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Em Memória, Conjunta, de Miguel PortasPor Manuela Fonseca e Maria Genoveva Pimpista
Barreiro

Cada 25 de Abril me faz sonhar! Ainda me faz sonhar!
Percorro as memórias e abro as janelas da vida e recordo os momentos de angústia de uma vida marcada pelas dificuldades económicas, pela exploração, pela segregação (eu era a miúda, filha de operário, destinada a ser uma boa secretária, pois mais não poderia alcançar!)
Esqueceram-se de que os filhos dos operários são os mais resistentes, aqueles que melhor se adaptam aos rigores dos "invernos" vestidos de negro!

6 min de leitura
Em Memória, Conjunta, de Miguel Portas Por Manuela Fonseca e Maria Genoveva Pimpista Barreiro

Por Jornal Rostos

As comemorações do 25 de Abril pela vez primeira, na Sessão Solene da Assembleia da República, sem a presença da Associação com o nome do dia da Revolução, dos Capitães que tinham devolvido a Dignidade aos Portugueses.
Indignados pelo que se passa em Portugal: os cheios cada vez mais cheios, os desapossados cada vez mais desapossados!

Na véspera, um cavalheiro, num debate televisivo, tinha chamado a essa gente, tão nobre, que fizera Portugal ter orgulho em si próprio, “brigada do reumático”.
Certamente ouvira falar muito desse grupo de oficiais superiores – Maria escrevia as iniciais da expressão, propositadamente, com letras minúsculas – que tinha ido prestar vassalagem a Américo Tomás, depois do Levantamento das Caldas e que assim ficara conhecida pelos antifascistas. Ainda novo, fizera, talvez, confusão entre militares de Abril e os do salazarismo, numa afirmação patética e paradoxal.
Esse comentador, aliás pessoa simpática, sóbria e informada – o ecrã também servia para um contraditório, disparatado? – deixara a antiga professora sinceramente admirada com a frase infeliz.

Soubera, pouco depois, num noticiário, do falecimento de Miguel Portas.
O que de escandaloso se fazia, em Portugal e “arredores”, como dizia habitualmente, a muitos trabalhadores (ou, infelizmente, também a ex-trabalhadores) deixava-a com menor fulgor para combater os inimigos: o capitalismo e o que tinha nas entranhas. E agora o desaparecimento de Portas aumentava-lhe a insegurança.

Não se relacionara com Miguel Portas – só o vira, pessoalmente, uma vez, numa Acção de Formação – mas respeitava-lhe a obra política. E a coerência.
Não o sabia pior da doença que, há tempos, o apoquentara e à qual ela tentava escapar.
O pai ensinara-lhe, garota, no mar de Albufeira, que, quando havia ondas, teriam que ser enfrentadas com cuidado para se passar, debaixo delas, sem sobressaltos. Isso era uma das bússolas da sua vida e tentara mergulhar assim, denotativa e conotativamente, nos últimos cinco anos: nos livros, no computador, nos conselhos, seguidos à risca, da médica, nos tratamentos, cheia de cuidado com eles, na vida familiar – adorava dizer que o filho mais velho deveria ter origem asiática, como o pai, e o mais novo, africana, como ela, proveniente, com certeza, da Mina de S. Domingos.
Embrenhava-se, também, nas Artes e no futebol este, através da rádio ou da televisão (para além de três jogos, um do Barreirense e os outros do Porto, vistos, “in loco”, através da iniciativa do antigo aluno, amigo, confrade desportivo, um sobrinho adoptado, Paulo Pardana, que sabia bem o que a animava), a tentar livrar-se, como podia, do peso da doença.

Não costumava perguntar às pessoas conhecidas do Bloco de Esquerda pela saúde de Portas – achava que, fazê-lo, era uma barbaridade.

E assim, depois de um belo dia em que correspondera ao convite da sua Câmara Municipal para ligar o “Abril” que vivera a crianças de agora – fora a uma Escola do Primeiro Ciclo, em Palhais, e cruzara as vertentes estéticas Literatura e Ilustração. As crianças, muito atentas, em diálogo umas com as outras e com ela, no reconto de uma linda e simples história de Leonel Neves, “O Soldadinho e a Pomba”, a que Tóssan dera o traço – alunos do 4.º ano que a tinham entusiasmado pelo interesse no tecido de palavras, cheias de graça e sentido.
Na pequena introdução que Maria fizera ao “25”, o seu amado e memorável “25”, alguns alunos tinham referido, acto contínuo, o que as avós diziam acerca da falta de Liberdade antes dele.

O filho mais velho, assistente operacional da Autarquia, devidamente autorizado pela compreensiva chefe – que sabia que os rapazes apoiavam imenso a mãe, neste momento delicado da vida – e o Dr. Paulo Miguel, Técnico Superior da Área Educativa e responsável, cuidadoso, pela ida de Maria à escola citada, bem viram o brilho nos olhos dela, uma espécie de esquecimento de já não ser professora pelas razões que todos conheciam.

Voltava a Miguel Portas, Homem que sabia o que queria para lutar pelo País: um dia, a História far-lhe-ia justiça, quando fosse criada uma Comunidade de Povos Mediterrânicos, grupos étnicos e históricos que, estudioso, tanto investigara.
Também a luta, coerente, do político pela multiculturalidade nas escolas europeias seria um marco da União.
Sossegou um pouco. Os seus não estavam, tinham ido participar e, ou, gozar o ar puro do 25 de Abril – estava um tempo desagradável para ela e resolvera, assim, passar os olhos pelas mensagens electrónicas.
Tinha enviado aos íntimos os links de dois textos que produzira – gostava de se aproximar deles assim – e recebera, entre outras, a seguinte mensagem:

“Querida mana velha!
Cada 25 de Abril me faz sonhar! Ainda me faz sonhar!
Percorro as memórias e abro as janelas da vida e recordo os momentos de angústia de uma vida marcada pelas dificuldades económicas, pela exploração, pela segregação (eu era a miúda, filha de operário, destinada a ser uma boa secretária, pois mais não poderia alcançar!)
Esqueceram-se de que os filhos dos operários são os mais resistentes, aqueles que melhor se adaptam aos rigores dos "invernos" vestidos de negro!
Esqueceram-se de que as nossas vozes são as mais límpidas porque sempre fomos habituados a falar para exigir aquilo que já era nosso por direito!
Dá-me vontade de rir quando ouço falar aqueles que nunca viram florir os campos alentejanos desfiar histórias de sofrimento que desconhecem!!
Poderia continuar...mas tu já sabes tudo o que eu quero dizer!
Por isso, é um privilégio saber que ainda há quem se lembre das músicas, das letras, das metáforas esquecidas!
É um privilégio ler-te e ouvir-te e saber que estou contigo no coração há muitos 25 de Abril e que estarei sempre!
Beijos docesssssssssssssssssssssssssss!
A tua Maria Ge”

Sim, Miguel Portas, bem entendera o que era ser filho dos explorados, e entenderas ainda, tão excelentemente, estar ao lado dos mais explorados.

(Dentro da tristeza do momento, tinham-se rido por se tratarem como Paulo Portas dissera que ele e o irmão o faziam.)

Fariam o que pudessem para continuar, da forma que sabiam, honrar os teus valores e obras.

Maria Genoveva Pimpista
e
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos

Foto - Miguel Portas numa sessão no Barreiro

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