O Gaiteiro, o Gauleiter e uma CaravelaPor Pedro Estadão
Barreiro

Por Jornal Rostos
Enquanto cogitava sobre a melhor forma de educar o meu filho, que está agora na fase de começar a formular as primeiras frases, dei por mim com um livro de contos de fadas nas mãos a inquirir-me sobre quais seriam os princípios morais que estaria a ensinar à criança lendo-lhe um ou outro dos textos ali presentes. Como sei que é importante não só ler, mas também, saber explicar e simplificar, lancei-me na leitura do livro e na reflexão sobre os seus conteúdos para que, no futuro, não seja apanhado desprevenido por uma pergunta engenhosa daquelas que só as crianças conseguem fazer e que nos deixam completamente desarmados. Ao passar a Introdução do livro, bati com os olhos no primeiro conto e, ao terminar a leitura das apenas três páginas que contam uma história sobejamente conhecida, dei por mim estupefacto com a simplicidade com que o autor nos faz ficar frente a frente com dois poderosos, complexos e actuais, conceitos da governação dos Estados e das Famílias. Notavelmente, estes dois conceitos são perfeitamente adequados à situação que o nosso país atravessa neste momento.
Charles Marelles passou ao papel uma história do folclore europeu que pretende explicar, em forma de fábula, a existência de uma significativa comunidade de alemães num daqueles sítios onde o Judas perdeu as botas que é nem mais nem menos que a montanhosa região da Transilvânia, no Leste da Roménia. Esta fábula é "O Gaiteiro de Hamelin" e começa com esta cidade do centro da Alemanha infestada por ratos e acaba por finalizar com a explicação da existência de uma comunidade germânica a viver isolada do mundo no meio das montanhas da Transilvânia. Encurtando a história, que é sobejamente conhecida, apresenta-se o Gaiteiro que promete livrá-los dos ratos, os cidadãos entregam a solução do problema ao chico-esperto do Gauleiter (afirmando: deixem o caso com o presidente) que se apressa a negociar a remoção da infestação de forma truculenta. O Gaiteiro remove os ratos da cidade e, ao tentar receber a sua justa paga, percebe que foi enganado e diz que "se não pagarem agora, serei pago um dia pelos vossos filhos". Foi gozado por todos e, por fim, num certo Domingo, enquanto os pais estavam na missa, o Gaiteiro aparece na cidade, leva as crianças todas com ele e estas nunca mais são encontradas.
Uma lição fundamental desta história é que não devemos deixar nenhum governante agir por conta de todos sem explicar bem o que é que vai fazer, a outra é que: se não assumirmos as nossas responsabilidades, serão as gerações futuras a pagar a factura. Também se pode argumentar que esta fábula, (sim, é uma fábula, pois tem um rato que fala), nos ensina que não devemos deixar nas mãos dos governantes, (sobretudo se forem chico-espertos), a solução dos nossos problemas. Se os habitantes de Hamelin tivessem tentado ajudar a remover os ratos, matando alguns, a conta a pagar não teria sido tão grande e não teria havido necessidade de ludibriar o Gaiteiro.
Acontece que o país em que eu nasci, se encontra hoje nas precisas circunstâncias em que a cidade vizinha do local de nascimento da senhora Merkel se encontrava no início da história que Marelles escreveu. Só que os ratos são uma dívida colossal, o Gauleiter é o Passos Coelho, o Gaiteiro é a Troika e nós ainda vamos a tempo de tentar matar uns ratos para, no final, a conta não ser tão grande, porque o custo de ver toda uma geração a emigrar para sítios onde Judas perdeu as botas é insuportável e vai comprometer ainda mais as gerações futuras. Ainda que eu tivesse alguma fé na capacidade deste governo resolver sozinho a situação em que nos encontramos, (que não tenho), e acreditasse que o paternalismo é um substituto válido para a competência, (o que não acredito), teria dificuldade em ausentar-me desta equação e deixar aos outros a solução dos problemas que também me afectam, despreocupando-me alegremente da situação. Por isso, penso que todos os esforços que forem possíveis, quer individuais quer colectivos, para fazer parte da solução são positivos e retiram espaço ao livre arbítrio governativo e todos os momentos de ausência, desleixo e falta de atenção são geradores de situações em que este governo se permita estender ainda mais o tempo de pagamento da dívida e comprometa uma geração para além da minha, e isso eu não posso permitir.
A incompetência visível, a imoralidade latente e o paternalimo soez deste governo obriga-me a um esforço suplementar de cidadania que se reflete no meu dia-a-dia e a uma reflexão constante sobre as decisões correctas e incorrectas que tomo e sobre o contributo que eu próprio, como cidadão, posso dar para mudar as coisas. Algumas pequenas acções e algumas grandes decisões, se tomadas por um número suficiente de nós são um contributo enorme para a superação do momento em que nos encontramos. E são coisas que podemos decidir por nós e que não dependemos de governo algum para nos ensinar, porque são lógicas, dependem unicamente de nós e, não interessando se correspondem a alguma mensagem dos governantes ou não, são acções que podemos praticar na nossa vida que retiram espaço de manipulação a quem está por detrás de toda esta trama económica e financeira.
Nas pequenas coisas considero fundamental a poupança de energia e de todo o tipo de recursos, a intensificação da reciclagem, a procura da produção local, o preferir os produtos nacionais aos bens importados do estrangeiro. A simples decisão de utilizar um banco exclusivamente nacional em lugar de outro controlado por capitais de origem desconhecida é um passo no bom sentido. Sermos ainda mais diligentes, profissionais e eficientes no desenvolvimento das nossas profissões e tentarmos ser cada vez melhores e mais produtivos. Dar exemplos de boa cidadania, ajudando os colegas e os vizinhos quando estes nos pedem assistência. E, fundamentalmente, estar envolvidos na vida das nossas famílias e activamente empenhados na educação da próxima geração, para que esta não tenha que vir a passar pelo mesmo que a nossa.
Nas grandes decisões encontram-se: o esforço das famílias para evitar o crédito e tentar, tanto quanto possível pagar o que entretanto se adquiriu; o procurar formas produtivas de aplicar o nosso tempo e os nossos esforços como cidadãos, participando activamente na vida das associações profissionais, nos sindicatos e nos partidos políticos. Tudo isto está ao nosso alcance e não é preciso vir nenhum Ministro dizer-nos que somos piegas e preguiçosos, porque sabemos que não somos e até ficamos ofendidos. Hoje, mais do que nunca, aplica-se o famoso adágio de Kennedy: "não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, pergunta o que tu podes fazer pelo teu pais", porque, para mim, já é certo que não vai ser este Gauleiter a resolver o problema sem comprometer seriamente a vida da próxima geração, por isso, vou tratar de matar o máximo de ratos que conseguir encontrar, para que a conta seja mais pequena.
Também decidi não voltar a dizer a palavra começada por "C", porque penso que não é uma palavra positiva. Em Chinês, o mesmo caractere também designa a palavra "oportunidade", e acredito que a nossa motivação terá de vir do esquecimento da primeira palavra e da procura da segunda. A este propósito surge-me uma metáfora. Há quinhentos anos era tradicional as caravelas trazerem dois olhos pintados à proa, pois existia na época a crença de que "assim veem o caminho", esta tradição perdurou até aos dias de hoje, (pode-se observar nos barcos de pesca, por exemplo). Estas caravelas com os olhos pintados eram vistas pelos nativos africanos como animais, bestas que carregavam os homens brancos e a visão dos olhos pintados no breu da noite inspirava-lhes terror e colocava os mais bravos em debandada. Hoje, estamos no breu da noite de frente para os olhos da caravela, podemos fugir de medo ou ver mais além e perceber que o que ali se encontra não é um espirito maligno mas uma oportunidade. A escolha cabe a cada um de nós e felizmente, não depende inteiramente de nenhum governo. Quanto a mim, vou andar à procura de transformar a visão aterradora que me afronta como uma oportunidade, e gostava que houvessem mais portugueses a pensar como eu. E você por onde vai, vai fugir ou saltar para dentro do barco?
Pedro Estadão













