Em Memória, Conjunta, de Miguel PortasPor Manuela Fonseca e Maria Genoveva Pimpista
Barreiro
Percorro as memórias e abro as janelas da vida e recordo os momentos de angústia de uma vida marcada pelas dificuldades económicas, pela exploração, pela segregação (eu era a miúda, filha de operário, destinada a ser uma boa secretária, pois mais não poderia alcançar!)
Esqueceram-se de que os filhos dos operários são os mais resistentes, aqueles que melhor se adaptam aos rigores dos "invernos" vestidos de negro!

Por Jornal Rostos
As comemorações do 25 de Abril pela vez primeira, na Sessão Solene da Assembleia da República, sem a presença da Associação com o nome do dia da Revolução, dos Capitães que tinham devolvido a Dignidade aos Portugueses.
Indignados pelo que se passa em Portugal: os cheios cada vez mais cheios, os desapossados cada vez mais desapossados!
Na véspera, um cavalheiro, num debate televisivo, tinha chamado a essa gente, tão nobre, que fizera Portugal ter orgulho em si próprio, “brigada do reumático”.
Certamente ouvira falar muito desse grupo de oficiais superiores – Maria escrevia as iniciais da expressão, propositadamente, com letras minúsculas – que tinha ido prestar vassalagem a Américo Tomás, depois do Levantamento das Caldas e que assim ficara conhecida pelos antifascistas. Ainda novo, fizera, talvez, confusão entre militares de Abril e os do salazarismo, numa afirmação patética e paradoxal.
Esse comentador, aliás pessoa simpática, sóbria e informada – o ecrã também servia para um contraditório, disparatado? – deixara a antiga professora sinceramente admirada com a frase infeliz.
Soubera, pouco depois, num noticiário, do falecimento de Miguel Portas.
O que de escandaloso se fazia, em Portugal e “arredores”, como dizia habitualmente, a muitos trabalhadores (ou, infelizmente, também a ex-trabalhadores) deixava-a com menor fulgor para combater os inimigos: o capitalismo e o que tinha nas entranhas. E agora o desaparecimento de Portas aumentava-lhe a insegurança.
Não se relacionara com Miguel Portas – só o vira, pessoalmente, uma vez, numa Acção de Formação – mas respeitava-lhe a obra política. E a coerência.
Não o sabia pior da doença que, há tempos, o apoquentara e à qual ela tentava escapar.
O pai ensinara-lhe, garota, no mar de Albufeira, que, quando havia ondas, teriam que ser enfrentadas com cuidado para se passar, debaixo delas, sem sobressaltos. Isso era uma das bússolas da sua vida e tentara mergulhar assim, denotativa e conotativamente, nos últimos cinco anos: nos livros, no computador, nos conselhos, seguidos à risca, da médica, nos tratamentos, cheia de cuidado com eles, na vida familiar – adorava dizer que o filho mais velho deveria ter origem asiática, como o pai, e o mais novo, africana, como ela, proveniente, com certeza, da Mina de S. Domingos.
Embrenhava-se, também, nas Artes e no futebol este, através da rádio ou da televisão (para além de três jogos, um do Barreirense e os outros do Porto, vistos, “in loco”, através da iniciativa do antigo aluno, amigo, confrade desportivo, um sobrinho adoptado, Paulo Pardana, que sabia bem o que a animava), a tentar livrar-se, como podia, do peso da doença.
Não costumava perguntar às pessoas conhecidas do Bloco de Esquerda pela saúde de Portas – achava que, fazê-lo, era uma barbaridade.
E assim, depois de um belo dia em que correspondera ao convite da sua Câmara Municipal para ligar o “Abril” que vivera a crianças de agora – fora a uma Escola do Primeiro Ciclo, em Palhais, e cruzara as vertentes estéticas Literatura e Ilustração. As crianças, muito atentas, em diálogo umas com as outras e com ela, no reconto de uma linda e simples história de Leonel Neves, “O Soldadinho e a Pomba”, a que Tóssan dera o traço – alunos do 4.º ano que a tinham entusiasmado pelo interesse no tecido de palavras, cheias de graça e sentido.
Na pequena introdução que Maria fizera ao “25”, o seu amado e memorável “25”, alguns alunos tinham referido, acto contínuo, o que as avós diziam acerca da falta de Liberdade antes dele.
O filho mais velho, assistente operacional da Autarquia, devidamente autorizado pela compreensiva chefe – que sabia que os rapazes apoiavam imenso a mãe, neste momento delicado da vida – e o Dr. Paulo Miguel, Técnico Superior da Área Educativa e responsável, cuidadoso, pela ida de Maria à escola citada, bem viram o brilho nos olhos dela, uma espécie de esquecimento de já não ser professora pelas razões que todos conheciam.
Voltava a Miguel Portas, Homem que sabia o que queria para lutar pelo País: um dia, a História far-lhe-ia justiça, quando fosse criada uma Comunidade de Povos Mediterrânicos, grupos étnicos e históricos que, estudioso, tanto investigara.
Também a luta, coerente, do político pela multiculturalidade nas escolas europeias seria um marco da União.
Sossegou um pouco. Os seus não estavam, tinham ido participar e, ou, gozar o ar puro do 25 de Abril – estava um tempo desagradável para ela e resolvera, assim, passar os olhos pelas mensagens electrónicas.
Tinha enviado aos íntimos os links de dois textos que produzira – gostava de se aproximar deles assim – e recebera, entre outras, a seguinte mensagem:
“Querida mana velha!
Cada 25 de Abril me faz sonhar! Ainda me faz sonhar!
Percorro as memórias e abro as janelas da vida e recordo os momentos de angústia de uma vida marcada pelas dificuldades económicas, pela exploração, pela segregação (eu era a miúda, filha de operário, destinada a ser uma boa secretária, pois mais não poderia alcançar!)
Esqueceram-se de que os filhos dos operários são os mais resistentes, aqueles que melhor se adaptam aos rigores dos "invernos" vestidos de negro!
Esqueceram-se de que as nossas vozes são as mais límpidas porque sempre fomos habituados a falar para exigir aquilo que já era nosso por direito!
Dá-me vontade de rir quando ouço falar aqueles que nunca viram florir os campos alentejanos desfiar histórias de sofrimento que desconhecem!!
Poderia continuar...mas tu já sabes tudo o que eu quero dizer!
Por isso, é um privilégio saber que ainda há quem se lembre das músicas, das letras, das metáforas esquecidas!
É um privilégio ler-te e ouvir-te e saber que estou contigo no coração há muitos 25 de Abril e que estarei sempre!
Beijos docesssssssssssssssssssssssssss!
A tua Maria Ge”
Sim, Miguel Portas, bem entendera o que era ser filho dos explorados, e entenderas ainda, tão excelentemente, estar ao lado dos mais explorados.
(Dentro da tristeza do momento, tinham-se rido por se tratarem como Paulo Portas dissera que ele e o irmão o faziam.)
Fariam o que pudessem para continuar, da forma que sabiam, honrar os teus valores e obras.
Maria Genoveva Pimpista
e
Manuela Fonseca *
* Colunista do Jornal Rostos
Foto - Miguel Portas numa sessão no Barreiro













