Governo de EntrudoPor Manuela Fonseca
Barreiro

Por Jornal Rostos
Estávamos em 1960; eu terminava a quarta classe e a paragem carnavalesca trouxera divertimento a todos os estratos sociais. Em breve chegaria a Quaresma e vários cristãos não deixavam de brincar, sabendo que as graças, decentes, não lhes prejudicavam as convicções religiosas.
Íamos para a rua mascarados, os pequenos barreirenses, oriundos das classes trabalhadoras e médias. Estes com fatos mais aprimorados, nós com o que as mães e a família arranjavam.
Encontrávamo-nos nos mesmos locais, as Sociedades de Cultura e Recreio, em momento alto da vida associativa, cheias de operários, escriturários, doutores e engenheiros, miúdos e graúdos, homens e mulheres, todos em folia.
Até os detentores do poder festejavam, no Estoril, o inesquecível actor francês Fernandel como principal figura convidada. (1)
Uma canção de Maria Clara, “O Rei do Carnaval”, alusiva à chegada do prestigiado artista – parece que ainda estou a ouvir a linda voz da mãe de Júlio Machado Vaz –, sucessivamente passada na rádio e a população a trauteá-la. (2)
Veio o 25 de Abril, em 74, e enchemos as ruas de alegria e aromas exuberantes; vivemos um inesquecível e intenso Carnaval fora de época com a libertação dos sacrificados e heróicos presos políticos, a extinção da perversa e nojenta PIDE/DGS, o regresso, triunfal, dos exilados políticos, o fim da censura, o restabelecimento da Liberdade e Democracia, o Sindicalismo, não corporativo, à luz do dia.
Euforia dos que tiveram a sorte de ver nascer um novo Abril – nos beijos e cravos trocados, nas manifestações de júbilo, com largos milhares (um milhão?) de pessoas, nas idas, solidárias e úteis, para o Interior do País.
Cólera, também, quando tentavam roubar-nos o que tanto custara a várias gerações, no caminho da obtenção da meta tão esperada, desejada, já amada antes de nascer.
(Cá em casa continua a linda flor, na cor que não esqueceremos, no 25, no 1.º de Maio e quando nos apetece, assim como em tantos outros lares, neste Portugal que amamos.)
Gozámos, a partir de 1976, o período alusivo à tradicional folia sem que ninguém da força militarizada que, nesta terra ribeirinha do Tejo, tanto mal nos tinha feito, nos mandasse retirar as máscaras – uma vitória, também.
Verdade seja que tal autoridade mudava a postura para que fora treinada, durante décadas, inclusive elevar as patas dianteiras dos cavalos, à porta dos campos de futebol, junto a nós; um “delícia”.
(Criança, atravessara o então, salvo seja, denominado Parque Oliveira Salazar, durante a Campanha Eleitoral do General Humberto Delgado para ir à casa da minha avó, pertinho.
Um susto no regresso com uma das tais fardas com boca a perguntar-me: “Para onde é a ida, minha menina?”, veículos repressivos na estrada, a curta distância, eu a tremer até chegar ao pé do conforto materno.
Péssimas marcas deixam as ditaduras!)
Carnaval que a Democracia ampliou, aperfeiçoou e até fez criar riqueza em muitas terras, com destaque para o cuidado nele posto na Região Autónoma da Madeira (falar agora, jocosamente, desta parte do território nacional lembra-me o anedotário fascista contra o Alentejo, parte das minhas orgulhosas raízes, as actuais parvoíces contra a Grécia-Mãe e, já agora, o nosso País.
(Tomara que a parolice acabe.)
Até aconteceu que um Primeiro-Ministro, já esgotado o que de razoável ou bom nos tinha trazido – suponho / supomos (não é?) que os eleitos têm o dever de introduzir as mudanças de que os povos necessitam e, por isso, confiam neles quando votam –, desvalorizou o Entrudo e perdeu o poder por essa e outras que andavam já a incomodar-nos e de que ele, no alto cargo, era o principal responsável.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, querido Mestre Luís de Camões: outros vieram, a água passou debaixo das pontes a testemunhar asneiras, enormes, de mais gente, quiçá responsáveis pelo que agora temos: dívidas e maioria governamental.
Só que esta “não acerta uma”, o que não é difícil, constituída por quem ignora, na sensibilidade (tê-la-á?), as grandes dificuldades, as dramáticas dificuldades de tantos compatriotas – novos, idosos, entre ambos os escalões etários –, sem trabalho, dinheiro, nutrição adequada, com doenças e limitações, físicas, psíquicas, sociais, escolares, castigados, para cúmulo, a viver em habitações (?) que envergonham qualquer mente bem formada.
Em síntese: parte da população desesperada e uma dúzia, alargada, de maiorais a dar-lhe sentenças, cada vez mais ridículas e eivadas de perigos contra a Cidadania.
Como a actual gestão dos nossos destinos não consegue destrinçar um cisne de um pato, os seus mentores estão, dia sim, dia sim, a ajudá-la impor sacrifícios, nas vertentes que lhe dão na real gana. (Não quererão, para dar o exemplo, tais “figuras tutelares” trocar os gordos ordenados pelo salário mínimo nacional?)
Com voz grossa connosco, que a consentimos, e fina com a senhora (?), o “grand seigneur” (?) da Europa, qual Luís XIV de trazer por casa, os mordomos destes e o trio que nos vigia (basta abrirem-lhes os olhos), os que são gatinhos de peluche quando vão lá fora, aqui armam-se em tigres, como a recente retirada (?) da tolerância de ponto da Terça-Feira Gorda mostra, mais uma vez.
(Digo a mim própria: “Deixa-me rir!”.
Obrigada, caro Jorge Palma.)
Um palpite: se consentirmos que o governo (como a palavra está no corpo do texto e não no título, registo-a com minúscula inicial) continue a reinar connosco, os exames de fim de ano lectivo e a conclusão das Ligas e Campeonatos serão no prezado dia de todas os divertimentos, em 2013…
(Realmente, que governo de um dia: o de Terça-Feira Gorda!
Para 2013 há mais.)
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos













