas façam falta para “eles” perceberem que não somos bonecos articulados.
Há outros ventos dos quais sentiremos as belas consequências; os da História – que trarão o dinheiro roubado e escondido aos Portugueses e a outros Povos, a Dignidade de Viver, no encontro da Economia com as Populações, da Justiça com o Trabalho, o Apoio Social e o Lazer.
Manuela Fonseca
(Professora aposentada, suplente da direcção sindical do SPGL, membro da Universidade da Terceira Idade do Barreiro – UTIB –)
Referências
(1) Excerto de “A Internacional”.
(2) “crise económica, isabel do carmo, público
publicado por Carlos Loures (…)”.
aviagemdosargonautas.blogs.sapo.pt/612170.html, consultado em 12/12/2011.













