Lurdes Sales [Pereira]: uma Vida ExemplarPor Manuela Fonseca
Barreiro
Por Jornal Rostos
(Barreiro, 15 de Dezembro de 2011)
Querida Lurdes
Há quase quarenta anos, nas andanças contra a ditadura que nos roubou tanto da juventude que não a força de fazer o possível por vê-la cair, o teu companheiro e eu travámos conhecimento numa reunião clandestina onde, embora ausente, o Zeca Afonso foi o protagonista porque o mais citado pelo companheiro que nos acolheu, a sabedoria no discurso, um sorriso nos lábios, a veemência nas convicções.
Chegou “Abril” nesse dia 25, para nós perene, de júbilo e início de fuga de bandidos comprometidos com o regime, aliás, “coitados, todos vítimas de calúnia”, os patifes. Mais laços estreitei com o António, em camaradagem partidária de muitas horas nas quais vi nele algo do jornalista, ilustre, que hoje é.
O tempo passou, a balança política pendeu para o lado da “estabilidade deles” – de tão pouco calibrada, a pobre já nem pesa o que continuam a sugar-nos –, as manifestações (que, infelizmente para a população, voltam à ordem do dia pelas razões que todos conhecemos), tornaram-se mais escassas.
Consolidámos carreiras académicas e profissionais, constituímos família, quase deixámos a solidariedade de rua.
Do trabalho corríamos para os filhos, em boa hora chegados, parte da razão das nossas vidas, e passámos por um período em que nos vimos com menos frequência.
E, assim, embora soubéssemos uns dos outros, olhávamos um pouco para dentro, com novas responsabilidades que se sobrepuseram às da colectividade, quiçá asneira que foi uma das que propiciaram o caldo que transborda no estúpido momento que a maior parte dos portugueses agora sofre.
Sabia da mulher do Sousa, dos primeiros filhos do Sousa e nenhum deles conhecia.
Quando fomos apresentadas pelo teu marido, exprimi um sentimento de bem-estar por perceber a empatia do casal que formam, o amor e as responsabilidades partilhados com os dois descendentes (a chegada da Marta seria inventada depois), os desígnios que, para ambos, em vós se complementavam.
Ambas dialogámos acerca da maternidade, da profissão comum (a aposentação de hoje, na corrida dos anos, não nos rouba o gosto pela docência, o conselho aos mais jovens, caso o peçam, que nos seguiram na actividade, alguns actos públicos, solicitados, próprios do exercício de décadas), do caminho do País que não estava a agradar-nos, da perda de alguns sonhos que as infâncias pouco fáceis nos tinham dado.
E outros parentes queridos foram lembrados então.
O Sousa, irmão que adoptei, continua a ser o maior elo entre nós, esse bem-humorado por quem continuas em paixão e embevecimento – desculpa a referência que, de qualquer forma, é pública.
Lurdes, os teus dotes artísticos, entre os quais incluo os culinários, chegaram-me bem mais tarde, admirada, na tua residência, com os aromas agridoces misturados com o que o António me mostrava das tuas produções em Artes Visuais que nos proporcionaram palavras/cinestesias inesquecíveis.
Como cruzas o imaginário – no gosto pela busca de cores e tonalidades – com a destreza!
(E o cozinhado de peixe – a minha sogra sempre o referiu, no carinho que nutria por vocês – ainda está na memória olfactiva.)
Tantos anos, Lurdes, tantas as facetas em prol de outrem que nos tens dado!
Aqui exprimo a que mais me tocou: tu e o António levaram-me ao hospital, numa madrugada em que, aflita, vos pedi ajuda, logo prestada.
Ocorreu no momento – eu ignorava-o – que ia ser seguido de repouso do casal porque acompanharas, durante horas nocturnas, seguidas de horas nocturnas, o trabalho de um marido sem horários.
Muitas pessoas me disseram que estariam comigo em alguma impossibilidade dos meus; poucas, entre as quais tu, vocês os dois, concretizaram isso.
Lurdes, num soneto que fez em quadra natalícia, encarcerado político, D. Francisco Manuel de Melo escreveu, de forma inesquecível, a uma pessoa de família:
“ Que vos hei-de mandar de Caparica
De que vós, Prima, não façais esgares?
Porque de graças e bênçãos aos pares,
Disso, graças a Deus, sois vós bem rica.”
Quase estou como esse Grande Mestre das nossas Letras em relação a algo de novo que possa dar-te.
Recentemente, no dia 27 de Novembro, a “SFAL”, a tua “SFAL”, no fim da “12.ª Mostra de Teatro do Lavradio”, homenageou-te na faceta de mulher ligada, há décadas, a essa Arte de Palco.
Acto de um grupo de homens e mulheres bons que contou com a presença do Presidente da Câmara Municipal, Senhor Carlos Humberto de Carvalho, que a todos honrou, um amante e conhecedor profundo da Cidade e do que nela se faz para que o Barreiro – com ou sem comboios, com ou sem pontes ou subsídios – continue na rota da Dignidade.
Não me foi então possível a presença física, o calor de um abraço, o prazer de presenciar a admiração que todos têm por ti, a justiça que te foi prestada.
Mas a Alegria da tua Alegria acompanhou-me e acompanha-me.
Lurdes – cidadã multifacetada, sabedora, interventiva, virada para os problemas dos outros e os seus sentimentos e necessidades –, és um exemplo no meio em que estás inserida; quando vencermos a “crise” que os agiotas e ladrões, quotidianamente, renovam para nós e os mais prejudicados, terás que surgir no Livro das Mulheres e Homens Bons do Barreiro, na transição destes dois séculos.
Obrigada, Lurdes Sales [Pereira], pela Luz que nos dás! Continua!
Recebe, querida amiga, mais uma prova de admiração e um beijo da tua
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













