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O Elegante Comboio “Foguete”Por José Simões e Manuela Fonseca *

O automóvel, menos confortável e seguro, mais poluente, conta os dias, já passado(s), de inúmeros comboios e falará, um dia, da história dos negócios e negociatas que vão acabando com os Caminhos-de-Ferro, aqui e além.

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O Elegante Comboio “Foguete” Por José Simões e Manuela Fonseca *

Por Jornal Rostos

O Elegante Comboio “Foguete”

Habituada à Escola Superior de Educação de Setúbal, tive funções, como docente de Língua e Comunicação, na Superior de Tecnologia do Barreiro, entre 2004 e 2006.
Mais de trinta anos de ensino da Língua Portuguesa ter-me-iam dado o à-vontade para estar bem entre os novos alunos mas o respeito por trabalhar conteúdos programáticos diferentes, adequados a pessoas que tinham, certamente, interesses bem diversos daqueles com que, ao logo de tanto tempo, trabalhara, provocava-me, nas férias de Verão de 2003-2004, apreensão e estudo.

Procurava responder a questões, entre as quais: a motivação a proporcionar aos alunos, a textualidade adequada, os instrumentos a utilizar para melhorarem as competências em Língua Portuguesa.

Professora de Português e Francês de alunos dos Ensinos Preparatório, Liceal e Secundário, durante quinze anos, e os dezanove, posteriores, na Escola Superior de Educação de Setúbal, ligada à primeira disciplina, bem com a Literatura (Infantil e Universal), também com acções de formação em Portugal e países da União Europeia, chamava-me, então, a futura actividade.
Optimista, entendi que seria mais um passo numa carreira feliz.

Procurei o que me pareceria fazer uma aproximação aos interesses de alunos de Engenharia Civil, em horários diurno e nocturno.
Os desta traziam a bagagem de interessantes e experiências profissionais – civis e militares –, tal como preocupações com as famílias constituídas – os filhos de alguns tinham dificuldade no ingresso num mercado de trabalho cada vez mais afunilado, mal pago, com distinções, antidemocráticas, entre a maioria da população e as minorias privilegiadas.

Escutei os adultos e os mais novos em situações complicadas, neste Portugal que nunca mais deixa de ser “O País em Inho” de um poema de Manuel Alegre, datado de há trinta anos.

Foi interessante ter passado pela Escola Superior de Tecnologia naqueles dois anos anteriores ao meu último, aparecido abruptamente e sem a dignidade com que sempre imaginei a despedida de uma actividade, paixão de infância, a que tanto dei, no cumprimento do meu dever para com o desenvolvimento, através do acto educativo.

Exerci, na Rua de Stinville, no velho Bairro Operário, no antigo Centro Educativo da CUF que ajudou na e à formação de tanta gente nova da nossa então vila.

O excelente clima da Escola Superior de Tecnologia, a cuidadosa transformação operada no edifício para prover ao ensino e aprendizagem (como achava interessante vê-los praticar para a disciplina de Topografia mesmo junto ao renovado edifício!
E o que me ria com um rapaz que, ao tirar o café ou qualquer outro produto da máquina, lhe chamava “a senhora do Bar”!) tornaram-me inesquecíveis os dias em que aprendi a aprender a ensinar novos engenheiros.

Alguns deles ainda não me esqueceram, o que lhes agradeço.
Troco correspondência, por via electrónica, com José António Henriques de Jesus.

Ambos pertencemos à alargada família ferroviária que, quando ouve ou vê passar um comboio, não fica indiferente a isso.

Há uns dias, enviou-me um “Powerpoint” que mostra elementos deste meio de transporte, de prestáveis a deitados fora, ao deus-dará, um dos tristes emblemas da Europa e de Portugal, principalmente desta Cidade, uma terra que teve um Depósito de Máquinas cheio de homens, os filhos que, de fugida, às vezes os acompanhavam, gavetas marotas com segredos nunca mais desvendados pelas mulheres de alguns deles, locomotivas que entravam e saíam, a qualquer momento, da placa giratória, sons de reparações ligeiras, de abastecimento de água, sons de trabalho, de ganha-pão.

O automóvel, menos confortável e seguro, mais poluente, conta os dias, já passado(s), de inúmeros comboios e falará, um dia, da história dos negócios e negociatas que vão acabando com os Caminhos-de-Ferro, aqui e além.

Eis como me respondeu ao agradecimento, o humor que lhe é próprio presente:

– Tal como a Manuela, também tenho umas costelas ferroviárias. Aliás, a(c)tualmente, tenho todas aquelas que os meus pais tiveram a gentileza de me desenhar, assim como as que eles próprios já tinham, derivadas dos meus avôs, ambos maquinistas, também do tempo do vapor; e do Entroncamento; e ambos Simões de apelido (ainda agora não percebo porque não me ba(p)tizaram “Zé Qualquercoisa Simões & Simões”).

