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Portugal: República soberana?Por Jorge Fagundes
Barreiro

"Achas? Se o é, porque razão, volta não volta, estão cá uns senhores, bem vestidos e certamente bem pagos pelos respectivos patrões, uns e outros não eleitos, a verificar se nos portamos bem? E a autorizar, sim, a autorizar, que o nosso Governo, resultante de eleições livres e democráticas, faça certas despesas. Por exemplo, vem aqui no jornal que esses cavalheiros autorizaram o pagamento de despesas de saúde".

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Portugal: República soberana? Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Apesar da manhã de nevoeiro, o meu velho Amigo e Colega da Alfredo da Silva lá estava, na mesa habitual da esplanada junto ao Mercado Municipal, absorto na leitura de um livrinho.
"Bom dia. Então estás a ler as profecias do Bandarra e à espera de D. Sebastião?"
"Bom dia. Senta-te, senta-te. Ainda que estejas a ironizar, em boa verdade, com o rumos dos acontecimentos, mais dia, menos dia, voltaremos a esperar, com ou sem nevoeiro, por um novo D. Sebastião".
"Mas, agora reparo que estás a ler a Constituição da República Portuguesa".
"É verdade. Embora, em poucos anos, já tenha sido sujeita, salvo erro, a sete revisões, há um certo número de princípios fundamentais que se têm mantido".
"Tens razão. E já se volta a falar em mais uma revisão. Nisto até batemos os americanos que têm uma única Constituição desde 1787, à qual, ao longo de mais de dois séculos, apenas acrescentaram algumas emendas. Mas a que propósito estás a ler a nossa Constituição?"
"Estou a relê-la, e bem o deveria fazer a nossa classe política que, pelos vistos, só dela se lembra quando, às vezes, lhe convém".
"Estou de acordo contigo. Mas, explica lá o porquê dessa leitura".
"Senti necessidade de fazê-lo em função do que, diariamente, vem a lume na nossa comunicação social. Às vezes até sinto a impressão de que estou a viver noutro país".
"Mas, porquê?"
"Ora repara, logo no artigo primeiro vem que Portugal é uma República soberana".
"Não é?".
"Achas? Se o é, porque razão, volta não volta, estão cá uns senhores, bem vestidos e certamente bem pagos pelos respectivos patrões, uns e outros não eleitos, a verificar se nos portamos bem? E a autorizar, sim, a autorizar, que o nosso Governo, resultante de eleições livres e democráticas, faça certas despesas. Por exemplo, vem aqui no jornal que esses cavalheiros autorizaram o pagamento de despesas de saúde".
"De facto custa a engolir que esses senhores, sendo funcionários mais ou menos qualificados das instituições, não eleitas, que os têm ao seu serviço, ponham e disponham a seu belo prazer de todos nós, amparados nas costas, bem largas, de uma senhora chamada D. Crise".
"Atenta mais nesta. Além de Portugal ser uma República soberana baseada na vontade popular, temos que essa soberania, una e indivisível, reside no povo. Mas, para entrarmos na Comunidade Europeia, o povo foi ouvido? Para termos uma nova moeda, o povo foi ouvido? E, tendo o povo sido consultado para eleger uma Assembleia da República e daí resultar um Governo, foi ouvido para esses tais funcionários mandarem nesse mesmo Governo? E se o povo foi ouvido para eleger os órgãos das Câmaras, das Juntas de Freguesia e das respectivas Assembleias, também já foi ouvido para reduzir o número de Câmaras e de Juntas de Freguesia?"
"Estás certo. Mas tudo isso não é, como nos dizem, para bem futuro do povo? Não percas a esperança. Dias melhores nos aguardam!"
"Não sejas tão crédulo, meu velho e caro Amigo. Um dia destes esses senhores até vão mandar requalificar a canção do Zeca Afonso tirando de lá aquela parte em que o povo é quem mais ordena!"

Jorge Fagundes

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