Teatro no Barreiro(Uma Abordagem)
Por Manuela Fonseca

Por Jornal Rostos
(À Dr.ª Ana Teresa Xavier)
Era menina. Os meus pais falavam-me de Mestre Herculano Marinho., inesquecível actor.
Teve um dia que ultrapassar o pequeno acidente que lhe aconteceu, à boca de cena, quando a bilha que transportava e também lhe fazia a personagem caiu, com aparato, logo quebrada em mil fragmentos.
Terá, então, dito, sem o mais pequeno sinal de atrapalhação, linguística e comunicacional:
– Trazia esta bilha que se partiu…
E continuou, imperturbável.
Honraram-no, os filhos, também Artistas, os Professores Etelvina (de piano) e Américo (de Desenho) Marinho.
(Bem me dói ver a degradação no edifício que lembra o docente, apesar de novo e numa zona embelezada do Barreiro.)
O pequeno episódio que partilho convosco faz-me ter saudades de Osório Mateus, professor universitário que, aos sábados, abria a porta da Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa para dar aulas, graciosamente, ao trabalhadores que, como eu, tinham, nesse dia, um dos poucos para a frequentar.
Cidadão empenhado no progresso do País e homem de Teatro, em várias vertentes que, bem cedo, partiu: “(…) do lado do teatro (do seu texto, entenda-se) deparamos com um código de execução que, uma vez cumprido, engendrará então um código de representação.” (1).
Mestre Herculano Marinho, apesar da e na inesperada ocorrência serviu da melhor maneira estes códigos para levar o espectador à fruição da sua personagem e do momento: “(…) a relação do prazer com o texto dramático é efectivamente um gozo na perversão.” (2)
Um gozo que as Artes desencadeiam em nós, em provocação para que vamos ao encontro dele e delas.
Um gozo que, na nossa terra encontramos, em tantas manifestações de Cultura.
(“Que feio!” – dizem, a propósito do Barreiro, os que são incapazes de apre(e)endê-lo e têm dificuldade, grada, em definir construções de belo; os que as entendem, apenas, como algo de sumptuário.
O Teatro no Barreiro, o Teatro do Barreiro em outras terras, o que vem cá, o que é passível de estudo, o que nos apaixona, nos forma, nos faz rir, transpirar e agitar na cadeira, chorar de alegria, raiva, desgosto ou tristeza: o Teatro.
Em 2011, a Cidade continuou a obsequiar-nos com as Companhias e Grupos que fazem e farão a sua História e até um(a) pequeno(a) texto dramático (?) / peça (?) que produzi para o Centésimo Aniversário do Futebol Clube Barreirense, “O Comboio da Pedra”, título lembrado pelo Dr. Paulo Calhau, em honra da construção, heróica, do nosso Ginásio-Sede.
No dia da estreia, confesso-vos, já nem me lembrava de que gostaria que tivesse ocorrido em 11 de Abril de 2011, cem anos passados, então, sobre a fundação do Clube e no Ginásio-Sede pela razão já enunciada.
Foi a 11, sim, mas de uma tarde de Dezembro, na SIRB-Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense (“Os Penicheiros”) que tão bem figurou aquele edifício pelo trabalho empenhado de todos os intervenientes e a emoção dos espectadores.
Voltaram o Barreirense, o Ginásio-Sede, o Barreiro das décadas de quarenta e cinquenta, o da Solidariedade, do Trabalho e das Artes, através do UTIBTeatro, pela mão sábia de Luciano Barata, encenador, director e homem de múltiplas tarefas que se cruzam e completam.
Pela mão dos actores seniores e alunos da Escola D. Luís de Mendonça Furtado, as crianças numa simbiose, radiosa, com gente de idade, num dos caminhos de novas interacções sociais que se (re)constroem por toda a Aldeia Global e serão uma das razões de sobrevivência da Humanidade.
Que dizer, ainda, da excelência da equipa de coreografia, constituída por formandos dirigidos pela colega Inês Nunes, numa presença, tal como a dos actores da UTIB, que parece indicar-lhes Bilhete de Identidade ou Cartão do Cidadão com idades enganadoras?
E do trabalho do Mestre de Pintura Seixas do Carmo que nos deixou estupefactos, a olhar para as pedras, passadas de mão em mão até à transformação no Ginásio-Sede, mais de cinco décadas passadas?
