Olha a cegada!Por Jorge Fagundes
Barreiro
"A quem o dizes. Além de outras, nos Franceses e nos Penicheiros era cá cada enchente!"
"Mas não foi desses folguedos carnavalescos que eu ontem me lembrei".
"Então, de quais foram?"
"Recordei-me daqueles grupos de foliões que se organizavam, e mascarados a preceito, andavam pelas nossas ruas num cortejo a que então se chamava uma cegada".

Por Jornal Rostos
Esta manhã, quando no Mercado 1º. de Maio fazia algumas compras, encontrei, na mesma tarefa, o meu velho Colega e Amigo da Escola Alfredo da Silva, o qual me convidou para ir até uma das esplanadas beber uma bica e trocar dois dedos de conversa.
"Então, ontem, estavas à varanda a ver o desfile das crianças das escolas".
"É verdade. Onde estavas?"
"Na esquina, em frente do teu prédio, a tirar umas fotografias do cortejo. Foi muito bonito e até te pago um pastel de nata se advinhares o que me veio à cabeça".
"Sei lá. Quando andávamos na Escola não havia destas coisas".
"Pois não. Nesses tempos o Carnaval era, fundamentalmente, festejado nas nossas colectividades, sempre a abarrotar de folgazões".
"A quem o dizes. Além de outras, nos Franceses e nos Penicheiros era cá cada enchente!"
"Mas não foi desses folguedos carnavalescos que eu ontem me lembrei".
"Então, de quais foram?"
"Recordei-me daqueles grupos de foliões que se organizavam, e mascarados a preceito, andavam pelas nossas ruas num cortejo a que então se chamava uma cegada".
"Nunca assisti a nenhuma. Mas, trabalhando na CUF, conheci um participante de uma dessas cegadas, pelos vistos famosa. Era contínuo, bom homem e popularmente conhecido como rei Matreco".
"Também o conheci. As cegadas, creio que já extintas, constituiam uma forma jocosa de crítica social e, até, de crítica política".
"Ora bem. Mesmo sem ter direito ao pastel de nata, diz-me lá o porquê de associares o cortejo das crianças às antigas cegadas".
"Nos tempos que correm, motivos não nos faltam, infelizmente, para ressuscitar as cegadas".
"Como?"
"Apenas duas sugestões, entre as muitas e muitas possíveis: um grupo de mascarados de lavradores, precedido de um tractor conduzido por uma foliona travestida de ministra da especialidade cantando, alto e bom som, a marchinha tomara que chova, tomara que chova, três dias sem parar".
"Essa é boa. E a outra?"
"Aí vai: uma vespa cujo condutor vai mascarado de ministro da área respectiva e leva, desfraldada, uma faixa dizendo que a baixa de natalidade dos portugueses é motivo de grande preocupação".
"Só isso?"
"Não, não. Logo atrás, um grupo de mascarados de recém-casados com cartazes onde se lê: como querem que tenhamos filhos se não temos, ou nos tiram os empregos, e cortam os abonos de família?"
Jorge Fagundes













