Nós somos mas é malucos! (importante reflexão sobre o desgoverno de Portugal)Por Pedro Estadão
Barreiro

Por Jornal Rostos
Caros leitores,
Sou um emigrante exótico. Confesso que prefiro a tranquilidade do campo ao bulício das grandes cidades. Desta vez dou por mim em França, numa vila de vós pouco ou nada conhecida, de seu nome Bar-le-Duc, que será chamada para a conversa daqui a nada. Para quem não sabe, vivi recentemente uma experiência idêntica na Inglaterra rural, em Shifnal, uma aldeia igualmente anónima para os meus leitores portugueses, que ficariam porventura mais esclarecidos se eu lhes dissesse que era a terrinha ao lado de Whitchurch que é uma espécie de nenhures onde o Daniel Silva esconde o cadáver da holandesa no seu "Unlikely Spy", ou, ainda assim, talvez não. Se eu estiver a ser chato, façam o favor de mudar para outra página (é só clicar), se ainda estão intrigados com o título e querem ficar a macacar numas coisas, façam o favor de continuar. Em todo o caso, isto é só para dizer que tanto numa como noutra, o único rasto de um português que encontrei foi contarem-me a história de um que tinha cá estado antes de mim.
À hora que vocês estiverem a ler esta crónica já "François, le Français" terá ganho as eleições presidenciais (não consegui resistir a ser o primeiro a dar-lhe a alcunha porque me lembrei dela hoje à tarde e ainda não consegui parar de rir), Enfim, divago. Directo ao assunto, já era para ter escrito este artigo há um ano atrás, quando estava em Inglaterra, mas abstive-me devido à falta de dados suficientes para correlacionar, (na altura era mais uma sensação que uma observação cuidada). Hoje, sem querer, bati com os olhos naquilo que vos queria dizer mas não tinha forma de concretizar por palavras. Terminada esta introdução em forma de enquadramento, vamos à história:
"Acabei de sair do trabalho, olhei para o relógio e pensei: sexta-feira, tão cedo, estou sozinho,o que é que vou fazer agora? Pego no telefone, ligo para os cinco amigos mais próximos geograficamente, um está em Paris, outro n Luxemburgo, outra em Bruxelas, outro em Estrasburgo, outra em Lausanne. Eu, a coisa de hora e meia, duas horas de qualquer um deles. Não consegui resistir a um jantar de bifinhos de perú panados com puré de batata e em vez de me enfiar no TGV, meti-me no carro e enfiei-me na auto-estrada em direcção ao Luxemburgo. Tendo chegado após uma hora e um quarto, repastei e convivi em casa do meu colega Luis, que não via desde os tempos da escola, quando os pais dele para ali emigraram. Uma visita prometida há duas décadas e agora cumprida que muito me satisfez. Feitas as despedidas, fiz-me à estrada. Foi então que esta importante reflexão me surgiu subitamente. Bate-me nos olhos, em plena auto-estrada que liga, reparem, Paris ao Luxemburgo, um sinal para ter atenção à travessia de caça grossa. Foi então que toda a reflexão que se segue desmoronou na minha cabeça."
Duas das cidades com mais elevado rendimento per capita do mundo, capitais de dois dos mais ricos paises europeus, estão ligadas por uma autoestrada com duas faixas sem vedação, não me lembro de ter visto qualquer câmara de controlo de tráfego, a berma é estreita, ida e volta foram 300 Kms e paguei menos de 10 euros de portagem. Nós, vamos ter brevemente uma com três faixas e telemetria do arco do caraças entre Coina e a Costa da Caparica, devemos estar mas é malucos. Os 170 Kms de Coina à portagem do Algarve (duas faixas, com berma que dá para fazer mais duas), vedação de norte a sul, dos dois lados, para evitar os penetras porque uma vala não chegava, telemetria, câmaras de fil(m)ar e separador ajardinado, 18 euros de portagem. Isto acorreu-me porque já em Inglaterra tinha estranhado a inexistência de bermas nas estradas, tanto lá como aqui, substituidas elegantemente por pasto de escalracho aparado (que também serve quando um gajo tem que parar na berma para vazar a bexiga), o que, aliás, nunca os vi praticar, ao contrário do nosso país, onde a actividade parece ser uma espécie de tradição nacional. Quer dizer, se eles tivessem bermas alcatroadas, se calhar também lhes dava para isso, mas o trabalho de lavar o carro depois de o tirar da relva não compensa (digo eu).
Deois, pus-me a pensar o que é que eles fizeram ao dinheiro daquele alcatrão todo que não gastaram e veio-me à cabeça aquilo que muito me intrigou na outra terrinha e que nesta se manifesta de forma chocante. É que Bar-le-Duc, que numerologicamente é a segunda cidade que conheço a seguir a Barcelos, que começa por BAR e tem o mesmo número de letras que o Barreiro, não chega a 16000 habitantes, tem escolaridade até ao nível do politécnico, 6 farmácias, centro de saúde e hospital (os cidadãos aqui devem vender saúde porque o Hospital não tem listas de espera),ainda tem comboio, TGV e 4 linhas de autocarros. À semelhança da Covilhã o maior empregador é uma fábrica de lãs e a maior parte dos negócios são familiares e à roda de profisssões artesanais. Ainda arranjaram espaço para cá enfiar um Mc Donalds e dois hipermercados. A aldeiazita de inglaterra tinha sensivelmente o mesmo a menos de 10 minutos de carro. Desconfio que o dinheiro do alcatrão foi para pagar a educação e a saúde, em Portugal, é ao contrário. Devemos é estar malucos.
Ainda não aprendemos uma coisa importante, que infelizmente eles aqui (e na Inglaterra), aprenderam nas grandes guerras, que foi a racionalizar os escassos recursos disponíveis, eles por aqui não poem nem mais um prego do que o necessário, quando for preciso alargam a estrada, não fazem estradas à espera de transito que nunca vai aparecer, ou para a malta ir de férias uma vez por ano. E isto reflecte-se na maior parte das actividades económicas, aqui, em Inglaterra e noutros paises europeus que passaram pelo mesmo. Nós, é tudo à vara larga e depois não queremos estar em apuros. Devemos estar mas é malucos.
As normas europeias nestes dois paises são interpretadas da forma que dá mais jeito, ai em Portugal são seguidas religiosamente e ao pé da letra. Pois, não pensem que há cá três casas de banho em cada estabelecimento comercial nem problemas de licenciamento dos negócios por excesso de normativas. O que há é um entendimento racional entre as partes envolvidas e uma vontade enorme das autoridades locais para ajudar quem quer instalar novos negócios. Ai , para haver serviços públicos diligentes, é preciso haver cunhas. Andamos a fazer o que os outros pregam e não praticam e ainda por cima gastamos o que temos e o que não temos em coisas que feitas de outra forma não nos teriam saido tão caras. Nós somos mas é malucos.
Hoje paro por aqui, porque isto ainda vai dar pano para mangas e depois fica chato. Até à próxima e pensem bem na quantidade de coisas superfluas em que o estado gasta o nosso dinheiro depois não têm utilização ou sequer utilidade..
É... Não é?
Abreijos,
Pedro Estadão,
Bar-Le-Duc, Lorena, França













