Saltar para o conteúdo
Colunistas

Les MisérablesPor Pedro Estadão

Os resultados mais aterradores das revoluções do Séc. XX tiveram origem no sobressalto provocado pelo crescimento desmesurado dos numeros dos miseráveis nas grandes cidades Europeias, numa ou noutra época. Hoje, vivemos o mesmo fenómeno, mas andamos de olhos fechados, não queremos ver.

3 min de leitura
Les Misérables Por Pedro Estadão

Por Jornal Rostos

Hoje é dia de despejar a sucata na minha parte de Paris. Os vizinhos saem de casa e colocam os objectos inuteis ou estragados no meio da rua; das sombras surgem vultos, que vivem do vasculho do lixo dos outros. Paris, Londres, Roma, Birmingham, Budapeste, Atenas, Dublin, Frankfurt, Madrid, Lisboa… por todo o lado, o lixo de uns passa a ser o luxo de outros (o meu olhar tende a fixar-se nestas insignificâncias). Em tempos, escrevi acerca de uma cidade em que vivi que ela continha toda a podridão e lixo das grandes cidades, hoje, esta ideia voltou-me à cabeça, mas voltou com juros, quanto maiores são o luxo e a exuberância, maior é a miséria que os rodeia, e o contraste, torna a visão ainda mais chocante.

Penso que falta aos comentadores televisivos uma boa dose de vida nos suburbios das grandes cidades para poderem tecer as considerações que nos vendem aos serões, falta-lhes perceber que os personagens de Vitor Hugo ainda estão bem vivos. Podem não se chamar Fantine, Coséte ou Marius, mas vivem nas ruas de todas as cidades de todo o mundo, e são « Miseráveis », e enquanto houverem miseráveis no nosso continente não poderemos sonhar com uma Europa livre de conflitos e conturbações internas. Veja-se o caso do Grego que se suicidou em frente ao Parlamento e perceba-se que, cada dia, são mais os cidadãos desta Europa que passam a fronteira que separa uns dos outros : cada vez mais aumenta o numero dos miseràveis.

Vão haver eleições em França e há por aí quem não esteja convencido de que o Sr. Sarkozi vai perder as eleições, eu, acabei de ver com os meus olhos que vai, da mesma forma que vão ser derrotados todos os governos que estão a perder a guerra com a Alemanha. Sim, é uma guerra; silenciosa, mas não deixa, por isso de ser uma guerra. Todos os politicos europeus se esqueceram das razões que estiveram na base do trabalho de Robert Schuman e Jean Monet para a fundação da CECA (Comunidade Europeia do Carvão e do Aço), os ideais humanistas e de solidariedade entre os povos europeus que os nortearam e as duas guerras mundiais que a precederam. Quando entràmos no Séc. XXI, apressaram-se a deixar para trás o século passado e a sua historia.

Os resultados mais aterradores das revoluções do Séc. XX tiveram origem no sobressalto provocado pelo crescimento desmesurado dos numeros dos miseráveis nas grandes cidades Europeias, numa ou noutra época. Hoje, vivemos o mesmo fenómeno, mas andamos de olhos fechados, não queremos ver. Também era esse o caso no tempo em que o Sr. Vitor Hugo escreveu o seu famoso romance sobre os miseràveis de Paris, que termina nas vésperas da revolução de1848. Agora, o efeito de escala é maior, a Europa unida é maior que a soma das partes, espero que os politicos que nos governam a todos olhem para tràs e se lembrem do que tem acontecido quando a gula dos estados esmigalha a justa aspiração dos povos a uma vida digna. Um dia, os europeus vão acordar e perceber que vivem todos num unico grande pais chamado Europa e vai haver um sobressalto.

Como todos os anteriores, vai ser inesperado, apesar de imprevisivel.

Paris, 20 de Abril de 2012
Pedro Estadão

Publicidade

Notícias relacionadas

Publicidade

Notícias por secção