De louvar, ainda: Alexandra Nunes na elaboração do cartaz, Lisa Maria – cantora que não tinha medo do fascismo – em voz clara e trabalhada.
E agradecer os apoios da SIRB e Associação Projéctor.
Curiosamente, nada disto disse, após ter sido chamada ao palco, no fim da representação.
A proximidade, física e de intervenção num dos órgão da Cidade, a UTIB, a situação de, directa e indirectamente, ter trabalhado, durante trinta e sete anos, com jovens da idade dos discentes da “Mendonça Furtado” silenciaram-me.
Agora, passado um mês, e no recato que o acto de escrita me permite, fica, aqui, a admiração por todos os que transformaram um pequeno tecido dramático numa elaborada peça teatral; bem hajam todos!
Do Teatro que se faz em palco a questões acerca do mesmo: “ Algumas das interrogações que têm sido colocadas a plateias portuguesas e estrangeiras e que partem da investigação que no Centro [de Estudos de Teatro] se vai activando, reportam-se a questões temáticas como a relação entre ficções dramatúrgica e cenográfica, (…), o confronto entre corpos em palco e práticas cénicas (…)” (3).
Ambas podem, parece-me, ser respondidas com “O Comboio da Pedra”.
(Paula Magalhães que já citei neste periódico por ser membro da ArteViva, Companhia de Teatro do Barreiro, é uma das investigadoras da obra atrás indicada.) (4)
Volto à infância, pergunto e acto contínuo digo ao meu marido:
– A tua primeira peça foi no Cinema-Ginásio, “ Cinderela”?
Vi-te nela, tão miúdo ainda!
Pára a actividade doméstica que executamos e olha para mim, um pouco admirado:
– Eras muito pequena, com certeza…
“A Gata Borralheira”, assim lhe chamámos.
Falo-lhe, quase em outro tempo:
– Sim, estou a ver se as recordações e os afectos, longínquos, se transformam em palavras.
Parece-me que foi no fim dos anos cinquenta porque a “Nani” já tinha nascido e o Rui nem devia ser, ainda, um projecto (concretizado no princípio da seguinte).
Acompanhei, naquela tarde – tantas vezes o fiz –, os primos e padrinhos (ele, por afinidade) Maria Lucília Horta Almeida e Samuel Almeida, pais dos que são padrinhos do meu primogénito (em tradição de família que mantivemos) – ao Cinema-Ginásio.
Revejo a sala cheia, o divertimento das crianças. E a aflição por causa de Cinderela ter perdido o sapato no baile real. Lá em baixo (eu estava no balcão), o palco com muito movimento, cor e brilho, som bem audível, lindo guarda-roupa, briosa representação, o meu futuro marido, garoto magro, a fazer momices. (Talvez já fosse talentoso, não sei.)
– Eras o Bobo? Fizeste-me rir a bom rir.
E continuas, sobretudo quando alguns politiqueiros da nossa falta de estimação aparecem na televisão.
Olha-me e exclama, desdenhoso dessa gente sem préstimo:
– Ao ouvir esses “abutres de uma figa” a perorar, ofereço-lhes, com as gargalhadas de desprezo, um bocadinho do que merecem, só um!
Tudo o que deles se diz ainda é pouco; como nos têm gozado, sem desistência, os piratas!
(Chega aos setenta anos e vê Portugal neste estado, em colisão com os sacrifícios que se fez e faz pelo País, em colisão com os sacrifícios dele, alguns, bem duros, porque o fascismo o obrigou a isso.
Estamos numa situação, infelizmente calamitosa, que contraria qualquer personalidade, quanto mais a dele, síntese de espírito libertário e dadaísta.
Quando se “zanga” com essa gente – acho que exagera mas respeito o ancião que já é, embora nem me lembre disso – tem por hábito comentar:
– O que já dei à Pátria, coitada! Para quê? Sempre nesta “balda”!
Suponho que utiliza “a Pátria” por causa da Guerra Colonial mas nada lhe pergunto; como em quase todos os lares portugueses dos que nela participaram, o eventual trauma continua silenciado.)
O palco do Cinema-Ginásio, sob a encenação – então, o encenador era o ensaiador – de Vítor Soares, funcionário do Serviço Social da CUF, teve uma das suas belas “matinées”.
