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Amêndoas amargasPor Jorge Fagundes
Barreiro

"Meu Amigo, que bonito rol me apresentas. Olha lá: a notícia refere que também vão ser suspensas aquelas brutas reformas auferidas por alguns génios ao fim de pouco mais do que meia dúzia de anos de actividade?"
"Mau, mau. Olha o fantasma do velho coronel do lápis azul à tua espreita. Muda de conversa!"

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Amêndoas amargas Por Jorge Fagundes Barreiro

Por Jornal Rostos

Depois do almoço, caseiro, lá fui até ao Ginásio-Sede do Barreirense a fim de entregar o meu requerimento para a entrada no clube dos novos-ricos, vulgo prémio maior do euromilhões.
Se, como dizem, o destino é fatal, o meu velho Amigo da Alfredo da Silva estava, como é habitual, bem instalado numa das esplanadas junto ao Parque, saboreando a sua bica e lendo um jornal diário. É certo que deu pela minha passagem e me chamou para lhe fazer um pouco de companhia e troca de conversa.
Reparei, de imediato, que apresentava um semblante carregado, e, por isso:
"Boa tarde" Que se passa contigo? Estás aborrecido?"
"Boa tarde, meu Amigo.
Então achas que deveria dar pulos de contentamento?"
"Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. O tempo, aliás, nem está muito primaveril, mas é fruta da época".
"Não é o estado do tempo que me preocupa, ainda que a minha Catarina preferisse ir até ao Algarve, à nossa, por enquanto, chamada casa de férias".
"Em verdade, entre apanhares chuva algarvia e chuva barreirense, acho que fizeste bem em não sair da nossa terra. Mas, porque estás com esse ar?"
"Ora, porque é Páscoa!"
"Só por isso?"
"Achas pouco? Ainda não há muitos anos, na nossa meninice, a Páscoa era, tal como o Natal, uma data para ser passada em família. Ainda te deves lembrar que a minha mãe, no domingo de Páscoa, apresentava sempre, à nossa mesa, um delicioso cabrito assado no forno da padaria vizinha".
"Se me lembro! Até os ossinhos se lambiam!"
"Pois, agora, onde está o cabrito? Segundo a minha Catarina é preciso encomendá-lo e custa quase tanto como uma onça de ouro!"
"Não me digas. Será por falta de cabras?"
"Bem, bem, não vás para esse lado, não vá aparecer por aí o fantasma de um velho coronel de lápis azul na mão!"
"Mesmo assim não vejo razão para o teu aborrecimento. Se não há cabrito, deve haver borreguinho que, bem cozinhado e bem apaladado, pode substituir aquele. E, às vezes, até passa por cabrito num ou noutro restaurante".
"Meu Caro Amigo,não é isso. Quando éramos rapazitos, além da melhoria de rancho pela Páscoa, o que é que havia?"
"Não me digas que estás a referir-te às amêndoas?"
"Isso mesmo. Avulsas, ou em pequenos pacotes, era um regalo trincá-las, uma gulodice muito do nosso agrado".
"Mas, meu Amigo, amêndoas é que não faltam aí pelas montras das pastelarias. De muitas espécies, cores e recheios e, vá lá, a atirar para o carote".
"Não me refiro a essas mas sim às que os órgãos informativos estão sempre a mencionar".
"Essa agora! Não me digas que me escapou alguma notícia sobre as amêndoas portugueses serem mais exportadas do que os pastéis de nata!"
"Não brinques com coisas sérias. Apenas três dos muitos exemplos que nos são dados pelos órgãos de informação. Primeiro: os cortes dos subsídios de férias e de Natal são temporários e durarão até às calendas gregas, perdão, até 2015, que os gregos em que nos tornaram não foram ouvidos, nem achados. Segundo: o governo admite que já pensou diluir o pagamento dos subsídios de férias e de Natal por doze meses. Isto é encapotamento para acabar, mas as retenções de IRS serão maiores. Terceiro: as reformas antecipadas, antes dos 65 anos de idade e na Segurança Social, vão ser suspensas".
"Meu Amigo, que bonito rol me apresentas. Olha lá: a notícia refere que também vão ser suspensas aquelas brutas reformas auferidas por alguns génios ao fim de pouco mais do que meia dúzia de anos de actividade?"
"Mau, mau. Olha o fantasma do velho coronel do lápis azul à tua espreita. Muda de conversa!"
"Mas, afinal, qual a relação entre essas funestas notícias e as nossas velhas e saborosas amêndoas?"
"É fácil, é fácil, meu Amigo. Estas amêndoas que o governo nos oferece (?) neste período pascal, não são doces, antes pelo contrário, são mais do que amargas. E por aqui me fico".

Jorge Fagundes

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