O meu pai, que na juventude substituía o meu avô nas manobras enquanto este comia a bucha (OFF THE RECORD, embora já tenham passado muitos anos mas é sempre mais fácil dar uma talhada num mexilhão do que…), quase ia sendo ferroviário também. Tentou outra sorte e veio parar à CUF.
(O “off the record” acabou por me ser permitido na montagem textual, enquanto evocava o meu pai, no serviço de manobras, a levar-me, escondida, na locomotiva…)

E, a propósito da pergunta se já opera como portador da profissão para que está creditado, agora que se encontra a trabalhar no troço Vendas Novas-Évora:

– Nota: o Eng.º ainda está desempregado. Não com a pouca sorte dos demais pois ainda tem o seu trabalhinho de há 30 anos. Conte lá isso para o que contar, desde os tempos em que o “Foguete” ajudou a ver tanta coisa! …
Este novo trabalho é consequência de muito saber de experiência feito, coisa que no nosso país pouco vale! Pouco vale, para aquilo com que se compram os melões; já para dar uma mãozinha (ou o corpinho todo!) é mais do que suficiente.
Cumprimenta-me, respeitosamente.
Como sempre.

(Talvez eu pensasse o que me diria, face ao contexto de desvalorização em que uns bacocos quaisquer que não sabem o que é uma travessa querem colocar-nos.)

Como eu gostava de ir com os meus pais ao Norte, no mais bonito e veloz comboio, admiração da adolescente no encantamento, sempre novo, das paisagens, naturais e construídas, até chegar ao Porto!
Aí, o progenitor, orgulhoso da profissão de família, ia cumprimentar os colegas do “Foguete” a quem nos apresentava, uma ponta de vaidade ao dizer que eu havia de ser professora e que a esposa, graças a um detergente americano, já não era escrava das nódoas de óleo dos fatos de trabalho, algo ultrapassado, felizmente, pela tecnologia do novo transporte.

Ainda o herdeiro Simões:

– Respostas telegráficas, pois que isto são horas de labor…
Sim, o pai vinha trabalhar n’“A Capital”. Quando chegou, percebeu que a condição obrigatória para a admissão era a de informador, o que, para além de surpresa, não foi do agrado do Zé Simões. E por isso seguiu além-Tejo e assim ficou na CUF.

(Fico sempre perplexa quando oiço portugueses que, sabedores dessas vergonhas, ainda falam, elogiosamente, de um ditador que, na terra que o viu nascer, vai ter o nome como marca; de quê?)

Conto ao José António que fui monitora da Telescola no Externato Moderno do Barreiro (Casa de Saberes e Cultura) dos saudosos Dr.s Hélder Fráguas, Joaquina e José Barbado, ao mesmo tempo que frequentava a Faculdade de Letras, no início da década de setenta.
Fui, então, forçada – quando peguei na velha caneta, fiz as figas que, já há séculos, D. Pedro I teria referido a Inês de Castro para a desobrigar de determinada situação – a declarar, no Cartório Notarial, com assinatura aposta, que não “professava ideias subversivas contra o Estado Português.”
(Esse era o dos “bufos” e pides, não o meu!)

Que humilhação para os milhares de pessoas – entre as quais me incluo e nem o esqueço ou omito – que foram o-bri-ga-das a fazê-lo!
(Quantas gerações teriam sido achincalhadas com o raio do papel que ainda sinto como um ferrete, mais de quarenta anos depois do preenchimento?)

Para terminar, disse-me:

– Boa sorte para essa coisa da …
(Mais um exame médico complementar a que, entretanto, já fui submetida e deu boas indicações ao pessoal clínico que me trata, na excelência da sua profissionalidade.)

Bj.

Pois, caro José António, até novos “Powerpoint” e texto?
Ou vamos comentar um filme, que acabo de consultar, colocado no “You Tube”, onde o maquinista José Encarnação fala em nome do Movimento Património Memória e Futuro?
Lê-se no mesmo a expressão “Depósito de Tracção”, com se fora uma brincadeira de mau gosto para todos os que, como eu, o conheceram quando, de facto, o era. (1)

José Simões
e
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Referências
Movimento Património Memória e Futuro, “Barreiro Memórias”,
www.youtube.com/results?search_query=BarreiroMemórias&oq=BarreiroMemórias&aq=f&aqi=&aql=&gs_sm=12&gs_upl=0l0l0l27605l0l0l0l00l0l0l0l0ll0l, consultado em 19/3/2012.

Foto - Google

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