(Tal Serviço situava-se, no que, há bem pouco tempo, foi o primeiro edifício da Escola Superior de Tecnologia da nossa Cidade, penso que em bonita homenagem ao Bairro Operário, e abarca agora, talvez não por coincidência mas por ser num espaço muito agradável, diversas actividades relevantes da Câmara Municipal do Barreiro – a duas das quais me ligam pequenas colaborações prestadas – e deste Concelho.)
Chegam-me, tenuemente, os aplausos, a pequenada em êxtase.
E lá está o belo e feérico coche que elevou a Gata Borralheira à categoria de Princesa Real, num dos mitos que ultrapassam a História e nela perduram, na alimentação de desejos de felicidade.
Muito gostaram os meus padrinhos do espectáculo!
(Samuel Almeida, um portuense, Agente Técnico, designação e invenção salazarenta para os actuais Engenheiros Técnicos, radicou-se e constituiu família no Barreiro, ao unir-se a uma pessoa da minha.
Falou, sempre com saudade, da terra natal aonde várias vezes voltou quando ia ter com os pais e irmãos – mas nunca deixou o Barreiro.
Homem que muito se esforçara para estudar, oriundo de comerciantes que viveram com relativa prosperidade e a perderam, fora operário ao mesmo tempo que corria para o Instituto Industrial do Porto, onde se diplomou em Engenharia Mecânica.
Era um erudito que sabia e discutia, com propriedade, os mais variados assuntos. Admirava-lhe o discurso que, em segredo, só revelado por esta via, desejava imitar.
Fora, na “melhor cidade de Portugal”, desportista de eleição a quem uma grave lesão impediu, já quase na altura do acontecimento, a ida aos Jogos Olímpicos de Helsínquia, em 1952.)
O padrinho falou, com orgulho, da empresa e da obra que ela desenvolvia na educação e lazer – se consigo, ainda, reconstituir algo do que lhe ouvi.
Foi um dos muitos Barreirenses adoptados pela nossa terra, afectuosa e especial.
(Se ainda estivesse entre nós, seria um defensor da obra de Alfredo da Silva, na polémica que, no Barreiro, se dirime a propósito da mesma.)
Do caminho de Samuel Almeida ao do Barreiro e a mais um livro acerca de Teatro por uma Associação de cá: “Percursos… 15 Anos de Existência: 1996-2011”. (5)
Nele estão as ideias, práticas e deambulações da Associação Projéctor, Companhia de Teatro do Barreiro, obra apresentada na Primeira Festa de Teatro da Cidade do Barreiro, em organização daquela, em Novembro passado.
Livro a ler e a ver. Com cuidado e amor.
Como me ri e meditei, em amargura, neste inicial evento, na representação (a única a que pude assistir) do TELA – Teatro Estranhamente Louco e Absurdo, grupo de Águas de Moura, na obra “Charlatão” do versátil, laureado e viajado autor latino-americano Osvaldo Dragun, também encenado pelo criativo, competente e incansável Luciano Barata, Fundador e Director da Associação antes focada.
“O Charlatão” terá ultrapassado, pelo grotesco, tão bem desempenhado, parte da realidade em que uns figurões querem manter-nos: amarrados, incomodados, impotentes.
Revoltados, em ditadura hipócrita pela abrangência das ilusões democráticas, cada vez mais longínqua a Democracia.
Forma de roubo de direitos e liberdades que espíritos práticos querem, sem violência, acabar, no encontro de melhores dias: Livres, de facto.
Enquanto teoria e prática não se harmonizam, continuemos a crescer, aqui e agora.
Com o Teatro.
Manuela Fonseca*
*Colunista do Jornal Rostos
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Referências
(1) J. A. Osório Mateus, Escrita de Teatro. Amadora, p. [45], Livraria Bertrand, Col. Crítica Hoje (3), [p. 45], 1977, 263 [+ 1] pp..
(2) Idem, ibidem.
(3) Centro de Estudos de Teatro (Investigadores: Ana Campos et al.). Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia (n.º 279), Faculdade de Letras de Lisboa, p. 9, 2009, [Texto Bilingue Português-Inglês], 32 [+ 2] pp..
(4) Cf. Manuela Fonseca, O Livro «Trinta Anos de ArteViva…») (Ou a Companhia de Teatro do Barreiro). In “Rostos.pt” de 19/1/2011, consultado em 17/1/2012.
(5) Percursos… 15 Anos de Existência: 1996-2011: Associação Projéctor: Companhia de Teatro do Barreiro. [Barreiro], 2011, 144 pp..













