O ritualPor Jorge Fagundes
Barreiro

Por Jornal Rostos
Com a pompa e a circunstância cada vez mais esbatidas pelo decurso dos tempos, lá se comemoraram os tradicionais 25 de Abril e 1º. de Maio.
Com essas datas se entrecuzaram dois factos que deram origem a inúmeros comentários e análises de cariz mais diverso, aqui e além reveladores da velha pecha do deixa-me lá aproveitar isto para puxar a brasa à minha sardinha.
Como segue: a ausência, nas cerimónias oficiais, muito em particular na Assembleia da República, da Associação 25 de Abril e o, aparente, bem conseguido golpe publicitário dos mercados Pingo Doce.
Como é sabido, e embora haja sobre o caso várias versões, a determinada altura do dia 25 de Abril de 1974 apareceram
cravos vermelhos nos canos das armas empunhadas por vários dos soldados participantes. E por isso, a nível nacional e internacional, se passou a apelidar aquele golpe militar de Revolução dos Cravos.
Flor essa, daquela cor, que se tornou um símbolo.
Mas, como e bem o escreveu, há séculos, Luís de Camões, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades".
Bem vistas as coisas, nestes decorridos trinta e oito anos, quantas e quantas vontades não se mudaram?
Para pior, dirão uns; para melhor, dirão outros. Paradoxalmente, com razão das duas partes, uma vez que os ideais de qualquer revolução, se se estagnarem no tempo, estarão fatalmente condenados.
Mas, voltando à "falta de comparência" dos militares de Abril na sessão comemorativa da Assembleia da República, olhando aqueles cravos quase a cem por cento exibidos pelos deputados e pelos membros do Governo, e recordando as medidas que, uns e outros, têm tomado, ou não tomado, não é que se fica com a desagradável sensação que a
maior parte daqueles cravos vermelhos, símbolos de Abril, foram reciclados?
Quanto ao 1º. de Maio, tudo como dantes. Exceptuando o 1º. de Maio de 1974, esse, sim, um dia de verdadeira e expontânea comemoração do povo português. Apenas bastou um escasso ano para que tudo se desfizesse e se acentuassem as divergência ideológicas.
E, desde então, sendo todos trabalhadores, vá de reparti-los: a Intersindical por um lado e a UGT por outro, sem esquecer o cada vez maior número de indiferentes.
Ora, vendo as milhentas fotos dos desfiles do 1º. de Maio, desde logo ressalta um pormenor: há anos que muitos dos protagonistas das primeiras filas são os mesmos, E como estão a ficar velhotes! O que é humano e natural. Mas, perfilhando, como constantemente apregoam, via discursiva ou via dos mesmissimos e repetitivos slogans, um modelo de sindicalismo dos fins do século dezanove, princípios do século vinte, estão, além de velhos na idade, cristalizados no pensamento.
E aqui entra o Pingo Doce e a sua campanha que assentou em, pelo menos, dois factores. Em primeiro lugar, na fraqueza dos sindicatos perante os trabalhadores, que dizem representar mas que, na sua esmagadora maioria, não aderiram à greve e, em segundo lugar, e principalmente, na ganância de muitos portugueses.
E não venham tentar dizer-nos que foram os pobrezinhos e esfomeados que se aproveitaram da situação.
Na verdade, e as imagens existentes são bem claras, nessas multidões não esteve, seguramente, nenhum daqueles milhares de portugueses que, de norte a sul, vão diariamente tomar uma refeição nas Misericórdias e em outra instituições. Nem daqueles que, por vergonha, ainda não cairam nesse campo e passam, entre as suas quatro paredes, muitas privações e provações.
E que não possuem, longe disso, pelo menos cem euros para gastar em campanhas habilmente ditas como dirigidas a quem tem menos recursos. Mas estiveram lá, e até se vangloriaram, indivíduos que gastaram mais de mil euros (!) em compras. Além daqueles, como o consta, que, como pequenos comerciantes preconizam o encerramento aos domingos e feriados das grandes superfícies, mas que bem se aproveitaram para fazer compras mais baratinhas para, em revenda, facturarem os artigos com maiores lucros!
Jorge Fagundes













